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Douramente

amendoeira

Ao amanhecerem flores exuberantes e olorosas em dias de azul em pleno Inverno, seremos tão ingénuos para acreditar na promessa de Primavera? Os mais pragmáticos cantarão loas ao milagre da natureza, fruto do esforço humano.

Estas são terras semeadas de equívocos: ao viajante que palmilhe as encostas pedregosas não escapará o jeito de sedução com que as montanhas travam a marcha do rio até ao mar.

O Douro é rio de variados Douros, tão diferentes entre si como a noite para o dia. Todavia, não é o rio, mas são as margens que se contorcem: por onde passe, elas estreitam-no na ilusão de o conter.

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jornalismo comprometido

Pela mesma lógica do Expresso, a não-construção da barragem do Côa e a criação do Parque Arqueológico do Côa não melhoraram as acessibilidades, não tornaram o Douro "tão conhecido e visitado como agora é"...

De facto, como Carlos Romão denuncia (ver link mais abaixo) , há um “exercício contorcionista que não passa de um um frete à estratégia da EDP, de apropriação da água dos rios do norte para no futuro a comercializar através de transvases no sul do país” neste trabalho assinado por Vítor Andrade e Liliana Coelho:

“Com a construção das várias barragens que o Douro hoje tem o nível das águas subiu, fizeram-se estradas e melhoram-se as acessibilidades, tanto para os locais como para os turistas – ficou mais fácil circular junto ao vale do Douro vinhateiro, hoje património da humanidade.

Será que se não tivesse havido esta evolução e os investimentos que se fizaram nas barragens, o Douro hoje teria a importância que tem? Seria tão conhecido e tão visitado como agora é? Questões que ficam e que dividem opiniões.

Uma coisa é certa e garantida já por decreto governamental, com a chancela do Ambiente. As barragens de Foz Tua e do Sabor vão ser uma realidade. A paisagem vai mudar. Mas o país fica com mais energia verde e com novas acessibilidades junto a esses empreendimentos. Quem é que fica a ganhar? Todos ou só alguns?”  (in Expresso)

Na verdade, este é bem um exemplo duma coisa que é uma coisa que é outra coisa. Carlos Romão desmonta a propaganda:

A energia dita “verde”, a produzir pela hipotética barragem do Tua, corresponde a menos de 1% das necessidades nacionais, o que, posto no prato da balança, com a destruição da paisagem e da linha ferroviária do Tua, que a barragem implicará, vale ZERO.

 Se as barragens trouxessem riqueza e desenvolvimento para as regiões, como afirma o Expresso, Trás-os-Montes não seria a região mais pobre e menos desenvolvida do país. A riqueza produzida pelas barragens transmontanas – comandadas à distância – paga impostos ao estado central no sul e é lá que cria postos de trabalho. Até a derrama, imposto municipal, é paga à… Câmara Municipal de Bragança? Não! A derrama é paga – pasme-se – à Câmara Municipal de Lisboa.

E o Expresso, descarado, ainda pergunta, “quem é que fica a ganhar, todos ou só alguns?”. (Carlos Romão in A Baixa do Porto)

A finalizar, remete para o post no Aventar “A honestidade intelectual do Expresso”:

(…) e ao contrário do que o texto advoga, os “investimentos em barragens” não foram o sinónimo de se terem feito estradas “e melhoram-se as acessibilidades” porque muitas das estradas ribeirinhas (naturalmente sinuosas – são centenárias embora não tão antigas como o caminho-de-ferro). Portanto, se “ficou mais fácil circular junto ao vale do Douro vinhateiro, hoje património da humanidade” tal se deveu muito, e na maior escala, à chegada do comboio e não às barragens. (Dario Silva in Aventar)

Acrescento eu, ignorante em economia e desenvolvimento, que me parece muito traiçoeiro comparar a necessidade de construção das barragens no Douro nas décadas de 50 a 80 do sec.XX com a necessidade de construir  barragens no Sabor e no Tua em 2011. Mas se me parece é só porque, na minha falta de entendimento, o desenvolvimento e a economia portuguesa da altura e a de hoje não são comparáveis…quer se dizer, comparáveis são, os problemas e as soluções é que não serão os mesmos.

ah, se o meu país tivesse um bocadinho que fosse disto!…

 

Gravuras do Côa

Imagine-se um país com uma região famosa como o Alto-Douro. Ou com um património arqueológico único como o Vale do Côa. Ou, vá lá, com um parque natural tão notável como o das Arribas do Douro.

Imagine-se, agora, que esse hipotético país tivesse essas 3 “coisas” (região famosa, património arqueológico e parque natural notável) ligadas por estrada (de ponta-a-ponta) numa extensão de 200 quilómetros. Que pudessem ser feitos de barco, também. E/ou de combóio.   Agora, tente-se imaginar que a 100 km dessa terra de fantasia do hipotético país, existisse uma cidade com o património e um aeroporto como, sei lá, o Porto tem. Com ligação àquelas 3 “coisas” por estrada, rio, caminho de ferro. Helicóptero para os mais abonados. Ou E avioneta.

Dando largas à imaginação, imagine-se ainda do lado oposto, à distância duns 70 km, uma outra cidade com o património e aeroporto como tem…vejamos…como…como tem Salamanca, por exemplo! Também ligada às tais 3 coisas por combóio e estrada.

Arribas do Douro

   Se um país assim existisse, ah…se um país assim existisse!…deveria ser um país bom para viver, trabalhar e gozar férias.

 

Alto-Douro

 

 

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