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“…os livros me fazem e desfazem”

Quando se lê muito, e eu fui feito pela leitura e não pelo estudo – porque nunca verdadeiramente estudei no sentido escolar do termo, e não “fazia os trabalhos de casa” -, aprende-se e forma-se. Aliás, este é o cerne da educação no sentido clássico, hoje tão esquecido, o de aprender para se fazer.
 
 
O livro de Werner Jaeger sobre a paideia grega era então de leitura obrigatória para qualquer aprendiz de filosofia, e explicava bem essa parte “passiva”, interior, aberta às influências e às seduções, quer do pathos, quer doethos, quer do logos.
 
 
Essa formação “passiva”, a que nos faz, é, pela sua natureza, caótica, depende do “monstro”, que alimentamos à força dos livros, e do modo como eles atingem a vida que se tem. Mas uma vez feita, fica lá para sempre. “Passiva”, aqui nada tem de negativo, mas de silêncio interior perturbado apenas pelo som da nossa voz íntima falando connosco próprios.
 
 
Freud sabia o que isso era, Proust também e, lá longe, na sua fantasmática Konigsberg, Kant procurava-a como alicerce para essa “razão prática” que fundamentava tudo. 
 
Depois, a uma dada altura, dá-se a volta, e a enorme presunção adâmica que os intelectuais têm fá-los escrever. Escrever, nos anos sessenta, por esta ordem: poemas, “teoria” e romances.
 
 
Hoje, a ordem está alterada: os poemas estão lá, mas com menos peso, depois ficam as escritas fáceis (e quase sempre débeis) dos blogues e Facebook, e depois romances, romances, romances. Esta ordem das coisas é para mim um mistério, como é que uma pessoa de juízo normal pensa que os pode escrever com facilidade.” (JPP in Abrupto)
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Andamos a ler menos? É mesmo?! E daí?

“(…) segundo José Soares das Neves, “perante o cenário actual e as dificuldades actuais é esperável a estagnação ou mesmo diminuição dos pequenos e médios leitores, o que para Portugal é particularmente gravoso, porque os nossos níveis de leitura são muito baixos”.

De acordo com as Estatísticas da Cultura do INE relativas a 2011, 58,4% dos portugueses não tinha lido nenhum livro como actividade de lazer nos 12 meses anteriores e 27,3% tinha lido menos de cinco livros. Os números compõem-se um pouco se juntarmos os livros lidos por trabalho ou estudo: a taxa de não-leitores desce para 41,6%.

Mesmo assim, “em França, há 80% de leitores”, compara o sociólogo.” (in Público)

Sejamos claros: ler, por si mesmo, não significa cultura, conhecimento, sensibilidade, ou qualquer manifestação de abertura e curiosidade para o mundo.” (Ler significa alguma coisa? in Escrever como?)

Sem pretender ser cínico (de maneira nenhuma!)*, devo dizer que não me assustam nada os números indicados pelo INE. Não sei se é possível comparar estes dados com anos tão remotos como 1990, 1980, 1970…e fico-me por aqui, mas tenho a impressão que a perspectiva será muito optimista: uma subida consistente do número de leitores e de venda de livros.

Somos um país de poetas e romancistas, toda a gente sabe, basta percorrer as ruas das cidades atento aos nomes das mesmas, mas nunca fomos um país de leitores, longe disso. Creio que em 1974 ainda se estimava uma percentagem de analfabetos bastante considerável na população portuguesa (um verdadeiro nicho de mercado, se fossemos a aplicar o jargão corrente). E o conceito de iliteracia, nas décadas seguintes, veio substituir o de analfabetismo, o que já significa um progresso.

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Frente à rivalidade feroz imposta pela rádio, pela televisão, pelo computador, por toda a parafernália audiovisual on-line, conseguir ter ganhos de leitura como os que imagino que temos tido nos últimos 40 anos, é obra! 

Claro, podia ser melhor. Mas há 40 anos, e mesmo antes, o ensino da língua e da literatura nos liceus assustava o mais bibliófilo dos adolescentes, depois disso creio que se tem progredido na eliminação da literatura dos programas escolares. Basta folhear os jornais e revistas, e procurar as secções de crítica literária para perceber. Ou ver os top’s de vendas nas livrarias.

E atente-se na subtil distinção por parte do INE: ler livros como actividade de lazer, por um lado, e ler livros por causa do trabalho ou estudo, pelo outro lado.

Em eras remotas, havia quem lesse por paixão, curiosidade incontrolável e prazer, misturando as horas de lazer, de trabalho e de estudo. Felizmente, numa época em que existe a categoria de “literatura de aeroportos” e livrarias com secções de “auto-ajuda”, o nosso tempo e qualidade de leitura está igualmente normalizado.

* ok, estou a mentir.

alice mora aqui

Uma das coisas boas que se ganham com a leitura dos jornais é a de receber um brinde (provavelmente só para aqueles que os pagam, mas o mundo nem é justo, nem perfeito…). Há faqueiros, medalhões, dêvêdês, e coisas também assim tipo livros. Hoje, o JN dá o “Alice no País das Maravilhas” (1865) de Lewis Carroll.

Livro infantil, dizia-se na minha infância. Infantil?! Quando o Valete protesta inocência em tribunal e contesta a prova apresentada da alegada carta escrita por ele (precisamente porque não traz qualquer assinatura), o Rei responde que se não assinou, “isso só torna o caso ainda pior: tinha que ter más intenções, senão teria assinado, como qualquer homem honesto!” Um excelente exemplo do que se viria a chamar “lógica kafkiana” tão popular nos tribunais políticos do século seguinte.

However, sua leitura também sofreu actualizações como em “White Rabbit” dos Jefferson Airplane:

Novas Tecnologias de Informação e Comunicação

Visitando a Rua da Castela, espreitei para uma montra e descobri esta novidade:

Mas como tudo o mais, também têm os seus defeitos: ardem mal…

livros tratados como lixo

Que fazem as editoras com os livros que não se vendem? A resposta óbvia: reciclam-nos.

Bem mais lógico do que certas propostas absurdas como a seguinte: pergunto-me mesmo se não poderia lançar-se um Banco Editorial contra o Analfabetismo (ou contra a Iliteracia, o que seria mais realista), onde pudessem ser recolhidos os fundos editoriais que por aí andam a ser vendidos ao quilo. E, quem sabe, poder oferecê-los pelo mundo de língua portuguesa, para locais onde há imensa falta de coisas escritas em português. E não apenas literatura portuguesa, como o viés patrioteiro de alguns apenas quer promover. (in Duas ou três coisas)

Ou a proposta ainda mais lunática de pôr as autarquias a comprar os livros: aquisição a preços reduzidos de acervos bibliográficos que enriqueçam o espólio das bibliotecas da rede de leitura pública, ou outras. (in SPA)

"Há alguns meses, um colega ofereceu-me um livro da sua autoria, versão melhorada da tese de doutoramento. Naturalmente, agradeci-lhe o gesto, até porque o tema era do meu interesse. Disse-me que o caso não merecia tanto, pois a editora tinha-o contactado perguntando-lhe se queria comparar os restos da edição, ao quilo penso ter ouvido, caso contrário, iriam para reciclagem."(in De Rerum Natura)
“Há alguns meses, um colega ofereceu-me um livro da sua autoria, versão melhorada da tese de doutoramento. Naturalmente, agradeci-lhe o gesto, até porque o tema era do meu interesse. Disse-me que o caso não merecia tanto, pois a editora tinha-o contactado perguntando-lhe se queria comprar os restos da edição, ao quilo penso ter ouvido, caso contrário, iriam para reciclagem.”(in De Rerum Natura)
 

“o prazer e a importância da leitura”

Mas quanto mais infantilizados e incultos nos tornarmos, mais facilmente seremos dominados, tal como o fomos quando éramos maioritariamente analfabetos. Ler e dar a ler livros de qualidade não poderia então ser um dos nossos deveres para com a pátria? (Mª.Rosário Pedreira in Blogtailors)

"fui fazer o exame da quarta classe e a primeira coisa que o júri me perguntou, numa sala onde havia um enorme retrato de Marcello Caetano, foi quais eram os meus deveres para com a pátria…"

"fui fazer o exame da quarta classe e a primeira coisa que o júri me perguntou, numa sala onde havia um enorme retrato de Marcello Caetano, foi quais eram os meus deveres para com a pátria…"

“Apagar é mais importante que escrever”

(…) a pior consequência de apagar demais é não ter nada escrito. Normalmente, é menos grave que escrever asneira. (in Que Treta!)

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