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reflexão dominical

Num pacato Domingo de fim de Maio, tomando o pequeno-almoço na minha varanda virada ao mar (apesar de distante vários quilómetros e impossível de avistar desde o meu prédio, sua presença é sensível graças ao vento e ao céu), navegando livremente no grande oceano da net, descubro um elo comum numa série de notícias que me fazem pensar na frágil segurança do bem-estar que nos convencemos ser o nosso dia-a-dia.

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Este ano faz 1 século que Emily Wilding Davison, aos 40 anos, tornou-se tristemente célebre por se ter atirado para debaixo de um cavalo, em plena pista de corridas, algures no Reino Unido, como forma de chamar a atenção para a causa do direito de voto para as mulheres (ou sufrágio universal, daí o termo “suffragettes” para designar as militantes das organizações que reivindicavam a alteração da legislação).

Recentemente, a análise detalhada das filmagens do acidente permitem concluir que o objectivo de Emily não foi o de se sacrificar pela causa, mas um acto de propaganda espectacular que correu mal (muito mal, porque morreu). A mim sempre repugnaram actos suicidas de propaganda e sempre admirei a coragem daquelas mulheres, geralmente da classe média ou superior, que enfrentaram os poderes instituídos e o preconceito social, agindo de forma pacífica. Emily W.Davison foi uma dessas mulheres que se expôs por uma luta social e política de que somos todos devedores, porque beneficiários.

Infelizmente, nos dias de hoje mas noutras partes do mundo, uma outra mulher tem-se destacado com acções espectaculares e pacíficas, lutando por direitos que são em tudo iguais aos reclamados por Emily, cem anos atrás: Amina Tyler, tunisina de 19 anos, militante da rede feminista Femen, tem levado uma solitária campanha pelos direitos da mulher numa sociedade muito conservadora (ou seja, patriarcal) e enfrentando o ódio assassino do extremismo religioso.

Difícil de explicar o valor e simbolismo dos seus actos sem perceber o meio social onde Amina vive; tal como as “suffragettes” no seu tempo, ela opõe-se a uma mentalidade que submete metade da Humanidade a um papel social secundário, com todo o potencial de violência e repressão que isso implica para a outra metade. Também a Amina somos todos devedores de agradecimento e solidariedade, pois tudo o que a sua luta consiga obter através da sua corajosa exemplaridade, só pode ser em nosso benefício.

Barbaridades como a que aconteceu esta semana, algures em Londres, são reflexo directo daquilo que Amina se opõe: o ódio, a intolerância, o terrorismo, a morte. Neste atentado terrorista, a todos os níveis invulgar, merece destaque a acção de algumas pessoas, pessoas absolutamente “comuns”, que não permaneceram indiferentes e agiram no momento, lidando directamente com os assassinos e tentando auxiliar a vítima (que já estava morta, na verdade). Entre essas pessoas, destaque para Ingrid Loyau-Kennett, 48 anos, pela calma e pela capacidade de diálogo frente aos assassinos, numa tentativa de evitar que atacassem outras pessoas, conforme é aqui relatado. Ela, e outras mulheres que permaneceram junto da vítima, demonstraram uma capacidade de acção e coragem que não faz parte do padrão de conduta a que estamos habituados em casos semelhantes.

Entretanto, Maria Alyokhina, 24 anos, cantora da banda russa Pussy Riot, iniciou uma greve de fome para protestar contra a decisão do tribunal em não autorizá-la a estar presente na audiência para concessão de liberdade condicional. Juntamente com Nadezhda Tolokonnikova, 22 anos (que já viu negado o pedido de liberdade condicional), encontra-se detida há um ano pelo crime de “blasfémia” e “ódio religioso”, embora o alvo das suas canções e acções pacíficas, mas espectaculares, seja o poder político russo e o presidente Putin. Também a elas devemos estar gratos pela coragem demonstrada frente a um estado todo-poderoso que não olha a meios para impor os interesses de quem manda.

No início falei dum fio condutor a todas estas histórias: coragem, acção não-violenta, cidadania. E os protagonistas: são todos mulheres. Foi o que me chamou a atenção.

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“não há famílias de primeira e de segunda”

Uma boa notícia, motivo de orgulho para quem é português:  “Portugal torna-se o quinto país a aprovar co-adopção por casais homossexuais” .

E de parabéns todos os partidos políticos representados na Assembleia da República.

ADENDA em 18-05-13: Os conceitos de “pai” e de mãe” -e, até, de “família” – estão há muito destruídos nos arquivos dos tribunais que foram, anos e anos a fio, de família dita “tradicional”. A maior parte dos autos testemunham, afinal, como os “princípios” são negociáveis e, por tabela, os filhos também ao lado das casinhas e dos automóveis. Isto onde há “família”. Imagine-se onde nunca houve. (in Portugal dos Pequeninos)

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“um homem faz de mãe e uma mulher faz de pai”

Um assunto que fascina antropólogos, etnólogos e historiadores é a diversidade e a evolução do conceito “Família” ao longo dos tempos.

Já suspeitava que também interessa aos juristas, mas não sei se a expressão “família natural” foi criada por eles, na continuidade de algum suposto “Direito Natural”. Mesmo assim, confesso a minha surpresa ao ler que, para a Ordem dos Advogados, a família é “uma família constituída por um pai (homem) e uma mãe (mulher) e não com um homem a fazer de mãe ou com uma mulher a fazer de pai.” (in Público)

Provavelmente, começou assim com Adão e Eva, porém o mundo foi sempre uma dor de cabeça para quem o criou e estabeleceu as regras do jogo: a Humanidade é arredia a tipificações muito precisas, mais ainda a normas impostas pelos deuses e pelos genes.

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Apesar de ser uma pessoa pouco vivida, recordo algumas mulheres de quem se dizia que eram “o homem da casa”, no sentido do “quero, posso e mando”. Frequentemente, era por serem quem trazia o sustento para casa, mesmo “levando porrada” do marido quando este bebia um pouco além da conta.

Assim como já li alguns livrinhos que falam daqueles viúvos que criavam as filhas com um cuidado verdadeiramente maternal. Ou tios amorosos cobrindo os sobrinhos órfãos com mimos. Ficções, certamente.

Além de ficções literárias e de órfãos, a literatura é rica em narrativas sobre as instituições onde a sociedade guarda as crianças sem família (ou que foram retiradas à família), e de que ainda ouço ecos perturbantes na Irlanda do sec.XX, e na vida real. Infelizmente, passa-se em todo o lado.

Sempre achei extraordinário que alguém, ou um casal, se dispusesse a adoptar uma criança “institucionalizada”, por muito bem que esteja a ser tratada. Estabelecer laços familiares com adultos e experimentar um sentimento de pertença faz parte do desenvolvimento natural (arrisco a palavra) de qualquer criança.

Naturalmente, há cuidados a ter na avaliação das propostas de adopção, mas a questão do sexo do(s) proponente(s) ou a(s) sua(s) preferência(s) sexual(is) são irrelevantes.

Até, porque, imagine-se “uma criança, educada por dois homens casados, até aos 10 anos de idade, morrendo nessa data o pai biológico num acidente…Aquela criança, que não distingue a nenhum nível qualquer dos pais, não tem, no entanto, o mais ténue vínculo jurídico com o, para si, pai sobrevivente. Pode mesmo vir a ser arrancada dos seus braços pela família do pai falecido, mesmo que não tenha tido qualquer contacto com ela ao longo da sua vida.” (in Público)

E isso também me faz lembrar que já vi algum filme sobre este tema. Ficções, ficções.

O “natural” é que é bom, lá dizia o anúncio.

Recordações da Casa dos Mortos(*)

Se estás de mau-humor, o tempo corre devagar. Se aprendes a viver atento à vida e dando-lhe valor, mesmo aqui, então o tempo não é perdido.

Esta é a minha principal tarefa: fazer com que o tempo que eles me querem tirar não seja perdido. E eu penso que tenho sido bem sucedida

(Nadezhda “Nadya” Tolokonnikova, 23 anos, membro das Pussy Riot, no oitavo mês dos 2 anos de prisão a que foi condenada por “hooliganismo” motivado por ódio religiosos) [in The Guardian].

(*) título de um conhecido livro de Dostoiévski, baseado na sua experiência
na prisão por motivos políticos.

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A farsa do julgamento dos três membros da banda feminina Pussy Riot não é propriamente uma surpresa, já que a tradição russa da repressão, a coberto duma pretensa moral, nunca foi interrompida senão por curtos intervalos.

A pretexto da acusação de hooliganismo e ódio religioso, nega-se o direito das acusadas afirmarem o que as levou a uma igreja e tocarem uma canção obviamente ofensiva contra o presidente russo e o mais alto representante da igreja ortodoxa russa.

http://www.youtube.com/watch?v=grEBLskpDWQ (mais…)

“Si Europa estuviera de veras unida …”

¿Qué falló para que la más generosa e idealista empresa política de nuestro tiempo haya entrado en estado agónico?(…) Pero, la verdad, este formidable proyecto careció siempre de calor popular(…) Si la Unión Europea se desintegra, los países europeos estarán mucho peor de lo que están ahora, todos, los prósperos como Alemania, Francia y los países nórdicos, y los empobrecidos, como Grecia, Irlanda y España.(…) Y si la Unión Europea sobrevive, tal vez su ejemplo inspire a otras regiones del mundo (mario vargas llosa in el país)

quando a china acordar…

Leio aqui pela enésima vez a mesma leitura do futuro previsível, mas os sinais do presente parecem-me mais seguros, até nos pequenos pormenores. Como quando nos contam da ameaça, para o regime, que são as iniciativas dos cidadãos (o embrião da tão falada sociedade civil). Mesmo quando se movem por um motivo tão simples e urgente como seja este: o de encontrar os filhos desaparecidos.

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