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Posts tagged ‘blasfémia’

o mês de maria é já amanhã

A falta de memória colectiva tem estes efeitos extraordinários que é ouvir-se tanta tranquila ignorância a propósito dum santo e condestável ou dum político e ditador, reduzindo-os à caricatura dum acidente de cozinha ou dum notável nascido numa terrinha de provincia. Sem (in)formação todas as polémicas se tornam cansativas e estéreis, rapidamente esquecidas.

Uma civilização que não tenha consciência do seu passado, das suas raízes linguísticas, do seu património cultural, em suma da própria natureza matricial, não pode obviamente ter futuro, pois está condenada a andar numa constante deriva identitária. Já Homero nos dizia isso, ao fazer Telémaco sair de Ítaca, em busca do pai. Não bastaria ao jovem ser Telémaco, para se afirmar como pessoa: precisava de ser Telémaco – o filho de Ulisses. (Delfim Leão in De Rerum Natura)

Podia-se esperar um esforço do ensino público, e certamente as “Crónicas” de Fernão Lopes ou o estudo da História do sec.XX fazem parte do currículo escolar. Mas não vale a pena ter ilusões: se o passado é uma coisa distante, o futuro fica demasiado curto. Em jeito de metáfora fast e muito light é como se aquele tradicional afecto pela comidinha da infância, cozinhada por uma avó amorosa ou pela mãe, se ficasse pelos douradinhos ultra-congelados ou nos domingos em família a comer hamburguers fora de casa.

Classics no longer unlocks a world of privilege, but it does give us the keys to an intellectual playground of breathtaking beauty, wonder, and rigour; it gives us the tools to help us understand who we are.(Charlotte Higgins in The Guardian)

Na verdade, a tendência colectiva para a ignorância sobre tudo que não tenha relevância para o dia-a-dia de cão do fadinho lamuriento, seja na versão saloia, seja na versão hip hop, é tão antiga quanto a Humanidade. Assim como o potencial de violência que encerra. Por isso, para apaziguar conflitos se diz que “gostos não se discutem”. Como tal, nem se partilham, nem se expõem. E se a maioria “achar” que o errado é o que diverge do gosto maioritário, feito norma, então os gostos a-normais podem ser perigosos.

Por que é que eu – que vou falar da estrutura narrativa dos desenhos, compará-los com outros desenhos feitos por cartoonistas portugueses e mostrar que existe uma comunidade de temas, de percepção, de construção estética e satírica desse objecto – me tenho que colocar a mim próprio o problema de não os poder mostrar? Ou de não os dever mostrar? Ou do facto de os mostrar poder ser entendido como provocação? E ao mesmo tempo eu pergunto a mim próprio: “Se eu começo a pensar assim, efectivamente a minha liberdade já não é nenhuma”. (Pacheco Pereira in Abrupto)

Quando o diálogo e as interrogações, na sua vertente crítica ou meramente prospectiva, sofrem autocensura no que seria suposto ser o templo da ciência, será que o Direito defenderá melhor a liberdade de pensamento, da expressão e toda esses activos civilizacionais de que somos herdeiros precários?

Minister for Justice Dermot Ahern proposes to insert a new section into the Defamation Bill, stating: “A person who publishes or utters blasphemous matter shall be guilty of an offence and shall be liable upon conviction on indictment to a fine not exceeding €100,000.”

“Blasphemous matter” is defined as matter “that is grossly abusive or insulting in relation to matters held sacred by any religion, thereby causing outrage among a substantial number of the adherents of that religion; and he or she intends, by the publication of the matter concerned, to cause such outrage.” (in Irish Times)

Tudo isto podia até merecer um aceso debate, mas haverá quem tenha pachorra?

42-18770984 

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“E se deus (deuses) realmente existisse?

Tinhamos de nos ver livre dele! ” (Bakunine)

No tempo em que todos temiam a deus, não havia a pouca vergonha que se assiste hoje.

maio 1968-2008

Em Maio próximo temos uma efeméride mais: os 40 anos do Maio de 68. Muitas e distintas coisas se têm dito a seu respeito, mas a que me interessa particularmente, aquela que me parece ser o seu efeito duradouro, é a da atitude simultâneamente intelectual e emocional, assumidamente bem humorada e corrosiva, num desrespeito instintivo pelo argumento de autoridade e numa desconfiança sistemática às instituições (partidos revolucionários e sindicatos operários incluídos). (mais…)

e ainda bem que não sou do belenenses!

Se isto é assim (via A Origem das Espécies), o que será com a seleção das quinas, então?!

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