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Posts tagged ‘nacionalismo’

“Nós, leitores de Cervantes ou de Shakespeare, de Dante ou de Tolstoi…”

 “E nada defende melhor os seres vivos contra a estupidez dos preconceitos, do racismo, da xenofobia, das obtusidades localistas do sectarismo religioso ou político, ou dos nacionalismos discriminatórios, do que a comprovação constante que sempre aparece na grande literatura: a igualdade essencial de homens e mulheres em todas as latitudes, e a injustiça representada pelo estabelecimento entre eles de formas de discriminação, sujeição ou exploração.”  (Vargas Llosa, citação retirada daqui)

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in memoriam

Memory, forgetting, and history are all important. When I write as a historian, I see that forgetting, for example, worked wonders in stabilizing postwar Europe. (…) as a historian, I say this is why forgetting worked, but as an engaged citizen I must say this is also unacceptable.
(…) No society, however, can live indefinitely with the weight of impossibly painful memories constantly being dragged into the public sphere. No society can move past those memories until it has addressed them.” (Tony Judt in Historically Speaking: the Bulletin of The Historical Society)

Em defesa do bom nome dos pulhas

De Predrag Matvejevitch li o Breviário Mediterrânico e logo fiquei abismado com o estilo poético e erudito como desfiava histórias, pintava paisagens e retratava tipos humanos. Depois há sua visão dum espaço comum de integração e de diferenças que se vai construindo ao longo dos milénios e dos espaços à volta do grande mar interior.

Mais recentemente li o Epistolário Russo onde se acumulam cartas ao longo dos anos em que visitou a Rússia Soviética, ele próprio como representante dos “intelectuais” yugoslavos. Para os nostálgicos de outros tempos será mais um livro para deitar ao caixote de lixo da História, mas para qualquer outra pessoa é um documento precioso sobre a irrealidade do quotidiano.

 

Nasceu na Bósnia-Herzegovina em 1932, filho de pai russo e mãe croata, um bom exemplo da outra Europa, aquela cujas fronteiras se movem incessantemente, os impérios se sucedem, as guerras somente interrompidas por algum tempo, numa manta de retalhos étnicos tanto mais artificial superficial quanto sujeita a surtos pestíferos de nacionalismo letal.

Por ter escrito sobre o surto que desfez a ex-Yugoslávia, Pedrag apontou o dedo àqueles que usaram a palavra (escritores e jornalistas) para desencadear e justificar a violência e a expulsão de populações inteiras. Significativamente, o texto publicado em jornal intitulava-se “Os nossos Talibãs“. Pelos vistos, houve quem se sentisse ofendido com a designação de “talibãs cristãos” e levou o assunto ao tribunal, na Croácia (seu actual país de nacionalidade), onde o crime de difamação é pesadamente castigado. E foi condenado à prisão.

Amanhã, será o seu primeiro dia atrás das grades.

nota em 02/08/10: Felizmente, não se passou nada. Et pour cause…”il n’y a en effet aucun risque que Predrag Matvejevitch soit emprisonné, puisque aucune décision de justice en Croatie ne le motive. (…)  J’ajoute pour finir que non seulement Predrag Matvejevitch n’est sous la menace d’aucune peine d’emprisonnement, mais, qui plus est, que je l’ai récemment nommé pour me représenter personnellement auprès de l’Organisation internationale de la francophonie. (Ivo Josipovic, presidente da República da Croácia in Le Monde)

nobel

Nunca ouvira antes falar de Herta Mueller, mas desde já fico interessado no que possa contar quem tenha nascido do lado de lá da Cortina de Ferro. Não se trata só da experiência sob a ditadura, mas duma voz oriunda  do mundo de cultura germânica espalhado pela Europa de Leste e que sobreviveu à IIª Guerra (My mother and especially my father, like all Germans in the town, believed in the beauty of blond plaits and white knee-length socks. In the black rectangle that was Hitler’s moustache, and in us Transylvanian Saxons being part of the Aryan race).

E, em ambos casos, recordar como a IIª Grande Guerra prolongou-se bem além da data da rendição alemã.

to be sure

So when we speak of Europe, it is not the particular Brussels institutions we are talking about here.

It is the totality, across still diverse European nations, of a legal, political and economic system, a form of society, an ethos, a commitment, which put individual human dignity and freedom first, last, and in the centre.

(Timothy Garton Ash in The Guardian)

"Each of those three exceptionally gifted boys could so easily have been killed, thrown on the pyre of Europe's crazed self-destruction, as many of their friends and relatives were. Each went on to live a long, full life, and to create work of enduring value. Each contributed, with brilliance, clarity, courage and humour, to the free Europe we live in today."

"Each of those three exceptionally gifted boys could so easily have been killed, thrown on the pyre of Europe's crazed self-destruction, as many of their friends and relatives were. Each went on to live a long, full life, and to create work of enduring value. Each contributed, with brilliance, clarity, courage and humour, to the free Europe we live in today."

“unha confianza que perderon por méritos propios”

«De novo, eu xa debía ser aljo revoltoso, e meu abuelo sempre me decía “tranquilo, filliño, que aljún día han de vir os nosos”. E total, que botamos cuarenta anos a esperar que viñeran os nosos, e cando viñeron os nosos, resultou que eran coma os outros.»
(in Apunta, para non esquecer)

pedigree

Nada menos que el 20% de la población ibérica actual desciende de sefardíes. Y otro 11%, de norteafricanos. Si ambos siguen aquí, es que nunca se marcharon.

la ascendencia norteafricana va de 0% en los Pirineos al 20% en Galicia y el 22% en Castilla noroccidental. Andalucía tiene uno de los índices más bajos. Esto cuadra con las expulsiones de moriscos ordenadas por Felipe III en 1609, que diezmaron los guetos de Valencia y Andalucía, pero poco pudieron hacer contra las dispersas e integradas poblaciones de Extremadura y Galicia.

Los cromosomas de origen sefardí, siendo de una época más remota, aparecen distribuidos por el territorio de forma homogénea, con la excepción del noreste de Castilla, Cataluña y los Pirineos, donde su frecuencia es muy baja (in El País)

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Se estes dados se puderem extrapolar para Portugal, afinal os “mouros” estamos mais a norte do Douro do que a sul. De resto, estas conclusões só  confirmam o que já há muito se sabia (veja-se a célebre anedota do marquês de Pombal a entregar roupa com a marca da cruz de David ao rei D.José ) e se suspeitava (famílias nobres/reais ibéricas com “sangue mouro”, como tanto se versou nos cancioneiros). Para o racismo atávico, fruto do preconceito e do medo ao diferente, estudos como este podem ser um excelente contributo para erradicar complexos estúpidos e maus.

E não se trata só de “raça”, mas de outras verdades elementares e evidentes, geralmente esquecidas: nenhuma criança nasce “muçulmana”, “cristã”, “judia”. Ou “portuguesa”, “espanhola”, “basca”. Quando assassinos selecionam vítimas de acordo com o passaporte, matam pessoas pelo credo que confessam ou pela cor da pele, estão a exprimir velhos e arreigados preconceitos do modo mais obsceno, mas muito comuns em todo o lado.

Ainda que pareça algo vago e distante, estudos semelhantes ao acima citado confirmam que toda a espécie humana actual descende duma população comum, africana, que ainda não se teria separado há uns simples 60.000 anos. Pode parecer muito tempo ( e é, à escala humana), mas nessa época, na Peninsula Ibérica, os únicos humanos que por aqui viviam eram Neardenthais (cuja linhagem se extinguiu umas dezenas de milhar de anos depois). Talvez por isso, sempre achei deprimente aqueles que cultivam rótulos monotemáticos como o “celtismo”, “a negritude”, “as suecas (todas) louras” e só para me ficar pelos mais inofensivos.

Ainda que a questão das origens seja assunto que não me perturbe o sono, confesso que me fica uma dúvida existêncial.

Donde me chegam os restantes +/-60% de genes? De celtas, godos, romanos, fenícios, gregos, vândalos, bascos, quiçá uns fragmentos do DNA de Neardenthal. Ah, e já me esquecia o legado mais recente dos meus antepassados que embarcaram paras as Índias, naufragaram nas costas do Cathay, desembarcaram na foz do Zambeze, penetraram no sertão brasileiro e ergueram um farol nas Berlengas.

Razão tinha, afinal, o velho Salazar, em comemorar o Dia da Raça. Raça Portuguesa, bem entendido.

 

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