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Posts tagged ‘manuel maria carrilho’

A crise (sempre) é uma grande oportunidade

Tenho de reconhecer que na minha problemática adolescência, já as “pessoas muito sérias” (Paul Krugman) enchiam o peito antes de debitar números, análises, diagnósticos e previsões, apontando erros alheios e oferecendo receitas fantásticas de tão evidentes e assertivas.

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Dogbert, o consultor
Dogbert: “Um modo de encarar os seus problemas é que ninguém gosta dos vossos produtos…mas não sei como resolver isso. Assim, recomendo que se forme unidades de negócios internas para andarem a discutir uns com os outros.”
Cliente: “Porque recomenda isso?”
Dogbert:”Bem, estaria a mentir se dissesse que gosto de si.”

Sim, estou a falar de economistas, gestores e e toda essa gente muito objectiva, que lida com a realidade e com os números. O meu oposto, portanto.

Curiosamente, naquele tempo tanto os havia com o perfil neo-liberal (categoria discutível, mas que toda a gente entende o que quero dizer) como os de perfil marxista (-leninista). E uma catrefada de coisas intermédias, até porque aqueles eram mesmo outros tempos: assumia-se a ideologia, a social-democracia tinha pergaminhos e nem a China, nem a Rússia, eram os países capitalistas que conhecemos de há 20 anos a esta parte.

Com uma diferença, contudo: essa gente “muito séria” não se limitava ao estribilho da austeridade. O que as caracteriza, então como agora, é que “nunca se enganam e raramente têm dúvidas” (Aníbal Silva).

E não perdem o ar sério, as qualidades analíticas, o dom profético e compulsão em divulgar receitas auto-evidentes. Tudo em virtude de praticarem uma ciência, creio eu de que.

O que é consolador, pois se a crise económica actual é longa e dura, como seria se aqueles que regem os mercados, os bancos centrais, os governos, os fmi’s, etc,  fossem pessoas falíveis, dotadas de auto-crítica, sujeitas ao contraditório e à penalização (académica, claro) da sua reputação. Sim, como seria? (mais…)

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guerras mundiais à porta de nossa casa

Ainda a propósito da “informação que temos direito“, leio hoje o artigo de TGA abaixo citado. Há uma guerra tecnológica já em movimento e é tudo menos claro o seu desfecho. Para além do interesse dos regimes políticos autoritários em se defenderem da opinião alheia, existem nos países com liberdade de expressão uma percentagem variável (mas significativa) de pessoas  que apoiam activamente a limitação dessa mesma liberdade; por outro lado, o desafio tecnológico exige criatividade e, portanto, liberdade. Assim como a liberdade é um anseio pessoal que não se restringe a nenhuma época ou cultura.

In thinking about the way information is supplied to us, we have, it seems to me, four possible approaches:

 (1) the state I live in decides what I can and cannot see, and that’s OK;

 (2) the big companies I rely on (Google, Yahoo, Baidu, Microsoft, Apple, China Mobile) select what I see, and that’s OK;

(3) I want to be free to see anything I like. Uncensored news from everywhere, all of world literature, manifestos of every party and movement, jihadist propaganda, bomb-making instructions, intimate details of other people’s private lives, child pornography – all should be freely available. Then it’s up to me to decide what I’ll look at (the radical libertarian option);

(4) everyone should be free to see everything, except for that limited set of things which clear, explicit global rules specify should not be available.

 (Timothy Garton Ash in Guardian)

Por coincidência, MMC também fala dum outro confronto: o do desenvolvimento sustentável.

A utopia ecológica, que procura estabelecer regras universais que garantam o equilíbrio do planeta – e que sofreu um grande revés com o fracasso de Copenhaga. A utopia tecnológica, que aposta sobretudo em “esverdear”o crescimento, acreditando que a humanidade acaba sempre por encontrar soluções técnicas para os seus problemas, nomeadamente para aqueles que decorrem das crises de escassez.

E a utopia antropológica, que procura estimular uma reflexão de fundo sobre o modo de vida das nossas sociedades, as raízes e os efeitos da extrema dependência em relação ao hiperconsumo nos modelos de vida hoje dominantes. Como bem diz Cohen, esta é a utopia decisiva, porque é ela que “obriga a que nos interroguemos sobre o que há de mais inessencial na civilização material que o Ocidente exportou para o resto do mundo, e a questionar os fundamentos das nossas sociedades”.

 (Manuel Maria Carrilho in DN)

E quem julga que os confrontos são distintos, talvez se engane…

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