novidades e outras coisas

Posts tagged ‘portugal’

‘e agora – phosga-se – já parece ser tarde para tudo’

(…) mais uma homenagem a mais um ego desmedido na área da nossa economia para totós, a mais fértil em gente capaz de mudar o mundo e arredores, mas só antes ou depois de estar em posição para o fazer.

 Este é outro que sabia tudo antes, saberá tudo depois, mas agora parece que coiso.’ (in A Educação do meu Umbigo)

De facto, o exemplo escolhido é um entre tantos: antes ‘de estar em posição’ dá-se opinião para tudo, sobre todos e, sobretudo, com absoluta isenção de qualquer dúvida sobre o que há a fazer; depois ‘de estar em posição’ não há um exame autocrítico, nem uma reavaliação ou o vislumbre duma alternativa.

Entretanto, ao longo do penoso exercício ‘de estar em posição’, o vazio.

1360079680_761902_1360079736_noticia_normal

 

 

Poderá um livro ajudar alguém a fazer algo melhor?

Nas livrarias há aquela secção dita de ‘auto-ajuda’ que engloba a mais variada das temáticas sob o mesmo signo do tédio da frase feita, cheia de amor ou optimismo.

Noutros tempos, creio que sem secção própria, espalhavam-se livros com apelativos títulos ‘faça você mesmo’ (desde uma cadeira de madeira a um foguetão inter-galáctico), ’10 passos para se tornar’ (e seguiam-se diversas opções conforme o título: melhor pessoa, pessoa fascinante, pessoa invejável, ou, prosaicamente, um vendedor de sucesso).

Também havia livros para ajudar o estudante a ser melhor estudante. Esses, curiosamente, só de olhar para as capas já me enjoavam. Bem feito, deve ser por isso que acabei por me tornar no que me tornei.

Felizmente, a idade traz sempre algumas compensações como os remorsos e o rebaixamento da soberba, além da responsabilidade de criar uma filha. Assim, comecei a perceber que a realidade do ensino ser tão chato e estúpido podia também se dever a algo mais do que ao ministro da educação e ao seu mastodôntico ministério, ao atavismo cultural em geral e a outros bodes expiatórios nacionais.

383922_309441125742775_886178363_n

Ou seja, antes do fim do último milénio consegui perceber que o próprio estudante acaba por trair as suas próprias expectativas ao não se empenhar seriamente naquilo que é específico da sua qualidade existencial: estudar.

Ora, recentemente deparei com uma entrevista à professora que publicou um livro com o extraordinário título ‘Como estudar melhor’ e o sub-título mais promissor de ‘Um guia para o teu sucesso’.

Confesso que a minha reacção instintiva foi a da criatura nascida na década que viu surgir coisas tão distintas como The Doors ou o ‘Maio de 68’. E, pior ainda: nascida em Portugal (o que significa que tive a agravante de, em seguida, passar a década de 70 nos bancos da escola e do liceu). Para os muito novos fica difícil de entender o que pretendo insinuar, mas adiante!

Porém, logo a seguir o peso dos anos e da experiência fez-se sentir e comecei a ler a entrevista com outro olhar: como posso negar que a maioria dos alunos que conheci não tinham/não têm qualquer método para estudar? Na verdade, não sou dos que teimam que a falta de método e a falta de estudos são das taras nacionais mais antigas que prejudicam o bem-estar geral?

Ainda assim, que algum livro se proponha resolver tão óbvio e grande problema é fácil de dizer…e consegue?! Não será um título apetecível para quem quer respostas imediatas, simplistas mas, fatalmente, ineficazes? O início do ano lectivo torna ainda mais urgente a apetência pela panaceia mágica que transforma o cábula num marrão.

MUNDO MONSTRO      ADÃO8

A autora, Fernanda Carrilho, defende o título do livro e o método proposto pela investigação que desenvolve há anos, através de inquéritos, entrevistas, aferindo resultados e testando as técnicas de estudo. Ou seja, não se trata dum livro baseado no sentido comum e na tradicional pedagogia da ‘satisfação do dever cumprido’.

De facto, o livro começa com um questionário de auto-diagnóstico que, a ser levado a sério pelo próprio, ajuda-o a entender onde pode e deve melhorar. Além disso, faz o estudante centrar-se no que pretende fazer, tanto da vida, como dos estudos que o podem ajudar na vida.

Reconheço que esta prosa e esta argumentação agradou-me, conciliando o adolescente rebelde que (ainda) há em mim com este que sou agora: a autora passa a responsabilidade para o indivíduo (o estudante), leva-o a ponderar sobre as opções que tem em aberto, desafia-o a realizar os seus projectos de futuro dum modo consistente, planeado, bem formado. E se não tem projectos, a desenvolver um.

Não é isto, na essência, uma lição de cidadania e apologia da liberdade?

Sem com isso descurar a responsabilidade dos pais e professores na ajuda ao aluno que se esforça para vencer as naturais dificuldades da aprendizagem: se devem estar presentes e exigir tempo de estudo (e resultados), também têm de garantir qualidade de condições para o estudo. Como ter tempo livre para as coisas que o filho/aluno goste de fazer, por exemplo.

Claro, pode alguém sugerir que as questões sociais do momento (e as de sempre, já agora: este é um tema crónico nos últimos 450 anos) são uma condicionante negativa e o cenário proposto pela autora ser idealizado, não havendo condições para tão louvável projecto ser aplicado por muitos milhares de alunos. Além de ser de exigir muito a uma pedagoga equacionar os magnos problemas que afectam o país num livro exclusivamente focado na metodologia dos estudos, seria dum fatalismo idiota pensar que os alunos de famílias muito pobres ou desestruturadas não podem, não ambicionam e não conseguem ser excelentes alunos.

De facto, não só existem inúmeros exemplos de sucesso escolar e profissional que contrariam esse preconceito, como este livro acaba por ser um excelente companheiro de estudos para quem se vê sozinho diante do desafio de organizar-se ao longo dos anos de estudo.

7c9df546

 Fernanda Carrilho avisa que ‘não há poções mágicas e que os melhores métodos sempre se tornam falíveis se não forem devidamente aplicados’, e por isso reforça, ao longo dos capítulos do livro, o apelo ao leitor prosseguir a leitura, a não desistir, através de mensagens curtas e sabiamente colocadas em passagens cruciais. Diz, na entrevista, que ‘para quem está interessado em melhorar os seus resultados escolares, o primeiro passo é adquirir o livro. Mas o que acontece, grande parte das vezes (à semelhança do início de uma dieta ou de outra actividade que requer esforço da nossa parte e mudança de hábitos que já estão enraizados) é a tendência para desistir, após as primeiras páginas’.

9789722350419

No final da entrevista, Fernanda Carrilho cita ‘Sete Mandamentos’ do livro Como Estudar Melhor, Um Guia para o teu Sucesso(de Fernanda Carrilho, Editoral Presença 2013). São todos pertinentes, todos fáceis de entender. Só uma objecção, prezada Autora: o 7 resulta menos boa mnemónica que o 10. Já Jeová o sabia (e mesmo assim não lhe valeu de muito, é verdade…)

Por isso, acrescentaria mais três: cultivar a paixão pela dúvida (facilita muito a aprendizagem de qualquer coisa); desenvolver espírito crítico (exige, do próprio e dos outros, explicações e demonstrações); viver a vida (dá sentido ao esforço de estudar).

Agora não há mais álibis, meus irmãos cábulas: mãos-à-obra!

Perigos de quem anda sozinho pela noite…

De vez em quando, alguém teima em me recordar como é perigosa e selvagem a vida em certos recantos deste país, supostamente civilizado.

 

Sempre bem documentado com detalhes macabros e fotográficos, confirma que por aí andam lobos maus e outras criaturas sinistras da noite a comer inocentes bambis, tal qual os vampiros e lobisomens dos best-sellers e blockbusters que a nossa cultura urbana de centro comercial nos oferece para descarga de adrenalina e fantasia onírica.

Illustration of Wolf Approaching Little Red Riding Hood

E diz que o fazem para cevar a fome duma prole desejosa de sangue e carne, e deste modo garantir a perpetuidade destas espécies que se alimentam de outros seres vivos.

Nesta altura dos fogos de Verão, quando andamos iludidos pelo marketing que nos leva a confundir floresta com monoculturas industriais de pinheiro-bravo e eucalipto, é bom que prestemos atenção à “Natureza bem viva, selvagem, que apesar de raramente podermos observar encontra-se ainda bastante preservada no nosso país. Acreditem. Basta olhar para as imagens…

Ok...Espero que todos gostem deles tostado por fora e rosadinhos no meio.

Ok…Espero que todos gostem deles tostados por fora e rosadinhos no meio.

 

Côa, Douro, Tua, Sabor, Salamanca, Régua, Porto

Do que resta da estação ferroviária do Côa não dá para imaginar que esta foi uma das portas de acesso ao Vale do Côa. Gravuras rupestres, Museu do Côa, Região Demarcada do Douro…alguém falou em património mundial?!

Estação do Côa

Estação do Côa

A segunda foto é da ponte ferroviária da (desactivada e arruinada…mas perfeitamente recuperável) Linha do Douro na foz do rio Côa: no canto superior direito, no cimo do monte, está lá o Museu do Côa, quase imperceptível por ser intenção dos seus arquitectos salvaguardar a paisagem.

Foz do Côa

Foz do Côa

A linha do Douro foi concluída nos últimos dias de 1887, doze anos após o seu início, tendo uma extensão de 200 km. Porém, cento e um anos depois foi amputado o troço entre o Pocinho e Barca D’Alva (quase 30 km), e quatro anos depois do encerramento da ligação internacional de Barca D’Alva a Salamanca (à volta de 70 km).

IMG00938-20130720-1519

Vista para o Pocinho, ponte rodoviária que liga Torre de Moncorvo a Vila Nova de Foz Côa e barragem hidroeléctrica do Pocinho.

Naturalmente, todos estes encerramentos sucessivos tiveram razões de ordem económica. O que quer dizer: falta de rentabilidade da linha.

Pode ser, mas se observarmos o mapa vemos ao longo duma linha ferroviária com menos de 300 km, cidades como o Porto e Salamanca (nos extremos), localidades centrais do Alto Douro como a Régua e o Pinhão, o vale do Côa com sua extraordinária paisagem, o inestimável tesouro arqueológico, o museu. Ou seja, na 2ª década do sec.XXI parece-me evidente que a rentabilidade da reabertura dos troços Pocinho-Barca D’Alva e Barca D’Alva-Salamanca pode ser obtida através do turismo e, por sua vez, sua reabertura irá ter um efeito dinamizador de toda a região.

Região que na verdade são várias e distintas regiões. Podia referir a proximidade das Arribas do Douro, a região de Lamego e Tarouca, os vales de rios como o Paiva, o Águeda ou o Tâmega.

Também podia simplificar, dizendo que o percurso de Porto-Barca D’Alva  é, provavelmente, o circuito mais extraordinário que Portugal tem para oferecer ao turista apreciador de arqueologia, história, gastronomia, vinhos, natureza, arquitectura, tranquilidade e beleza.

Circuito que pode fazer de barco, de carro, de comboio. Os mais endinheirados até têm a opção do helicóptero. Melhor ainda podendo combinar os diferentes meios de transporte. E ainda caminhar pelo próprio pé por montes e vales.

E que seria um bónus poder prosseguir viagem até terminar numa cidade tão especial quanto Salamanca. Depois de ter conhecido o Porto. Numa viagem que pode demorar um dia, como toda a vida.

IMG00926-20130720-1355

Só não digo por vergonha, porque tenho de omitir os vales dos rios Sabor e Tua, ambos bem representativos da beleza, fascínio e peculiaridade da grandiosa bacia hidrográfica do Douro (a maior da Península Ibérica).

A omissão deve-se ao facto de, neste preciso momento em que escrevo e tu, caro(a) Leitor(a), lês, esses mesmos vales estarem a ser arruinados pela construção de duas inúteis barragens hidroeléctricas. Inúteis é exagero, afinal alguém está a ganhar com isso, certamente.

Mas não a região, não o país. Já agora, nem o Mundo.

Andamos a ler menos? É mesmo?! E daí?

“(…) segundo José Soares das Neves, “perante o cenário actual e as dificuldades actuais é esperável a estagnação ou mesmo diminuição dos pequenos e médios leitores, o que para Portugal é particularmente gravoso, porque os nossos níveis de leitura são muito baixos”.

De acordo com as Estatísticas da Cultura do INE relativas a 2011, 58,4% dos portugueses não tinha lido nenhum livro como actividade de lazer nos 12 meses anteriores e 27,3% tinha lido menos de cinco livros. Os números compõem-se um pouco se juntarmos os livros lidos por trabalho ou estudo: a taxa de não-leitores desce para 41,6%.

Mesmo assim, “em França, há 80% de leitores”, compara o sociólogo.” (in Público)

Sejamos claros: ler, por si mesmo, não significa cultura, conhecimento, sensibilidade, ou qualquer manifestação de abertura e curiosidade para o mundo.” (Ler significa alguma coisa? in Escrever como?)

Sem pretender ser cínico (de maneira nenhuma!)*, devo dizer que não me assustam nada os números indicados pelo INE. Não sei se é possível comparar estes dados com anos tão remotos como 1990, 1980, 1970…e fico-me por aqui, mas tenho a impressão que a perspectiva será muito optimista: uma subida consistente do número de leitores e de venda de livros.

Somos um país de poetas e romancistas, toda a gente sabe, basta percorrer as ruas das cidades atento aos nomes das mesmas, mas nunca fomos um país de leitores, longe disso. Creio que em 1974 ainda se estimava uma percentagem de analfabetos bastante considerável na população portuguesa (um verdadeiro nicho de mercado, se fossemos a aplicar o jargão corrente). E o conceito de iliteracia, nas décadas seguintes, veio substituir o de analfabetismo, o que já significa um progresso.

156012_538511646200699_1262064260_n

Frente à rivalidade feroz imposta pela rádio, pela televisão, pelo computador, por toda a parafernália audiovisual on-line, conseguir ter ganhos de leitura como os que imagino que temos tido nos últimos 40 anos, é obra! 

Claro, podia ser melhor. Mas há 40 anos, e mesmo antes, o ensino da língua e da literatura nos liceus assustava o mais bibliófilo dos adolescentes, depois disso creio que se tem progredido na eliminação da literatura dos programas escolares. Basta folhear os jornais e revistas, e procurar as secções de crítica literária para perceber. Ou ver os top’s de vendas nas livrarias.

E atente-se na subtil distinção por parte do INE: ler livros como actividade de lazer, por um lado, e ler livros por causa do trabalho ou estudo, pelo outro lado.

Em eras remotas, havia quem lesse por paixão, curiosidade incontrolável e prazer, misturando as horas de lazer, de trabalho e de estudo. Felizmente, numa época em que existe a categoria de “literatura de aeroportos” e livrarias com secções de “auto-ajuda”, o nosso tempo e qualidade de leitura está igualmente normalizado.

* ok, estou a mentir.

“não há famílias de primeira e de segunda”

Uma boa notícia, motivo de orgulho para quem é português:  “Portugal torna-se o quinto país a aprovar co-adopção por casais homossexuais” .

E de parabéns todos os partidos políticos representados na Assembleia da República.

ADENDA em 18-05-13: Os conceitos de “pai” e de mãe” -e, até, de “família” – estão há muito destruídos nos arquivos dos tribunais que foram, anos e anos a fio, de família dita “tradicional”. A maior parte dos autos testemunham, afinal, como os “princípios” são negociáveis e, por tabela, os filhos também ao lado das casinhas e dos automóveis. Isto onde há “família”. Imagine-se onde nunca houve. (in Portugal dos Pequeninos)

Imagem

“um homem faz de mãe e uma mulher faz de pai”

Um assunto que fascina antropólogos, etnólogos e historiadores é a diversidade e a evolução do conceito “Família” ao longo dos tempos.

Já suspeitava que também interessa aos juristas, mas não sei se a expressão “família natural” foi criada por eles, na continuidade de algum suposto “Direito Natural”. Mesmo assim, confesso a minha surpresa ao ler que, para a Ordem dos Advogados, a família é “uma família constituída por um pai (homem) e uma mãe (mulher) e não com um homem a fazer de mãe ou com uma mulher a fazer de pai.” (in Público)

Provavelmente, começou assim com Adão e Eva, porém o mundo foi sempre uma dor de cabeça para quem o criou e estabeleceu as regras do jogo: a Humanidade é arredia a tipificações muito precisas, mais ainda a normas impostas pelos deuses e pelos genes.

Tarzan-WM_strip_DK_20110108

Apesar de ser uma pessoa pouco vivida, recordo algumas mulheres de quem se dizia que eram “o homem da casa”, no sentido do “quero, posso e mando”. Frequentemente, era por serem quem trazia o sustento para casa, mesmo “levando porrada” do marido quando este bebia um pouco além da conta.

Assim como já li alguns livrinhos que falam daqueles viúvos que criavam as filhas com um cuidado verdadeiramente maternal. Ou tios amorosos cobrindo os sobrinhos órfãos com mimos. Ficções, certamente.

Além de ficções literárias e de órfãos, a literatura é rica em narrativas sobre as instituições onde a sociedade guarda as crianças sem família (ou que foram retiradas à família), e de que ainda ouço ecos perturbantes na Irlanda do sec.XX, e na vida real. Infelizmente, passa-se em todo o lado.

Sempre achei extraordinário que alguém, ou um casal, se dispusesse a adoptar uma criança “institucionalizada”, por muito bem que esteja a ser tratada. Estabelecer laços familiares com adultos e experimentar um sentimento de pertença faz parte do desenvolvimento natural (arrisco a palavra) de qualquer criança.

Naturalmente, há cuidados a ter na avaliação das propostas de adopção, mas a questão do sexo do(s) proponente(s) ou a(s) sua(s) preferência(s) sexual(is) são irrelevantes.

Até, porque, imagine-se “uma criança, educada por dois homens casados, até aos 10 anos de idade, morrendo nessa data o pai biológico num acidente…Aquela criança, que não distingue a nenhum nível qualquer dos pais, não tem, no entanto, o mais ténue vínculo jurídico com o, para si, pai sobrevivente. Pode mesmo vir a ser arrancada dos seus braços pela família do pai falecido, mesmo que não tenha tido qualquer contacto com ela ao longo da sua vida.” (in Público)

E isso também me faz lembrar que já vi algum filme sobre este tema. Ficções, ficções.

O “natural” é que é bom, lá dizia o anúncio.

Nuvem de etiquetas

%d bloggers like this: