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Archive for the ‘velho mundo’ Category

A reserva do direito de admissão

Longe de mim emitir qualquer juízo sobre uma frase assim:  o “sacerdócio [é] reservado aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega na Eucaristia. De facto, é coisa que não se põe em discussão. 
Não, de modo algum.
O que me causa espécie é o sentido da expressão em que o ‘esposo se entrega‘, já que daí resulta o sacerdócio ser reservado aos homens.
Oh, não, ela está usando o mesmo vestido que eu

                       MULHERES-BISPO                     “Oh não, ela está usando o mesmo chapéu que eu”

MULHERE

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The sound of music

Tenho uma ilimitada admiração pelas pessoas que protestam pelo que acham certo e contra o que acham errado (excepto quando o fazem para pôr em causa a liberdade e os direitos fundamentais de outras pessoas, naturalmente). E mais admiro quando o fazem de modo não-violento, festivo e bem-humorado, principalmente ao exporem publica e notoriamente o ridículo das vacas sagradas. Como as instituições do Poder e suas decisões, que geralmente não admitem contraditório e alternativa.

Sou dum tempo em que se faziam muitas manif’s por tudo e por nada, onde a violência por vezes irrompia. Umas vezes porque a “cultura” da época favorecia o discurso intolerante. Outras vezes porque surgiam os chamados elementos provocadores. Que, em versões mais sofisticadas (e que permanecem nos dias de hoje), fazem-se passar pelos próprios manifestantes para justificar a posterior repressão policial. Assim como a condenação pública dos media pouco perspicazes.

Essa admiração é tanto maior quando quem protesta o faz num ambiente politico, social e jurídico que pouco ou nada tem a ver com aquele que é suposto existir num Estado de Direito. Como recentemente aqui lembrei.

Nos últimos tempos tenho acompanhado a evolução dos acontecimentos em Istambul, na praça Taksim. Tudo terá começado por causa duma dessas decisões superiores (dum governo, duma câmara municipal) que não se preocupa em auscultar os cidadãos, e pretende arrasar um espaço urbano para erguer algo novo. Nada de transcendente, isso está sempre a acontecer em todo o lado. Mas como há habitantes da cidade com memórias, afectos e espírito de cidadania, logo complicam o simples contestando as decisões “de cima”.

Steve Bell 14.6.2013

Perante  o natural desprezo das autoridades, passam à acção directa ocupando o espaço ameaçado com a sua presença de modo a criar um acontecimento mediático, a inevitável discussão pública (que até então se evitara cuidadosamente) e ganhando a solidariedade e participação de outros cidadãos que compreendem o que está em jogo: a Política. Mais do que edifícios, árvores ou nostalgias íntimas, o comum das pessoas, em Istambul, na Turquia, ou em Ermesinde, em Portugal, percebem que o processo de decisão não respeitou procedimentos mínimos de convivência democrática. E vai daí…

Que as autoridades, locais ou nacionais, não apreciem o gesto, procurem desmoraliza-lo lançando suspeitas infames sobre os reais motivos dos manifestantes, ameaçando com o “fim da paciência”, tentando dividir as pessoas na praça alertando para a presença de “vândalos” e outras animalárias, faz parte do roteiro habitual destas coisas em todo o mundo. Que a polícia cometa os habituais desacatos e violências sobre cidadãos pacíficos, e tempos depois “sofra” ela própria a violência de manifestantes (?) é o que se chama uma “profecia auto-realizada”: tanto se fala em manifestantes violentos, tanto tardam estes em aparecer, que uma “ajudinha” se torna necessária para justificar a violência das autoridades. A passada, como a futura.

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Porém, se tudo isto é banal e previsível, pequenos grandes acontecimentos ainda me surpreendem: vindo não sei de onde (o homem é um vagabundo, na verdade), um pianista em plena praça Taksim, Davide Martello, toca no seu piano de cauda temas de Bach ou de Lennon.

Se é óbvia a sua simpatia pela “causa” dos manifestantes, Davide dedica cada tema que toca à policia e às pessoas em protesto por serem todas uma só família. Ingenuidade, certamente, como a que a canção Imagine expressa.

reflexão dominical

Num pacato Domingo de fim de Maio, tomando o pequeno-almoço na minha varanda virada ao mar (apesar de distante vários quilómetros e impossível de avistar desde o meu prédio, sua presença é sensível graças ao vento e ao céu), navegando livremente no grande oceano da net, descubro um elo comum numa série de notícias que me fazem pensar na frágil segurança do bem-estar que nos convencemos ser o nosso dia-a-dia.

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Este ano faz 1 século que Emily Wilding Davison, aos 40 anos, tornou-se tristemente célebre por se ter atirado para debaixo de um cavalo, em plena pista de corridas, algures no Reino Unido, como forma de chamar a atenção para a causa do direito de voto para as mulheres (ou sufrágio universal, daí o termo “suffragettes” para designar as militantes das organizações que reivindicavam a alteração da legislação).

Recentemente, a análise detalhada das filmagens do acidente permitem concluir que o objectivo de Emily não foi o de se sacrificar pela causa, mas um acto de propaganda espectacular que correu mal (muito mal, porque morreu). A mim sempre repugnaram actos suicidas de propaganda e sempre admirei a coragem daquelas mulheres, geralmente da classe média ou superior, que enfrentaram os poderes instituídos e o preconceito social, agindo de forma pacífica. Emily W.Davison foi uma dessas mulheres que se expôs por uma luta social e política de que somos todos devedores, porque beneficiários.

Infelizmente, nos dias de hoje mas noutras partes do mundo, uma outra mulher tem-se destacado com acções espectaculares e pacíficas, lutando por direitos que são em tudo iguais aos reclamados por Emily, cem anos atrás: Amina Tyler, tunisina de 19 anos, militante da rede feminista Femen, tem levado uma solitária campanha pelos direitos da mulher numa sociedade muito conservadora (ou seja, patriarcal) e enfrentando o ódio assassino do extremismo religioso.

Difícil de explicar o valor e simbolismo dos seus actos sem perceber o meio social onde Amina vive; tal como as “suffragettes” no seu tempo, ela opõe-se a uma mentalidade que submete metade da Humanidade a um papel social secundário, com todo o potencial de violência e repressão que isso implica para a outra metade. Também a Amina somos todos devedores de agradecimento e solidariedade, pois tudo o que a sua luta consiga obter através da sua corajosa exemplaridade, só pode ser em nosso benefício.

Barbaridades como a que aconteceu esta semana, algures em Londres, são reflexo directo daquilo que Amina se opõe: o ódio, a intolerância, o terrorismo, a morte. Neste atentado terrorista, a todos os níveis invulgar, merece destaque a acção de algumas pessoas, pessoas absolutamente “comuns”, que não permaneceram indiferentes e agiram no momento, lidando directamente com os assassinos e tentando auxiliar a vítima (que já estava morta, na verdade). Entre essas pessoas, destaque para Ingrid Loyau-Kennett, 48 anos, pela calma e pela capacidade de diálogo frente aos assassinos, numa tentativa de evitar que atacassem outras pessoas, conforme é aqui relatado. Ela, e outras mulheres que permaneceram junto da vítima, demonstraram uma capacidade de acção e coragem que não faz parte do padrão de conduta a que estamos habituados em casos semelhantes.

Entretanto, Maria Alyokhina, 24 anos, cantora da banda russa Pussy Riot, iniciou uma greve de fome para protestar contra a decisão do tribunal em não autorizá-la a estar presente na audiência para concessão de liberdade condicional. Juntamente com Nadezhda Tolokonnikova, 22 anos (que já viu negado o pedido de liberdade condicional), encontra-se detida há um ano pelo crime de “blasfémia” e “ódio religioso”, embora o alvo das suas canções e acções pacíficas, mas espectaculares, seja o poder político russo e o presidente Putin. Também a elas devemos estar gratos pela coragem demonstrada frente a um estado todo-poderoso que não olha a meios para impor os interesses de quem manda.

No início falei dum fio condutor a todas estas histórias: coragem, acção não-violenta, cidadania. E os protagonistas: são todos mulheres. Foi o que me chamou a atenção.

“um homem faz de mãe e uma mulher faz de pai”

Um assunto que fascina antropólogos, etnólogos e historiadores é a diversidade e a evolução do conceito “Família” ao longo dos tempos.

Já suspeitava que também interessa aos juristas, mas não sei se a expressão “família natural” foi criada por eles, na continuidade de algum suposto “Direito Natural”. Mesmo assim, confesso a minha surpresa ao ler que, para a Ordem dos Advogados, a família é “uma família constituída por um pai (homem) e uma mãe (mulher) e não com um homem a fazer de mãe ou com uma mulher a fazer de pai.” (in Público)

Provavelmente, começou assim com Adão e Eva, porém o mundo foi sempre uma dor de cabeça para quem o criou e estabeleceu as regras do jogo: a Humanidade é arredia a tipificações muito precisas, mais ainda a normas impostas pelos deuses e pelos genes.

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Apesar de ser uma pessoa pouco vivida, recordo algumas mulheres de quem se dizia que eram “o homem da casa”, no sentido do “quero, posso e mando”. Frequentemente, era por serem quem trazia o sustento para casa, mesmo “levando porrada” do marido quando este bebia um pouco além da conta.

Assim como já li alguns livrinhos que falam daqueles viúvos que criavam as filhas com um cuidado verdadeiramente maternal. Ou tios amorosos cobrindo os sobrinhos órfãos com mimos. Ficções, certamente.

Além de ficções literárias e de órfãos, a literatura é rica em narrativas sobre as instituições onde a sociedade guarda as crianças sem família (ou que foram retiradas à família), e de que ainda ouço ecos perturbantes na Irlanda do sec.XX, e na vida real. Infelizmente, passa-se em todo o lado.

Sempre achei extraordinário que alguém, ou um casal, se dispusesse a adoptar uma criança “institucionalizada”, por muito bem que esteja a ser tratada. Estabelecer laços familiares com adultos e experimentar um sentimento de pertença faz parte do desenvolvimento natural (arrisco a palavra) de qualquer criança.

Naturalmente, há cuidados a ter na avaliação das propostas de adopção, mas a questão do sexo do(s) proponente(s) ou a(s) sua(s) preferência(s) sexual(is) são irrelevantes.

Até, porque, imagine-se “uma criança, educada por dois homens casados, até aos 10 anos de idade, morrendo nessa data o pai biológico num acidente…Aquela criança, que não distingue a nenhum nível qualquer dos pais, não tem, no entanto, o mais ténue vínculo jurídico com o, para si, pai sobrevivente. Pode mesmo vir a ser arrancada dos seus braços pela família do pai falecido, mesmo que não tenha tido qualquer contacto com ela ao longo da sua vida.” (in Público)

E isso também me faz lembrar que já vi algum filme sobre este tema. Ficções, ficções.

O “natural” é que é bom, lá dizia o anúncio.

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aleluia!

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habemus papam

habemus papa

oito de março

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