novidades e outras coisas

Posts tagged ‘rio douro’

Douramente

amendoeira

Ao amanhecerem flores exuberantes e olorosas em dias de azul em pleno Inverno, seremos tão ingénuos para acreditar na promessa de Primavera? Os mais pragmáticos cantarão loas ao milagre da natureza, fruto do esforço humano.

Estas são terras semeadas de equívocos: ao viajante que palmilhe as encostas pedregosas não escapará o jeito de sedução com que as montanhas travam a marcha do rio até ao mar.

O Douro é rio de variados Douros, tão diferentes entre si como a noite para o dia. Todavia, não é o rio, mas são as margens que se contorcem: por onde passe, elas estreitam-no na ilusão de o conter.

Ler mais em Imago Mundi

Anúncios

Côa, Douro, Tua, Sabor, Salamanca, Régua, Porto

Do que resta da estação ferroviária do Côa não dá para imaginar que esta foi uma das portas de acesso ao Vale do Côa. Gravuras rupestres, Museu do Côa, Região Demarcada do Douro…alguém falou em património mundial?!

Estação do Côa

Estação do Côa

A segunda foto é da ponte ferroviária da (desactivada e arruinada…mas perfeitamente recuperável) Linha do Douro na foz do rio Côa: no canto superior direito, no cimo do monte, está lá o Museu do Côa, quase imperceptível por ser intenção dos seus arquitectos salvaguardar a paisagem.

Foz do Côa

Foz do Côa

A linha do Douro foi concluída nos últimos dias de 1887, doze anos após o seu início, tendo uma extensão de 200 km. Porém, cento e um anos depois foi amputado o troço entre o Pocinho e Barca D’Alva (quase 30 km), e quatro anos depois do encerramento da ligação internacional de Barca D’Alva a Salamanca (à volta de 70 km).

IMG00938-20130720-1519

Vista para o Pocinho, ponte rodoviária que liga Torre de Moncorvo a Vila Nova de Foz Côa e barragem hidroeléctrica do Pocinho.

Naturalmente, todos estes encerramentos sucessivos tiveram razões de ordem económica. O que quer dizer: falta de rentabilidade da linha.

Pode ser, mas se observarmos o mapa vemos ao longo duma linha ferroviária com menos de 300 km, cidades como o Porto e Salamanca (nos extremos), localidades centrais do Alto Douro como a Régua e o Pinhão, o vale do Côa com sua extraordinária paisagem, o inestimável tesouro arqueológico, o museu. Ou seja, na 2ª década do sec.XXI parece-me evidente que a rentabilidade da reabertura dos troços Pocinho-Barca D’Alva e Barca D’Alva-Salamanca pode ser obtida através do turismo e, por sua vez, sua reabertura irá ter um efeito dinamizador de toda a região.

Região que na verdade são várias e distintas regiões. Podia referir a proximidade das Arribas do Douro, a região de Lamego e Tarouca, os vales de rios como o Paiva, o Águeda ou o Tâmega.

Também podia simplificar, dizendo que o percurso de Porto-Barca D’Alva  é, provavelmente, o circuito mais extraordinário que Portugal tem para oferecer ao turista apreciador de arqueologia, história, gastronomia, vinhos, natureza, arquitectura, tranquilidade e beleza.

Circuito que pode fazer de barco, de carro, de comboio. Os mais endinheirados até têm a opção do helicóptero. Melhor ainda podendo combinar os diferentes meios de transporte. E ainda caminhar pelo próprio pé por montes e vales.

E que seria um bónus poder prosseguir viagem até terminar numa cidade tão especial quanto Salamanca. Depois de ter conhecido o Porto. Numa viagem que pode demorar um dia, como toda a vida.

IMG00926-20130720-1355

Só não digo por vergonha, porque tenho de omitir os vales dos rios Sabor e Tua, ambos bem representativos da beleza, fascínio e peculiaridade da grandiosa bacia hidrográfica do Douro (a maior da Península Ibérica).

A omissão deve-se ao facto de, neste preciso momento em que escrevo e tu, caro(a) Leitor(a), lês, esses mesmos vales estarem a ser arruinados pela construção de duas inúteis barragens hidroeléctricas. Inúteis é exagero, afinal alguém está a ganhar com isso, certamente.

Mas não a região, não o país. Já agora, nem o Mundo.

PortoGrafia

porto de rio

Na deriva dos passos perdidos, a cidade velha parece ter o sentido fixo nos poderes emanados do Céu como se algo alguém?, altíssimo e eterno, marcasse o ritmo e desse sentido às atribulações que se atravessam no caminho.

Porém, muitas foram as vezes que os que cá moravam pegaram em armas contra o poder lá do alto. Não só o céu é sempre outro, conforme a cidade se move em redor do transeunte, como este é transportado para outros horizontes e distintas emoções.

douro natural

 

 

 A criação da Reserva Natural Local do Estuário do Douro pela Câmara de Gaia é uma iniciativa que pode ainda dar polémica entre aqueles (que são muitos) que frequentam este espaço desde sempre. Nada que uma campanha de sensibilização não possa resolver, utilizando exemplos e raciocínios de fácil entendimento como o artigo abaixo citado a propósito duma outra situação:

Este é o real valor da biodiversidade. O conjunto de espécies que existia na região – sua biodiversidade – forneceu os seres vivos que estão reconstruindo o ecossistema abalado pelo homem. Este exemplo demonstra como é difícil prever como um ecossistema reage quando agredido. (Fernando Reinach in Estadão)

jornalismo comprometido

Pela mesma lógica do Expresso, a não-construção da barragem do Côa e a criação do Parque Arqueológico do Côa não melhoraram as acessibilidades, não tornaram o Douro "tão conhecido e visitado como agora é"...

De facto, como Carlos Romão denuncia (ver link mais abaixo) , há um “exercício contorcionista que não passa de um um frete à estratégia da EDP, de apropriação da água dos rios do norte para no futuro a comercializar através de transvases no sul do país” neste trabalho assinado por Vítor Andrade e Liliana Coelho:

“Com a construção das várias barragens que o Douro hoje tem o nível das águas subiu, fizeram-se estradas e melhoram-se as acessibilidades, tanto para os locais como para os turistas – ficou mais fácil circular junto ao vale do Douro vinhateiro, hoje património da humanidade.

Será que se não tivesse havido esta evolução e os investimentos que se fizaram nas barragens, o Douro hoje teria a importância que tem? Seria tão conhecido e tão visitado como agora é? Questões que ficam e que dividem opiniões.

Uma coisa é certa e garantida já por decreto governamental, com a chancela do Ambiente. As barragens de Foz Tua e do Sabor vão ser uma realidade. A paisagem vai mudar. Mas o país fica com mais energia verde e com novas acessibilidades junto a esses empreendimentos. Quem é que fica a ganhar? Todos ou só alguns?”  (in Expresso)

Na verdade, este é bem um exemplo duma coisa que é uma coisa que é outra coisa. Carlos Romão desmonta a propaganda:

A energia dita “verde”, a produzir pela hipotética barragem do Tua, corresponde a menos de 1% das necessidades nacionais, o que, posto no prato da balança, com a destruição da paisagem e da linha ferroviária do Tua, que a barragem implicará, vale ZERO.

 Se as barragens trouxessem riqueza e desenvolvimento para as regiões, como afirma o Expresso, Trás-os-Montes não seria a região mais pobre e menos desenvolvida do país. A riqueza produzida pelas barragens transmontanas – comandadas à distância – paga impostos ao estado central no sul e é lá que cria postos de trabalho. Até a derrama, imposto municipal, é paga à… Câmara Municipal de Bragança? Não! A derrama é paga – pasme-se – à Câmara Municipal de Lisboa.

E o Expresso, descarado, ainda pergunta, “quem é que fica a ganhar, todos ou só alguns?”. (Carlos Romão in A Baixa do Porto)

A finalizar, remete para o post no Aventar “A honestidade intelectual do Expresso”:

(…) e ao contrário do que o texto advoga, os “investimentos em barragens” não foram o sinónimo de se terem feito estradas “e melhoram-se as acessibilidades” porque muitas das estradas ribeirinhas (naturalmente sinuosas – são centenárias embora não tão antigas como o caminho-de-ferro). Portanto, se “ficou mais fácil circular junto ao vale do Douro vinhateiro, hoje património da humanidade” tal se deveu muito, e na maior escala, à chegada do comboio e não às barragens. (Dario Silva in Aventar)

Acrescento eu, ignorante em economia e desenvolvimento, que me parece muito traiçoeiro comparar a necessidade de construção das barragens no Douro nas décadas de 50 a 80 do sec.XX com a necessidade de construir  barragens no Sabor e no Tua em 2011. Mas se me parece é só porque, na minha falta de entendimento, o desenvolvimento e a economia portuguesa da altura e a de hoje não são comparáveis…quer se dizer, comparáveis são, os problemas e as soluções é que não serão os mesmos.

Nuvem de etiquetas

%d bloggers like this: