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Andamos a ler menos? É mesmo?! E daí?

“(…) segundo José Soares das Neves, “perante o cenário actual e as dificuldades actuais é esperável a estagnação ou mesmo diminuição dos pequenos e médios leitores, o que para Portugal é particularmente gravoso, porque os nossos níveis de leitura são muito baixos”.

De acordo com as Estatísticas da Cultura do INE relativas a 2011, 58,4% dos portugueses não tinha lido nenhum livro como actividade de lazer nos 12 meses anteriores e 27,3% tinha lido menos de cinco livros. Os números compõem-se um pouco se juntarmos os livros lidos por trabalho ou estudo: a taxa de não-leitores desce para 41,6%.

Mesmo assim, “em França, há 80% de leitores”, compara o sociólogo.” (in Público)

Sejamos claros: ler, por si mesmo, não significa cultura, conhecimento, sensibilidade, ou qualquer manifestação de abertura e curiosidade para o mundo.” (Ler significa alguma coisa? in Escrever como?)

Sem pretender ser cínico (de maneira nenhuma!)*, devo dizer que não me assustam nada os números indicados pelo INE. Não sei se é possível comparar estes dados com anos tão remotos como 1990, 1980, 1970…e fico-me por aqui, mas tenho a impressão que a perspectiva será muito optimista: uma subida consistente do número de leitores e de venda de livros.

Somos um país de poetas e romancistas, toda a gente sabe, basta percorrer as ruas das cidades atento aos nomes das mesmas, mas nunca fomos um país de leitores, longe disso. Creio que em 1974 ainda se estimava uma percentagem de analfabetos bastante considerável na população portuguesa (um verdadeiro nicho de mercado, se fossemos a aplicar o jargão corrente). E o conceito de iliteracia, nas décadas seguintes, veio substituir o de analfabetismo, o que já significa um progresso.

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Frente à rivalidade feroz imposta pela rádio, pela televisão, pelo computador, por toda a parafernália audiovisual on-line, conseguir ter ganhos de leitura como os que imagino que temos tido nos últimos 40 anos, é obra! 

Claro, podia ser melhor. Mas há 40 anos, e mesmo antes, o ensino da língua e da literatura nos liceus assustava o mais bibliófilo dos adolescentes, depois disso creio que se tem progredido na eliminação da literatura dos programas escolares. Basta folhear os jornais e revistas, e procurar as secções de crítica literária para perceber. Ou ver os top’s de vendas nas livrarias.

E atente-se na subtil distinção por parte do INE: ler livros como actividade de lazer, por um lado, e ler livros por causa do trabalho ou estudo, pelo outro lado.

Em eras remotas, havia quem lesse por paixão, curiosidade incontrolável e prazer, misturando as horas de lazer, de trabalho e de estudo. Felizmente, numa época em que existe a categoria de “literatura de aeroportos” e livrarias com secções de “auto-ajuda”, o nosso tempo e qualidade de leitura está igualmente normalizado.

* ok, estou a mentir.

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“Internet es una cosa y su contraria”

Em entrevista recente, Umberto Eco diz que “Internet es como la vida, donde te encuentras personas inteligentísimas y cretinas. En Internet está todo el saber, pero también todo su contrario, y esta es la tragedia.

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Ou seja, uma tragédia banal e previsível: quanto mais se alarga o universo dos nossos relacionamentos, contactos, fontes de desinformação, espaços de debate, etc, mais facilmente nos deparamos com o maravilhoso e o mesquinho. Porém, há uma ou outra lei da Física que explica haver maior probabilidade estatística para encontrarmos esta última categoria, em vez da primeira (life sucks, terá dito já algum filósofo).

A internet veio aumentar (vertiginosamente) o número de interacções possíveis para o ser humano comum. Que diferença para aqueles bem informados cidadãos ao longo do sec.XIX, correspondendo-se com dezenas, às vezes centenas, de outros indivíduos por todo o mundo, através de papel de carta e dos serviços de correio da altura (a pé, a cavalo, de barco), lendo jornais e revistas que os punham a par das últimas novidades com um atraso somente de dias, semanas, talvez meses, e partilhando entre si um imenso acervo bibliográfico que as enciclopédias (em papel, também) tornaram ainda mais fácil de aceder e consultar!

Porém, sentido crítico, bom senso, curiosidade intelectual e abertura de espírito nunca deixaram de ser ferramentas básicas para o uso e abuso destes recursos, sejam analógicos, sejam digitais.

Infelizmente, são ferramentas que não vêm com o software básico.

dinamite cerebral

 Fazem-me falta aqueles programas de rádio de décadas atrás, geralmente à noite e sábados de manhã, em que haviam autores com nome e com prazer em partilhar seus gostos e saberes. Com eles aprendi alguma coisa sobre música norte-americana, brasileira e outras. Também na TV haviam documentários temáticos, debates e programas de autor, onde havia tempo para formular pontos de vista, teses, contraditórios, etc. Provavelmente foram desaparecendo por serem “chatos”, não terem audiência, ficarem caros e faltar-lhes “actualidade”, “dinamismo”. Dos jornais podia dizer a mesma coisa (saudades do tempo da Revista do Expresso dos anos 70-80, do Público dos primeiros anos…).

Na Antena 2 ainda vou ouvindo alguns programas temáticos, muitas vezes sobre assuntos e autores que me são completamente desconhecidos, para meu grande benefício pessoal. E tem Jazz apresentado e comentado por quem sabe e gosta. Na TV alguns espaços de debate são puro tempo perdido por diversas razões, seja pelo formato, seja pelos comentadores  serem “residentes” com um discurso previsível, seja por representarem uma corrente de opinião partidária. Nos jornais, ainda vão aparecendo colunas de opinião interessantes. Provavelmente, muita coisa boa haverá sem grande projeção e que me escapa.

O que não me escapou foi o “Ponto/Contraponto” do José Pacheco Pereira na Sic. Sendo quem é e a solo, só podia ficar na expectativa do que poderia sair dali. E o que tenho visto confirma o prometido pelo próprio JPP: um programa sobre as suas opiniões a propósito dos media portugueses e o modo como estes produzem notícias. Para quem acompanhe o Abrupto, a abordagem é familiar. A diferença está no próprio media com tudo o que isso implica.

Talvez se possa dizer que é um formato “pobrezinho” para televisão, mas só por si faz justiça ao mote “boa dinamite cerebral”: pôr um senhor conhecido, com um percurso político activo e partidário, há vários anos escrevendo em jornais, participando em debates nas tv’s, autor dum blogue de grande audiência, execrado publicamente por muita gente, a falar 15 minutos sobre o modo como jornais e televisões lidam com os factos e produzem notícias, é uma provocação ao políticamente correcto.

O seu estilo não é bombástico, suas críticas são duras e explícitas (quer dizer: nomeia, cita e ilustra os visados…os quais não são pessoas, mas os próprios media e, obviamente, quem produz as notícias) e o tema não é política/sociedade/cultura, etc, mas simplesmente as “notícias”. Imagino como deva ser irritante para quem trabalha na área da comunicação social ter alguém com este estilo e esta abordagem a dedicar-lhe semanalmente 15 minutos de crítica. Mas é largamente compensador para quem siga o programa: faz-nos pensar, reflectir e olhar de modo diferente para os títulos de jornal ou para o alinhamento noticioso nas televisões. Estará JPP a aplicar algo de novo? Na verdade, outros já o fazem. Mas na Televisão?

Curiosamente, como o próprio JPP se refere, as críticas ao programa são imensas. Por ser ele. Por ele tratar dos assuntos à sua maneira. Por não haver contraditório. Mas a dinamite cerebral também passa por isto: por se deixar arrebentar opiniões parciais (não necessariamente falsas, sectárias ou motivadas por outros interesses que os explicitados) e assistir ao espectáculo pavoroso dos que se sentem atingidos na carne e no ego.

Venham mais programas assim para arrebentar com o estado de bovinidade geral!

 

Ponto/ Contraponto é um programa de opinião.(JPP)

Ponto/ Contraponto é um programa de opinião.(JPP)

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