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Nota

O livro como espaço de deliberação e pensamento

Excelente entrevista ao escritor americano Junot Díaz, publicada hoje. Sua leitura integral é imprescindível (ver link mais abaixo), mas destaco este trecho:

El País: ¿Y no puede ser que hayamos llegado a un punto de la historia de la cultura en la que la lectura ha dejado de ser relevante?

Junot Diaz : Sinceramente, no lo creo. Todavía tiene que venir alguien capaz de demostrarme que existe un espacio de deliberación y pensamiento mejor que un libro.

El País: Pero usted mismo me acaba de decir que sus estudiantes no leen.

Junot Díaz: Creo que habría que situar esto en un contexto más amplio. La Universidad como institución ha dejado atrás los valores de la educación para sustituirlos por un modelo de negocios. Mis estudiantes creen que están allí para conseguir un puesto de trabajo. (Junot Díaz in elpaís)

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leitura em linha

Há dias Há noites atrás assisti a um mini-debate sobre as vantagens da edição de livro-livraria-leitura tudo on-line. É um tema novo já com alguns anos, mas que se faz sentir com maior força. E a força maior são os preços reduzidos para o leitor quando os gadgets de leitura prometem ser cada vez mais cómodos e com maiores recursos.

Pessoalmente, que sou leitor da velha guarda e que gosta de ter meia-dúzia de livros abertos (porque não cabem mais sobre a mesa) para escrever duas linhas que seja sobre algum assunto, e não tenho ainda nenhum ipad/kindler ou coisa que o valha, sei com o saber feito de quem já viu muito (e percebe cada vez menos) que sendo as coisas como são, o “livro electrónico” está aí para ficar e durar. Pelo menos até que outro suporte de leitura o ultrapasse na relação custo-qualidade.

Algo de parecido se passou algures entre o sec.XV e XVI por causa da generalização da palavra impressa, em vez de manuscrita. Isso não acontece sem deixar mossas nos 5 sentidos e no intelecto, conforme McLuhan tão bem explicou em A Galáxia de Gutemberg, e muito monge-escriba se deve ter passado com a novidade. Eu próprio sofri a mudança de escrever com lápis/caneta para o teclado do computador (com a evolução intermédia da máquina de escrever), mas só posso estar grato pelo futuro da escrita não ter demorado tanto tempo que eu não o agarrasse.

Suponho que, no futuro-que-já-é-hoje, centenas de milhões de pessoas escreverão seus livros e estes estarão disponíveis on-line (centenas de milhões de títulos, portanto…). À semelhança do que já acontece com os blogues. E daí? Haverá mais leitores? Ou mais simples consumidores que se cansam após um rápido zapping das páginas virtuais? McLuhan terá dito (vejo no site que lhe é dedicado): the future of the book is the blurb [blurb: o pequeno texto que resume ou elogia a obra, usualmente colocado nas badanas ou na contra-capa do livro].

É, receio bem que a paciência e a concentração estejam irremediavelmente comprometidas. Principalmente se o objectivo da leitura é o prazer lazer . Mas, também por isso, imagino que o livro-tal-qual-é-hoje ficará reservado para o leitor-gourmet, tipo apreciador da slow-food, e será ainda um sinal irresistível de snobismo e de dinheiro. Assim, as edições cuidadas, com encadernações proibitivas ou coisa e tal, permanecerão, e para as bolsas menos competentes surgirão as edições de bolso, mas a preços em nada económicos comparados com os actuais bolsos. À escala temporal e financeira da minha vida, comparo àqueles fanáticos da edição original dispostos a pagarem fortunas nos alfarrabistas, as prateleiras cheias de livros de lombada em couro e tal e tal.

Enfim, bem vistas as coisas, nada de novo por debaixo do sol…

notoriedade como a) artista renascentista b) tartaruga ninja

“extensive knowledge acquired chiefly from books: profound, recondite, or bookish learning”

O conhecimento “aprendido dos livros”, elemento fundamental de toda a erudição, não está propriamente no top de coisa nenhuma.

A erudição é hoje um completo anacronismo e é vista como uma coisa obsoleta, inútil, desligada da realidade, oposta ao verdadeiro saber e um obstáculo a esse mesmo saber. 

(…)  O sonho de absoluto que anima toda a erudição, saber tudo sobre tudo, é no fundo vão, mas nunca ninguém viu um genuíno erudito desistir, a não ser pela loucura.

 Loucura mansa de um modo geral, por isso os eruditos vivem no meio de nós como uma espécie em extinção. (in Abrupto)

“Livros que mudaram o mundo”

Curioso título da coleção de livros que o Público está a vender juntamente com o jornal. Certamente estão presentes obras-primas da Literatura e alguns livros que marcam o pensamento do nosso tempo. Mas daí a dizer que os Lusíadas, o Fausto ou o Hamlet mudaram o mundo…quem dera! Faz-me pensar, antes, nos critérios de edição e na ausência de direitos de autor.

Mesmo a Odisseia, que marca profundamente a cultura europeia, creio ser discutível atribuir-lhe a “mudança do Mundo”. Tal como a Divina Comédia.

Platão tem direito a dois títulos na coleção, mas nem assim mudou o mundo do seu tempo (nem depois) com muita pena sua (ao menos, fez por isso). Marx e Engels também tiveram essa pretensão, contribuindo efectivamente para a mudança do mundo muito para lá de suas vidas, e os títulos escolhidos são, provavelmente, dos mais lidos da sua obra. Mas Rousseau?! More ainda menos. Weber? Não creio. Agostinho, Erasmo, Descartes e Maquiavel: esses marcaram decisivamente o modo como, ainda no seu tempo e muito depois (até hoje), o nosso mundo foi mudando sua mundivisão. (mais…)

ciência em verso

"Ciência para meninos em poemas pequeninos" de REgina Gouveia (texto) e Nuno Gouveia (ilustração) ed. GATAfunho 2009

"Ciência para meninos em poemas pequeninos" de Regina Gouveia (texto) e Nuno Gouveia (ilustração) ed. GATAfunho 2009

Ontem assisti ao lançamento deste livro (cuja autora conheço e estimo) e ouvi algumas verdades evidentes, de todos bem sabidas, mas manifestamente esquecidas: o gosto e o hábito pela leitura cultivam-se ainda antes de se ensinarem as letras.

Como é possível semelhante prodígio não é propriamente segredo: contando (lendo em voz alta) histórias aos mais pequenos sempre foi a garantia de transmissão de cultura em todos os tempos e lugares. Por vezes nem há história, mas lenga-lengas de destreza verbal, mental ou meras mnemónicas.

Se acrescentarmos, ainda, o impacto duma imagem cujo desenho não cessa de sugerir interpretações, suscitar sentimentos e levar a imaginação a voar mais longe, o efeito torna-se duradouro e potencialmente transformador.

Minhas memórias, impressões e afectos profundos assentam muito na convivência com um avô contador e criador de histórias, da sua biblioteca de livros com imagens por vezes intrigantes, às vezes perturbantes, de que estou certo me acompanharão até ao fim da vida.

Ora, este livro contém ainda um valor adicional: o de proporcionar uma compreensão natural para os fenómenos naturais (passe a redundância, não houvessem tantas e variadas explicações fantásticas para a trovoada ou para o ciclo lunar, por exemplo), sem deixar de personificar o sol ou a gota de chuva na melhor tradição da narrativa infantil. E para tudo isto, o trabalho de ilustração é um aliado fundamental que prende a atenção e suscita o interesse, principalmente para o analfabeto com menos de meia-dúzia de anos.

Além do pretexto de, nós-os-adultos, nos transfigurar-mos num iniciado da antiga arte esotérica (e quase extinta) dos recitadores de contos e versos ao bom estilo do “Era uma vez…”

futuro anacrónico

El pensamiento posado y reposado sobre el papel tiene determinados componentes de presencia que no pueden sustituirse fácilmente. (Emilio Lledó in el país)

A existência física dum texto seguro pelos dedos, a presença do livro no espaço da sala que nos chama a pensar nos assuntos lidos, as marcas do tempo e do leitor, bem podem ter um interese marginal, senão mesmo ridículo, para quem não tem hábitos de leitura.

 Possivelmente, o livro editado a papel voltará a ser um objecto caro, porque destinado a uma minoria. Áqueles gourmets que saboreiam a textura do papel enquanto deglutem uma ideia especiosa, uma frase bem condimentada.

E surgirá a moda das leituras em grupo, a serem partilhadas ao ritmo do tempo com que a vida enche o mundo de novidades e acontecimentos. Escrever passará a ser um exercício de estilo e sensibilidade, em rascunhos à mão e a lápis, num primeiro tempo e para não perder a inspiração; depois, um esforço de criatividade e inteligência. Possivelmente, surgirão espaços públicos com mesas e cadeiras onde se servirão cafés para que as pessoas possam ler, escrever e conversar…sem pressa. Com todo o prazer. E lojas de rua onde livros serão acumulados em estantes imensas num labirinto cujo sentido só o cliente apaixonado poderá descobrir.

paradoxo

(…) um indicador para se aquilatar a dinâmica cultural relacionada com a edição do livro nos nossos dias, sugerindo que se compare o universo da crítica literária e até polémica de outros tempos entre leitores e admiradores de Eça e de Camilo, lendo e discutindo um e outro autor, produzindo um incontável número de leituras, abordagens e textos críticos publicados em jornais, revistas ou em livros, ao longo de muitos anos, e o que se passa hoje em dia, em relação aos autores de sucesso (Paulo Samuel aqui)

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