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poesia científica

Talvez por vivermos num tempo em que se valoriza -de facto- pouco, ou nada, a literatura em geral, a infantil em particular, e muito especialmente a divulgação cientifica de qualidade, nunca é demais realçar a obra de Regina Gouveia(…) a imaginação poética, aqui especialmente dirigida aos muito pequenos, surge aliada ao rigor científico (repare-se no pormenor da poesia já dar conta da “despromoção” de Plutão de planeta para planeta-anão) numa linguagem muito simples. Onde é que já vimos isso? (in De Rerum Natura)

Regina tem um blogue que faz parte dos mundos comunicantes com que este novo mundo está em linha. E mais além, ou aquém (conforme a posição relativa do observador…diria Einstein), ela também pinta. Uma personalidade tipicamente renascentista, portanto.

silly season

Lamenta-se um padre-cura que o declínio do número dos alunos para a disciplina de Religião e Moral Católica tenha várias causas,  “la causa primera y principal no es precisamente la actual legislación, sino la falta de interés, la comodidad, la adaptación al ambiente, cuando no la irresponsabilidad de muchos padres y alumnos, que anteponen otros intereses, cuando no la comodidad, a una buena formación cristiana“(in Público). E ameaça com um tenebroso futuro do início da época escolar sem a caridosa disciplina.

Quando Deus morreu, por volta do sec.XIX, muitos lhe sentiram a falta, mesmo entre aqueles que o mataram: a liberdade e a responsabilidade, abrindo novas possibilidades, ainda assustam mais do que atraem, é verdade. Talvez por isso, o bom do padre-cura explore a culpa e a insegurança, apontando a dedo “a comodidade”…uma outra forma de dizer prazer

E a sociedade, irremediavelmente laica, acaba por concordar à sua maneira: falta de idealismo, de civismo, de ética e de espírito de sacrifício trabalho. Como se fizessem falta umas palmadas de quando em vez e sopinha a todas as refeições.

Para antídoto a todo este pessimismo, já o sábio louco alemão insistia nas virtudes da dança, do riso e do jogo. Mas, evidentemente, é preciso ser criança para criar um novo mundo.

e porque hoje está um belo dia de praia…

A capacidade de expressão oral-escrita (em Língua Portuguesa, antes do mais) e de raciocínio matemático sempre foram as áreas mais valorizadas no discurso oficial e nas preocupações do comum dos alunos e progenitores. Por isso cansa ouvir a ladainha de décadas a lamentar os maus resultados no ensino de Português e Matemática, como se não houvessem soluções. Não que as tenha na algibeira, mas guardo minhas opiniões com a validade de quem “andou por lá” (enquanto aluno).

“Porque os conteúdos matemáticos se transmitem exclusivamente na escola; e também porque os conhecimentos nesta disciplina são adquiridos de forma sequencial, em cadeia – quem encontrar pela frente um fraco professor deixa de possuir os requisitos prévios mínimos para avançar, ou seja, as bases, e cessa então de forma abrupta o seu processo de aprendizagem. Sem qualquer culpa, e sem bases, os estudantes são afastados de forma definitiva da Matemática, passando a odiá-la.” (Paulo Morais in JN)

Esta conclusão de Paulo Morais exprime bem a minha experiência pessoal, mas receio que o resto do artigo citado incida demasiado sobre a qualidade dos professores quando há outros aspectos a ter em conta e de igual importância. A começar: se o domínio da língua e da matemática são, unanimemente, entendidos como prioritários na formação, os maus resultados (tão generalizados e ao longo de gerações) decorrem de falta de investimento e estratégia.

Ora, dinheiro e planos para combater este problema é coisa que todos os anos ouço e leio que não vão faltar. Há-de ser outra coisa, certamente.

“(…) comecemos por encarar a realidade do nosso ensino em que, segundo Carlos Fiolhais, “por força de um atraso ancestral, a necessidade de uma escola qualificada que dê lugar a uma sociedade desenvolvida não está suficientemente clara na mente das pessoas. A escola, a boa escola, não ocupa ainda o lugar a que tem direito”. (Rui Batista in De Rerum Natura)

Ou seja, ainda estará (quase) tudo por fazer?

“somos felizes”

 

 O governo deve ter acreditado piamente no efeito da visita papal, conforme os termos da nota pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa: “vem dinamizar a nossa esperança para podermos abrir caminhos de solução às dificuldades e crises que a nossa sociedade atravessa“(in JN). Se bem que dinamizar a esperança não seja exactamente o mesmo que dinamizar a economia. Mas com tanto artefacto feito e vendido, produzido no país, certamente que visitas assim são benvindas por muitos industriais, comerciantes e artífices do reino: são ovos de porcelana e prata (design de Siza Vieira), é louça pintada a ouro da Vista Alegre, são hotéis esgotados, são paramentos coloridos, bandeirinhas, etc.

E vai daí o governo concede tolerância de ponto para se poder acompanhar in loco a visita do Papa, medida corajosa que não recuou frente às reclamações dos falsos moralistas que falam da crise e da necessidade de trabalhar mais, como é o caso da  Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), que recomenda para que se “mantenham abertas as valências de creche e infantário a 13 de Maio, apesar da tolerância de ponto pela visita do Papa” (in Radio Renascença), chegando ao desplante de falar em “serviços mínimos” a serem assegurados também nos ATL´s!

Felizmente, as escolas públicas irão garantir o direito a receber o Santo Papa: “Todas as escolas públicas encerrarão no dia 13 de Maio, bem como as de Lisboa na tarde de dia 11 de maio e as do Porto na manhã de 14 de Maio, quando estão decididas tolerâncias de ponto devido à visita de Bento XVI, segundo fonte oficial do Ministério da Educação.” (in Publico)

É como diz o outro: Nós acreditamos, temos fé, somos felizes.

entre a cultura e a burocracia: o ensino

Sou daqueles que sempre (sempre no sentido de até um dia) viram no professor um chato e uma figura de autoridade a contestar, em grande parte por imaturidade, em boa parte por ter professores chatos e sem capacidade de diálogo. E também conheci todo o contrário disto, assim como também o tempo ajudou-me a entender porque há tanto problema na relação entre o professor e os alunos.

"Algém quer colocar alguma questão? Não? Bem, desde que toda a gente esteja, pelo menos, apática, podemos prosseguir."

Independentemente da mediocridade das pessoas, todo o sistema de ensino condiciona professores e alunos a uma relação estéril que só a qualidade duns e de outros pode conjugar numa inversão radical dessa experiência. Como pai duma aluna actualmente no 12º ano, tenho acompanhado a evolução dos tempos e não me sinto optimista, embora observe o esforço duma escola, de seus professores e de seus alunos, em serem uma comunidade empenhada. (mais…)

acordo ortográfico

Compreendo que para os académicos da Língua, o Acordo Ortográfico seja um assunto de crucial importância para o bem ou para o mal. Aceito que seja um modo satisfatório de contrariar a ramificação natural desse ramo de tronco latino que é o galaico-português. Ou que seja um modo de potencializar a afirmação da língua portuguesa no uso internacional. E que o faça ao arrepio de certas normas e com resultados caricatos. Mas imagino que não hajam soluções perfeitas e estou certo de que nunca houve uma política de promoção da língua por parte de Portugal (então, o Brasil que assuma esse papel!). Como disse alguém: “Falta definir quem manda na língua.”

Também imagino que os utentes linguísticos portugueses irão embirrar com tudo que lhes desagrade na mudança. Com a profundidade e coerência como habitualmente falam de qualquer assunto. (mais…)

ciência em verso

"Ciência para meninos em poemas pequeninos" de REgina Gouveia (texto) e Nuno Gouveia (ilustração) ed. GATAfunho 2009

"Ciência para meninos em poemas pequeninos" de Regina Gouveia (texto) e Nuno Gouveia (ilustração) ed. GATAfunho 2009

Ontem assisti ao lançamento deste livro (cuja autora conheço e estimo) e ouvi algumas verdades evidentes, de todos bem sabidas, mas manifestamente esquecidas: o gosto e o hábito pela leitura cultivam-se ainda antes de se ensinarem as letras.

Como é possível semelhante prodígio não é propriamente segredo: contando (lendo em voz alta) histórias aos mais pequenos sempre foi a garantia de transmissão de cultura em todos os tempos e lugares. Por vezes nem há história, mas lenga-lengas de destreza verbal, mental ou meras mnemónicas.

Se acrescentarmos, ainda, o impacto duma imagem cujo desenho não cessa de sugerir interpretações, suscitar sentimentos e levar a imaginação a voar mais longe, o efeito torna-se duradouro e potencialmente transformador.

Minhas memórias, impressões e afectos profundos assentam muito na convivência com um avô contador e criador de histórias, da sua biblioteca de livros com imagens por vezes intrigantes, às vezes perturbantes, de que estou certo me acompanharão até ao fim da vida.

Ora, este livro contém ainda um valor adicional: o de proporcionar uma compreensão natural para os fenómenos naturais (passe a redundância, não houvessem tantas e variadas explicações fantásticas para a trovoada ou para o ciclo lunar, por exemplo), sem deixar de personificar o sol ou a gota de chuva na melhor tradição da narrativa infantil. E para tudo isto, o trabalho de ilustração é um aliado fundamental que prende a atenção e suscita o interesse, principalmente para o analfabeto com menos de meia-dúzia de anos.

Além do pretexto de, nós-os-adultos, nos transfigurar-mos num iniciado da antiga arte esotérica (e quase extinta) dos recitadores de contos e versos ao bom estilo do “Era uma vez…”

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