novidades e outras coisas

Posts tagged ‘ciência’

A crise (sempre) é uma grande oportunidade

Tenho de reconhecer que na minha problemática adolescência, já as “pessoas muito sérias” (Paul Krugman) enchiam o peito antes de debitar números, análises, diagnósticos e previsões, apontando erros alheios e oferecendo receitas fantásticas de tão evidentes e assertivas.

21026.strip

Dogbert, o consultor
Dogbert: “Um modo de encarar os seus problemas é que ninguém gosta dos vossos produtos…mas não sei como resolver isso. Assim, recomendo que se forme unidades de negócios internas para andarem a discutir uns com os outros.”
Cliente: “Porque recomenda isso?”
Dogbert:”Bem, estaria a mentir se dissesse que gosto de si.”

Sim, estou a falar de economistas, gestores e e toda essa gente muito objectiva, que lida com a realidade e com os números. O meu oposto, portanto.

Curiosamente, naquele tempo tanto os havia com o perfil neo-liberal (categoria discutível, mas que toda a gente entende o que quero dizer) como os de perfil marxista (-leninista). E uma catrefada de coisas intermédias, até porque aqueles eram mesmo outros tempos: assumia-se a ideologia, a social-democracia tinha pergaminhos e nem a China, nem a Rússia, eram os países capitalistas que conhecemos de há 20 anos a esta parte.

Com uma diferença, contudo: essa gente “muito séria” não se limitava ao estribilho da austeridade. O que as caracteriza, então como agora, é que “nunca se enganam e raramente têm dúvidas” (Aníbal Silva).

E não perdem o ar sério, as qualidades analíticas, o dom profético e compulsão em divulgar receitas auto-evidentes. Tudo em virtude de praticarem uma ciência, creio eu de que.

O que é consolador, pois se a crise económica actual é longa e dura, como seria se aqueles que regem os mercados, os bancos centrais, os governos, os fmi’s, etc,  fossem pessoas falíveis, dotadas de auto-crítica, sujeitas ao contraditório e à penalização (académica, claro) da sua reputação. Sim, como seria? (mais…)

Dia do Pi 2013

Devo dizer que sou a última das pessoas que conheço para poder falar do Pi Π (3.14159265359) e o melhor que julgava entender era que se tratava de um número irracional. Apesar de ser verdade, não o é no sentido que lhe dava.

 chickenchaos

Dito isto, e assumindo publicamente que sofri um atraso neurológico das competências matemáticas a partir da tabuada dos 7 (com a notável excepção da tabuada dos 10), o Π sempre me fascinou desde que percebi que alguns matemáticos e místicos nele depositavam a esperança da revelação duma Inteligência Superior que concebeu o Universo. O que me parecia dar razão no entendimento sobre a irracionalidade de certas coisas.

how-many-digits-of-pi-do-you-know (mais…)

“God is dead, Marx is dead, and I don’t feel too well myself” (Woody Allen)

As religiões com sentido “histórico” balizam com datas os eventos que marcam o início e o fim dos tempos, assim como as etapas do seu desenrolar, deste modo enfrentando a decadência do Mundo e do Homem com o horizonte duma salvação para os justos e duma condenação para os ímpios. Horizonte que se cumprirá para a Eternidade irrepetivelmente.

Cada geração envelhece com a certeza de que “no seu tempo era melhor”, desabafo que se pode já constatar em folhas de papiro egípcias ou tabuinhas de argila babilónicas com milhares de anos. Os mitos, por regra, falam duma idade de ouro no passado e o fim do mundo mais lá para a frente, num futuro mais ou menos longo. Processo muitas vezes cíclico, eternamente repetível.

A um nível mais terra-a-terra, o sentimento actual de que se perdem valores como o do estudo, da cultura e do trabalho, muito por culpa da tecnologia (televisão, internet), do consumismo, do individualismo e da procura do prazer, é uma derivação do pessimismo dos mitos. (mais…)

início da temporada do mistério pascal

-Então o meu papá disse-lhes, "Vá, malta, a sério, não comam aquilo" e a primeira coisa que aquela cabra faz foi come-la. Sim, e é por isso que estou aqui.

Na física do infinitamente grande, como na física do infinitamente pequeno, maravilho-me infinitamente ao partilhar a ignorância dos cientistas que nos falam da importância da matéria escura ou da “partícula de Deus”.

A natureza dos “mistérios” científicos é mais complexa e exigente que a dos Mistérios de outra natureza: ou é “misteriosa” porque assente em pressupostos mal estabelecidos ou porque só se desvela através de aparelhos conceptuais (e técnicos) ainda por estruturar. Mas, essencialmente, é um “mistério” que se revela a pergunta válidas. Questionar é uma arte maior do que a de responder, e as dúvidas menos perigosas do que todas as certezas.

Se me sinto particularmente à vontade para falar disto não é por ter sido iniciado nos saberes matemáticos (e outros) que permitem aceder às esferas superiores da mecânica quântica e da inflação do Universo, mas por pertencer àquela classe de brutos que pensa em voz alta o que cala no íntimo:

(…) Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: —
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas. (Alberto Caeiro)

E, por isso, não sou indiferente ao murmúrio das folhas, folhas dos bosques ou das bibliotecas:

The library is a quiet place.

Angels and gods huddled
In dark unopened books.
The great secret lies
On some shelf Miss Jones
Passes every day on her rounds.

She’s very tall, so she keeps
Her head tipped as if listening.
The books are whispering.
I hear nothing, but she does. (Charles Simic)

Para as criaturas urbanas que não enfrentam a epifania da Aurora e do Ocaso, duma noite de Lua Cheia ou cheia de estrelas, nem experimentam as metamorfoses do bosque ao longo das 4 Estações, fica difícil entender que há tanta beleza no verbo de Sagan, quanto há de rigor na escrita de Eugénio.

matando saudades dum bom debate

Ontem assisti a um debate à volta do livro “Corpo e Transcendência” de Anselmo Borges (ed.Almedina), moderado pelo próprio autor, com a presença de José Pacheco Pereira, Bento Domingues e Daniel Serrão. O tema não me interessava especialmente, mas os participantes garantiam a qualidade do debate.

Sendo eu também um incréu, como o próprio JPP se auto-designou, com ele partilhei a ausência de interrogações e dúvidas sobre o Transcendente, a Morte e, naturalmente, Deus. Dos outros participantes observei com apreço o modo como enfrentam racionalmente (dando o exemplo de Tomás de Aquino) os desafios à sua fé religiosa colocados pelo conhecimento científico.

O que me leva a reflectir nas pessoas que assistiam ao debate (entre 100 a 200): ninguém se levantou a acusar apostasias, heresias e blasfémias, a   invocar argumentos de autoridade e dogma. Bom-humor, cordialidade, simpatia, seriedade…porque haveria de esperar outra coisa? (mais…)

o saber inútil e o riso fácil

Um qualquer canal de TV, pela enésima vez, resolveu preencher o tempo de emissão com um tipo de “informação” barato e de rápida popularidade: fazer dos outros burros.

O alvo foram estudantes universitários, as perguntas eram de cultura geral e as respostas seleccionadas bastante ridículas. Para quem veja filmes e séries de televisão sobre manipulação de informação e entretenimento, o que se viu não tem relevância alguma. Mas a popularidade que ganham estes programas é digna de reflexão. (mais…)

leis polémicas

Os antigos gregos devem ter algum mito que se aplique ao assunto, os contos de fadas de antanho têm com toda a certeza: isto de haver alguém, ou alguma coisa, que viola impunemente a lei do universo não pode durar sempre, e a penalidade há-de chegar, fatal e desproporcionada.

L’univers démasqué, 1932 de Magritte

Se bem que não tenha de ser assim, talvez. A dita lei só foi promulgada alguns anos depois da criação do universo (mais exactamente, há menos de 100 anos), por obra e génio dum tal de Alberto, e com aplicação retroactiva. Coisa que foi contestada, mais tarde, por um alentejano (e talvez por isso, para muitos fosse anedota).

Provavelmente não se passou nada: um mero erro técnico, e nada, nem ninguém, pôs a lei em causa. Até, como diz alguém, o sistema GPS assenta no cumprimento rigoroso ( e sem excepções) da lei, o que pode parecer trivial porque nos acompanha no dia-a-dia, mas as leis do universo são assim mesmo.

Há quem aguarde com muita esperança a confirmação de que a dita lei foi violada e não porque tenha nada contra ela, paradoxalmente. Simplesmente porque seria uma autêntica revolução dos costumes, talvez o mítico “começar de novo”, e tantos novos mundos a desbravar.

Para mim, leigo nas leis do universo e das outras em geral, mas com uma sólida cultura televisiva desde o anos 60 do século passado (viagens no tempo, tele-transporte, etc), ultrapassar a velocidade da luz não tem nada de extraordinário. Extraordinário, sim, é que por não-cumprimento da lei, esta venha a ser revogada e se faça outra em benefício do infractor. Deve ser por isso que, para muitos, o conhecimento científico não é fiável.

Que sirva, ao menos, para incentivar as escolas e os educadores a ensinar aos miúdos a entenderem as leis (do universo). Mas isso, se calhar, já sou eu a fazer ficção cientifica.

Nuvem de etiquetas

%d bloggers like this: