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Posts tagged ‘tradição’

pode o pecado ir a referendo?

Deverá o direito dos padres ao casamento ser referendado?

Considero um sinal do fim dos tempos (2012…será?) esta abertura recente da Igreja Católica (em Portugal pelo menos)  ao debate e ao referendo sobre o matrimónio entre pessoas do mesmo sexo. Este fim-de-semana mesmo, li um artigo de opinião no Público (sem link para não assinantes) a defender o referendo por toda uma série jurídica de razões assinado por um senhor padre-cura. Isso choca-me.

Imaginem há 50, 100, 300 nos atrás, um padre assumir o direito dos fiéis (e infiéis) de decidir se é (ou não) legítimo o casamento entre pessoas do mesmo sexo! Já o casamento entre sexos opostos ter como opção o civil em contraposição ao religioso foi um trauma danado para a sociedade. Depois veio o flagelo do divórcio entre pessoas que Deus uniu ( e para sempre, como se sabe). E, entretanto, há cada vez mais gente a ter filhos fora do casamento.

Se a Igreja Católica portuguesa tem aceite estes flagelos com resignação, a verdade é que não achou por bem referenda-los. A interrupção voluntária da gravidez foi a referendo e creio que nenhum padre defendeu essa consulta. Também é verdade que o padre-cura acima referido assinava o artigo na qualidade de vice-presidente duma associação de famílias (não sei se numerosas ou monoparentais, mas isso não é relevante).

Receio, portanto, que um destes dias apareça outro padre-cura a defender um referendo para decidir se os padres podem ou não casar.

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miopia ou burrice?

Nestas polémicas da ASAE, tribunais e legislação, fico sempre na dúvida se esta última é simplesmente mal feita, se é mal interpretada ou se é mal aplicada, mas, no fundo, no fundo, cada vez estou mais convencido de que além da burrice, há má-fé.

Agora, viraram-se contra a Confraria do Pão!

não estando, destarte, comprometida ou sequer postergada a actividade primeira da arguida, qual seja, a de divulgar e enaltecer as qualidades do pão produzido de acordo com métodos tradicionais (acórdão do tribunal do Redondo)

não estando, destarte, comprometida ou sequer postergada a actividade primeira da arguida, qual seja, a de divulgar e enaltecer as qualidades do pão produzido de acordo com métodos tradicionais (acórdão do tribunal do Redondo)

Mais adequado seria considerar a Confraria um Laboratório experimental sobre o pão tradicional alentejano. Quando recentemente a Assembleia da República legislou sobre o teor de sal do pão e o fixou (no máximo) em 14 gramas por Kilo, há 2 anos que vínhamos experimentando essa redução – em sucessivas amassaduras e sem descaracterizar o pão – e, com grande regozijo e mais valia para a Saúde Pública – tínhamos atingido valores à volta das 9 gramas de sal por Kilo.

Nós, não nos movimentamos no mercado do pão. O pão, para nós, não é uma mercadoria (uma “commodity” como se diz na moderna linguagem técnica), mas uma parte indissociável de todos nós – portugueses – que apostamos em preservar. É, portanto, um bem patrimonial valioso que não merece o tratamento de um vulgar produto para ser introduzido na senda mercantilista. Património é uma coisa totalmente diferente. Para nós é um bem, materialmente irrelevante mas que está carregado de uma insubstituível herança.

Portanto, a decisão judicial, ao incorporar a produção de pão tradicional da Confraria no regime geral das padarias relativos à Saúde Pública e da Segurança e Higiene Alimentar, passa ao lado da especificidade e desvaloriza o património tradicional que foi sendo construído, sem regulamentação específica, ao longo de séculos pelas populações.
(in Confraria do Pão via A Origem das Espécies)

o arco da velha e outras coisas

(…) a transmissão das tradições culturais de geração em geração está ameaçada devido à televisão e à falta de convívio entre crianças e idosos (in Publico)

Não é de hoje que se diz que “a tradição já não é o que era”, que as pessoas deixaram de ir à missa, deixaram de ter tempo/vontade para ler, passam menos tempo com os filhos/pais. Também é verdade que, antigamente (no caso português até há meia centena de anos) pouca, pouquíssima gente sabia ler/escrever. E “passar mais tempo” não é o mesmo que ter qualidade de convívio afectivo e estimulante. Logo, nem tudo será exactamente como se diz. Para não falar das tradições também poderem servir de veículos culturais para vivências retrógadas.

Mas para não complicar, fiquemo-nos pelas boas notícias: A percentagem de portugueses idosos – nos grupos etários de maiores de 65 e de 80 anos -, vai aumentar para quase um terço (30,9%) no decorrer das próximas cinco décadas, até 2060, segundo as projecções populacionais divulgadas ontem pelo Eurostat (in DN). Ou seja, com tanto velho que vem aí, qual é o motivo para nos preocuparmos?

Eu, por exemplo, que em 2060 terei 98 anos, assumo desde já o compromisso de transmitir as velhas tradições do “meu tempo”: o rock dos anos 60/70, a vulgata do Maio 68, o “nuclear? não, obrigado!” e a alergia ao “principio da autoridade”.

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