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Poderá um livro ajudar alguém a fazer algo melhor?

Nas livrarias há aquela secção dita de ‘auto-ajuda’ que engloba a mais variada das temáticas sob o mesmo signo do tédio da frase feita, cheia de amor ou optimismo.

Noutros tempos, creio que sem secção própria, espalhavam-se livros com apelativos títulos ‘faça você mesmo’ (desde uma cadeira de madeira a um foguetão inter-galáctico), ’10 passos para se tornar’ (e seguiam-se diversas opções conforme o título: melhor pessoa, pessoa fascinante, pessoa invejável, ou, prosaicamente, um vendedor de sucesso).

Também havia livros para ajudar o estudante a ser melhor estudante. Esses, curiosamente, só de olhar para as capas já me enjoavam. Bem feito, deve ser por isso que acabei por me tornar no que me tornei.

Felizmente, a idade traz sempre algumas compensações como os remorsos e o rebaixamento da soberba, além da responsabilidade de criar uma filha. Assim, comecei a perceber que a realidade do ensino ser tão chato e estúpido podia também se dever a algo mais do que ao ministro da educação e ao seu mastodôntico ministério, ao atavismo cultural em geral e a outros bodes expiatórios nacionais.

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Ou seja, antes do fim do último milénio consegui perceber que o próprio estudante acaba por trair as suas próprias expectativas ao não se empenhar seriamente naquilo que é específico da sua qualidade existencial: estudar.

Ora, recentemente deparei com uma entrevista à professora que publicou um livro com o extraordinário título ‘Como estudar melhor’ e o sub-título mais promissor de ‘Um guia para o teu sucesso’.

Confesso que a minha reacção instintiva foi a da criatura nascida na década que viu surgir coisas tão distintas como The Doors ou o ‘Maio de 68’. E, pior ainda: nascida em Portugal (o que significa que tive a agravante de, em seguida, passar a década de 70 nos bancos da escola e do liceu). Para os muito novos fica difícil de entender o que pretendo insinuar, mas adiante!

Porém, logo a seguir o peso dos anos e da experiência fez-se sentir e comecei a ler a entrevista com outro olhar: como posso negar que a maioria dos alunos que conheci não tinham/não têm qualquer método para estudar? Na verdade, não sou dos que teimam que a falta de método e a falta de estudos são das taras nacionais mais antigas que prejudicam o bem-estar geral?

Ainda assim, que algum livro se proponha resolver tão óbvio e grande problema é fácil de dizer…e consegue?! Não será um título apetecível para quem quer respostas imediatas, simplistas mas, fatalmente, ineficazes? O início do ano lectivo torna ainda mais urgente a apetência pela panaceia mágica que transforma o cábula num marrão.

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A autora, Fernanda Carrilho, defende o título do livro e o método proposto pela investigação que desenvolve há anos, através de inquéritos, entrevistas, aferindo resultados e testando as técnicas de estudo. Ou seja, não se trata dum livro baseado no sentido comum e na tradicional pedagogia da ‘satisfação do dever cumprido’.

De facto, o livro começa com um questionário de auto-diagnóstico que, a ser levado a sério pelo próprio, ajuda-o a entender onde pode e deve melhorar. Além disso, faz o estudante centrar-se no que pretende fazer, tanto da vida, como dos estudos que o podem ajudar na vida.

Reconheço que esta prosa e esta argumentação agradou-me, conciliando o adolescente rebelde que (ainda) há em mim com este que sou agora: a autora passa a responsabilidade para o indivíduo (o estudante), leva-o a ponderar sobre as opções que tem em aberto, desafia-o a realizar os seus projectos de futuro dum modo consistente, planeado, bem formado. E se não tem projectos, a desenvolver um.

Não é isto, na essência, uma lição de cidadania e apologia da liberdade?

Sem com isso descurar a responsabilidade dos pais e professores na ajuda ao aluno que se esforça para vencer as naturais dificuldades da aprendizagem: se devem estar presentes e exigir tempo de estudo (e resultados), também têm de garantir qualidade de condições para o estudo. Como ter tempo livre para as coisas que o filho/aluno goste de fazer, por exemplo.

Claro, pode alguém sugerir que as questões sociais do momento (e as de sempre, já agora: este é um tema crónico nos últimos 450 anos) são uma condicionante negativa e o cenário proposto pela autora ser idealizado, não havendo condições para tão louvável projecto ser aplicado por muitos milhares de alunos. Além de ser de exigir muito a uma pedagoga equacionar os magnos problemas que afectam o país num livro exclusivamente focado na metodologia dos estudos, seria dum fatalismo idiota pensar que os alunos de famílias muito pobres ou desestruturadas não podem, não ambicionam e não conseguem ser excelentes alunos.

De facto, não só existem inúmeros exemplos de sucesso escolar e profissional que contrariam esse preconceito, como este livro acaba por ser um excelente companheiro de estudos para quem se vê sozinho diante do desafio de organizar-se ao longo dos anos de estudo.

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 Fernanda Carrilho avisa que ‘não há poções mágicas e que os melhores métodos sempre se tornam falíveis se não forem devidamente aplicados’, e por isso reforça, ao longo dos capítulos do livro, o apelo ao leitor prosseguir a leitura, a não desistir, através de mensagens curtas e sabiamente colocadas em passagens cruciais. Diz, na entrevista, que ‘para quem está interessado em melhorar os seus resultados escolares, o primeiro passo é adquirir o livro. Mas o que acontece, grande parte das vezes (à semelhança do início de uma dieta ou de outra actividade que requer esforço da nossa parte e mudança de hábitos que já estão enraizados) é a tendência para desistir, após as primeiras páginas’.

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No final da entrevista, Fernanda Carrilho cita ‘Sete Mandamentos’ do livro Como Estudar Melhor, Um Guia para o teu Sucesso(de Fernanda Carrilho, Editoral Presença 2013). São todos pertinentes, todos fáceis de entender. Só uma objecção, prezada Autora: o 7 resulta menos boa mnemónica que o 10. Já Jeová o sabia (e mesmo assim não lhe valeu de muito, é verdade…)

Por isso, acrescentaria mais três: cultivar a paixão pela dúvida (facilita muito a aprendizagem de qualquer coisa); desenvolver espírito crítico (exige, do próprio e dos outros, explicações e demonstrações); viver a vida (dá sentido ao esforço de estudar).

Agora não há mais álibis, meus irmãos cábulas: mãos-à-obra!

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Verão cultural

Um dos privilégios da minha vida é o de poder gozar, com alguma frequência, fins-de-semana numa zona rural algures no sudoeste europeu, finais de tarde à beira-mar numa praia do nordeste-atlântico ou um dia inteiro a passear por um dos grandes rios ibéricos. Privilégios de quem reside no litoral sul da região galaico-portuguesa.

Apesar desta diversidade geográfica, em todos estes lugares posso usufruir do mesmo gosto cultural pela música gravada, geralmente com uma qualidade algo peculiar, que me chega de localidades “em festa”, dos bares da praia por onde passeio, do próprio barco que faz o percurso do rio.

A qualidade do som pode variar (muito mau nas aldeias, mau nos barcos e sofrível nas esplanadas de praia), o reportório vai do pimba (os barcos) ao pseudo-folclórico (as festas de aldeia) e a estilos mais ecléticos desde o pop dos anos 80 a temas jazzísticos (os bares), mas a ubiquidade do ruído (musical) é, de facto, a prova da tenacidade cultural das multidões estivais que celebram o convívio, a festa, o escape.

Cultura versus (evidentemente) Natura. Quem está para escutar o piar irritante dos passarinhos, o silêncio enervante das margens do rio (se calhar o rio até tem os seus ruídos próprios, mas é impossível afirmá-lo sob a torrente de canções porno-pimba que os barcos debitam) ou o barulho monótono do mar?

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Andamos a ler menos? É mesmo?! E daí?

“(…) segundo José Soares das Neves, “perante o cenário actual e as dificuldades actuais é esperável a estagnação ou mesmo diminuição dos pequenos e médios leitores, o que para Portugal é particularmente gravoso, porque os nossos níveis de leitura são muito baixos”.

De acordo com as Estatísticas da Cultura do INE relativas a 2011, 58,4% dos portugueses não tinha lido nenhum livro como actividade de lazer nos 12 meses anteriores e 27,3% tinha lido menos de cinco livros. Os números compõem-se um pouco se juntarmos os livros lidos por trabalho ou estudo: a taxa de não-leitores desce para 41,6%.

Mesmo assim, “em França, há 80% de leitores”, compara o sociólogo.” (in Público)

Sejamos claros: ler, por si mesmo, não significa cultura, conhecimento, sensibilidade, ou qualquer manifestação de abertura e curiosidade para o mundo.” (Ler significa alguma coisa? in Escrever como?)

Sem pretender ser cínico (de maneira nenhuma!)*, devo dizer que não me assustam nada os números indicados pelo INE. Não sei se é possível comparar estes dados com anos tão remotos como 1990, 1980, 1970…e fico-me por aqui, mas tenho a impressão que a perspectiva será muito optimista: uma subida consistente do número de leitores e de venda de livros.

Somos um país de poetas e romancistas, toda a gente sabe, basta percorrer as ruas das cidades atento aos nomes das mesmas, mas nunca fomos um país de leitores, longe disso. Creio que em 1974 ainda se estimava uma percentagem de analfabetos bastante considerável na população portuguesa (um verdadeiro nicho de mercado, se fossemos a aplicar o jargão corrente). E o conceito de iliteracia, nas décadas seguintes, veio substituir o de analfabetismo, o que já significa um progresso.

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Frente à rivalidade feroz imposta pela rádio, pela televisão, pelo computador, por toda a parafernália audiovisual on-line, conseguir ter ganhos de leitura como os que imagino que temos tido nos últimos 40 anos, é obra! 

Claro, podia ser melhor. Mas há 40 anos, e mesmo antes, o ensino da língua e da literatura nos liceus assustava o mais bibliófilo dos adolescentes, depois disso creio que se tem progredido na eliminação da literatura dos programas escolares. Basta folhear os jornais e revistas, e procurar as secções de crítica literária para perceber. Ou ver os top’s de vendas nas livrarias.

E atente-se na subtil distinção por parte do INE: ler livros como actividade de lazer, por um lado, e ler livros por causa do trabalho ou estudo, pelo outro lado.

Em eras remotas, havia quem lesse por paixão, curiosidade incontrolável e prazer, misturando as horas de lazer, de trabalho e de estudo. Felizmente, numa época em que existe a categoria de “literatura de aeroportos” e livrarias com secções de “auto-ajuda”, o nosso tempo e qualidade de leitura está igualmente normalizado.

* ok, estou a mentir.

a importância de andar com os pés bem assentes sobre rodas

Em tempos muito remotos, no início dos anos 80 do sec. XX, recordo como a bicicleta era coisa de desportista de estrada (mesmo na versão dos sexagenários tesos, que todos os fins-de-semana pedalavam perto duma centena de quilómetros pelo prazer de dar ao pedal) ou veículo da classe operária nas famosas pasteleiras, fabricadas algures no distrito de Aveiro.

Andar de bicicleta no Porto? Impossível, diria qualquer pessoa bem informada/bem formada.

Mesmo assim, alguns malucos iam para a Faculdade na bicla, havia um Departamento de Cicloturismo num grupo ecológico, faziam-se uns passeios para divulgar “a causa”, tudo actividades efémeras, marcadas ainda por um espírito “soixante-huitard”, nas vésperas dos gloriosos anos do Cavaquismo e do novo sonho português (betão-alcatrão-carrão).

Assim, para um velhinho desses tempos, não lhe é indiferente quando lê uma coisa como esta:

“Há décadas atrás, ainda a Internet não tinha chegado a Aldoar, o Velho Lau começou este blogue. Quer dizer, não foi assim há tanto tempo, mas parece.

A ideia, era ter um sítio que respondesse por si à pergunta que as pessoas me faziam permanentemente:

Porque carga de água andas de bicicleta na cidade?” (in Um pé no Porto e outro no Pedal)

Na verdade, a revolução dos hábitos urbanos não começa exclusivamente pelas nossas cabeças.

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Nota

O livro como espaço de deliberação e pensamento

Excelente entrevista ao escritor americano Junot Díaz, publicada hoje. Sua leitura integral é imprescindível (ver link mais abaixo), mas destaco este trecho:

El País: ¿Y no puede ser que hayamos llegado a un punto de la historia de la cultura en la que la lectura ha dejado de ser relevante?

Junot Diaz : Sinceramente, no lo creo. Todavía tiene que venir alguien capaz de demostrarme que existe un espacio de deliberación y pensamiento mejor que un libro.

El País: Pero usted mismo me acaba de decir que sus estudiantes no leen.

Junot Díaz: Creo que habría que situar esto en un contexto más amplio. La Universidad como institución ha dejado atrás los valores de la educación para sustituirlos por un modelo de negocios. Mis estudiantes creen que están allí para conseguir un puesto de trabajo. (Junot Díaz in elpaís)

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Dia do Pi 2013

Devo dizer que sou a última das pessoas que conheço para poder falar do Pi Π (3.14159265359) e o melhor que julgava entender era que se tratava de um número irracional. Apesar de ser verdade, não o é no sentido que lhe dava.

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Dito isto, e assumindo publicamente que sofri um atraso neurológico das competências matemáticas a partir da tabuada dos 7 (com a notável excepção da tabuada dos 10), o Π sempre me fascinou desde que percebi que alguns matemáticos e místicos nele depositavam a esperança da revelação duma Inteligência Superior que concebeu o Universo. O que me parecia dar razão no entendimento sobre a irracionalidade de certas coisas.

how-many-digits-of-pi-do-you-know (mais…)

oito de março

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