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preservar e progredir

Numa aldeia “perdida” do Interior, a uma dúzia de quilómetros do acesso a uma autoestrada, abençoada pela natureza e pelo labor dos Antigos, definham as ruínas impressionantes dum grande mosteiro vendido pelo Estado a um particular pouco depois das guerras entre Liberais e Absolutistas. O mosteiro foi desmantelado e pela aldeia muita da sua pedra serviu para edificar casas e muros.

Christopher Zacharow

Ao lado, uma igreja aparentemente singela mantém-se de pé e em uso. No seu interior revela-se uma surpresa extraordinária: belíssima, muito bem conservada (e restaurada), com um acervo de obras de arte variado e de valor que ultrapassa o cálculo meramente monetário (que também é, não duvido, muito considerável). A receber os ocasionais visitantes, um senhor idoso que se move com espantosa agilidade, simpatia e erudição, apesar de precisar da ajuda de muletas por causa duma perna completamente inutilizada.

Sem cobrar nada, o anfitrião explica que está ali sózinho e por autorização do bispo ou diocese local, porque por vontade do Estado as portas estariam fechadas por falta de verbas para garantir segurança e ordenados para vigilantes e guias. Ele é voluntário e desloca-se por sua iniciativa e custo. Porque, profissionalmente e afectivamente, trabalhou ali muitos anos. No dia em que deixar de poder ir, as portas estarão fechadas aos visitantes. E os tesouros estarão mais seguros, “protegidos” entre paredes de pedra e portas com grandes ferrolhos?

Se o Estado anda algo ausente, a câmara local estará presente? Nada que se possa observar, para ser justo. Excepto (talvez)  aquelas placas coloridas a indicar o monumento na estrada principal. E a aldeia até tem uma ou duas casas de turismo de habitação, um cafézito, uma lojinha de artesanato fechada antes e depois da hora de encerramento para almoço, em pleno sábado.

A aldeia, vista de perto, vai revelando o jeito e a sensibilidade dos seus habitantes residentes nos arredores do Porto e Lisboa, e que lá passam uns dias de férias no Verão. Tal como o ilustre antepassado que soube tão bem demolir os claustros do mosteiro e como aqueles antepassados que reconverteram capelas em estrebarias ou o túmulo duma condessa em lagar, sua perspectiva utilitária dos espaços reproduz com notável fidelidade alguns dos modelos mais pitorescos do urbanismo de Ermesinde ou Amadora pela sua criteriosa seleção de azulejos, blocos de cimento, perfis em alumínio, portas de rua em branco lacado, disfarçando como podem a imperfeição do granito original.

Esses moradores-ausentes-o-ano-inteiro lamentam o desinteresse dos filhos e netos em passar ali as férias. Parte das raízes deles estão lá, naqueles campos e hortas trabalhados à moda antiga, onde ainda se descobrem ruínas de moinhos d’água. Ou fontanários do sec.XVIII lado-a-lado de tanques para lavar roupa com cobertura (estes em cimento do sec.XX) . Talvez fosse um deles, mais sentimental ou curioso pelas estórias de antanho, que vi ouvi percorrer  as ruas da aldeia e monte em redor numa “moto quatro” de potentes décibeis.

Os historiadores garantem que o mosteiro, originalmente, foi fundado pela mesma ordem monástica que depois levantaria um mosteiro em Alcobaça. Que Afonso Henriques oferecia as terras e rendimentos para que se instalassem naqueles ermos e dinamizassem a economia e a ocupação do território. Hoje, o Estado constrói autoestradas que facilitam imenso a deslocação do Litoral para o Interior, promove a restauração dispendiosa e cuidada de monumentos e peças d’arte, apesar de não ter recursos, nem meios, para depois manter abertos e em segurança monumentos e tesouros; as autarquias também lá fazem umas coisas (no caso concreto, não faço ideia o quê…); as populações residentes/ausentes, vão transformando o perfil das povoações o melhor que sabem.

 Tudo junto, deve ser mesmo por má vontade dos turistas ocasionais ou militantes que estes não gastam dias (e noites) nestas pequenas localidades e passem por elas a correr. Os turistas, diz-se, só gostam de praia.

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a colonização do Interior

No País West Coast da Europa, o interior é apenas uma enorme fronteira até Espanha como se o risco fosse dessa largura (in Avenida Central)

Transparecendo que o Programa foi linearmente determinado pelo lucro mais imediato – assim é que faz tábua rasa dos valores a sacrificar, seja a nível do património histórico e natural, da paisagem e dos ecossistemas ribeirinhos, do valor multidimensional da água, num processo desenfreado e impenitente –, que desembocará na completa implosão do vale e na artificialização da bacia do Tâmega, pervertendo toda a ordem sistémica e as condições ambientais de suporte natural de vida ( in Petição Anti-Barragem-ler e subscrever aqui)

FECHADO PARA OBRAS

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