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Archive for the ‘mundo social’ Category

em trânsito para o novo ano

Imagem

Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.” (Bernardo Soares in O Livro do Desassossego ed.Assírio Alvim, 2001)

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o fim do mundo…

…ainda não é hoje. Talvez.

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“Pode vir a ser assim…”

Portugal, o país de todas as inflexibilidades, consegue ser incrivelmente rápido e flexível quando se trata de corrigir à bruta os seus desequilíbrios económicos. Foi assim em 1978. Foi assim em 1983. Pode vir a ser assim em 2013.

Eu sei que esta conversa parece desfasada de tudo aquilo que se escuta à nossa volta. Soa a propaganda ao governo, certo? Mas não: porque quem tem sido extraordinário ao longo do último ano não é o Governo. O Estado continua gordo que nem um texugo e a alimentar–se dos nossos impostos. Extraordinárias têm sido as empresas exportadoras, com uma dinâmica incrível. E extraordinário tem sido você, caro leitor, que cerrou os dentes, aguentou o embate e não foi partir montras para a rua. (João Miguel Tavares in CM)

Extraordinário? Certamente, e não tanto por uma particular qualidade da idiossincrasia nacional, tipo “desenrascanço”, nem por espírito aventureiro, empreendedor ou outro chavão característico. Talvez, antes, por uma combinação de fatalismo com adaptabilidade (outros dois chavões). O que não é, propriamente, uma promessa de mudança.

“Estranho. Acabei de ter a mais estranha sensação de que iria sentir como se já tivesse tido esta sensação antes.” Premonição de “déjà vu”

A Civilização do Espectáculo ou o triunfo da frivolidade

No seu último livro publicado (La civilización del espectáculo ed.Alfaguara que eu não li), Vargas Llosa  desenvolve o tema do “triunfo da frivolidade” dando como exemplos desse fenómeno, entre outros, o ascendente da moda e da gastronomia. Numa entrevista explica-se:

No tengo nada contra la moda, me parece magnífico que haya una preocupación por la moda, pero desde luego no creo que la moda pueda reemplazar a la filosofía, a la literatura, a la música culta como un referente cultural. Y eso es lo que está pasando.

Hoy en día hablar de cocina y hablar de la moda, es mucho más importante que hablar de filosofía o hablar de música.” (in el país 15 de abril 2012) (mais…)

o verbo virtual e a imagem literal

Bem pode ser que uma imagem valha por mil palavras, mas não as dispensa: códigos ocultos à parte, a emoção e perplexidade concentrada numa imagem gera pretexto para todo comentário. Frequentemente, faz apelo a estórias e leituras que sugerem um contexto.

Assim sendo, fica estranho o entendimento expresso na cotação da palavra associada ao valor da prata, quando o silêncio atinge o valor do ouro. O que está subentendido é o valor superior da inteligência, ficando por acrescentar que não há inteligência sem partilha. E a partilha é expressão visual, escrita, verbal, corporal…

Curiosamente, há quem cobre pelas palavras o valor literal e há quem delas retire sentidos fora de texto, principalmente quando estas emanam dum autor tido por sagrado (ou divino). A História é pródiga de polémicas, guerras e massacres por causa das palavras e das imagens.

Numa época de textos e imagens “virais” em processo vertiginoso de canibalização, parasitismo, mutação ou fecundação, tanto se fazem leituras literais de qualquer montagem publicitária quanto se atribuem significados às mais singelas e banais expressões espontâneas (como se pode ver diariamente nas polémicas à volta das figuras mediáticas).

No mercado das cotações, um fenómeno de comunicação assim está abaixo do ouro e da prata, até mesmo do níquel e do latão: é escória, mesmo. Mas gera lucros fabulosos. Paradoxo tecnológico?

"É um bocado estranho com esta tecnologia sem fios."

matando saudades dum bom debate

Ontem assisti a um debate à volta do livro “Corpo e Transcendência” de Anselmo Borges (ed.Almedina), moderado pelo próprio autor, com a presença de José Pacheco Pereira, Bento Domingues e Daniel Serrão. O tema não me interessava especialmente, mas os participantes garantiam a qualidade do debate.

Sendo eu também um incréu, como o próprio JPP se auto-designou, com ele partilhei a ausência de interrogações e dúvidas sobre o Transcendente, a Morte e, naturalmente, Deus. Dos outros participantes observei com apreço o modo como enfrentam racionalmente (dando o exemplo de Tomás de Aquino) os desafios à sua fé religiosa colocados pelo conhecimento científico.

O que me leva a reflectir nas pessoas que assistiam ao debate (entre 100 a 200): ninguém se levantou a acusar apostasias, heresias e blasfémias, a   invocar argumentos de autoridade e dogma. Bom-humor, cordialidade, simpatia, seriedade…porque haveria de esperar outra coisa? (mais…)

fado triste

Nestes séculos da história recente da falta de auto-estima portuguesa, volta-e-meia surgem “corridas do ouro” tão típicas na ilusão, como no resultado. Veja-se este artigo do JN onde se fala dum programa de obras de barragens e como as oportunidades de negócio surgem como cogumelos em localidades algo remotas e esquecidas: os arrendamentos tornam-se mais lucrativos graças aos trabalhadores migrantes trazidos pela barragem; restaurantes e cafés idem, pela mesma razão. E os media ajudam à euforia dando a nota vibrante e optimista.

Daqui a um tempo, talvez dois, talvez 3 anos, as obras acabam e os trabalhadores já terão sido desmobilizados (desempregados?) e partido para outras terras. E seca estará a árvore das patacas. À semelhança de centos de casos semelhantes nas últimas décadas, o subdesenvolvimento será o mesmo do tempo anterior à barragem.

E a riqueza gerada pela barragem, sempre tão bem publicitada por governos, câmaras, etc? É ver a região do Alqueva, do Douro, e de todas as que sofreram semelhantes “corridas do ouro”. À excepção do turismo e da agricultura, que mais? Só que ambas actividades não dependem da barragem, e já lá “estavam” antes.

A barragem, pelo contrário, é que pode prejudicar a região. A curto e longo prazo.

Mas é da nossa falta de auto-estima insistir sempre nos mesmos erros. É o nosso fado. Como o texto abaixo relata, há tesouros e oportunidades douradas que são   prejudicadas por todos: população, autarquias, governo central…

Triste é perceber que o Porto vira destino turístico com o apoio de uma empresa estrangeira e a quem o Estado dificulta a vida.

Que a cidade reanima o seu centro com novas lojas e habitação com a iniciativa privada (possível) e que as entidades de licenciamento continuam a dificultar e a impor regras que não se aplicam. Que a excelente movida nocturna, que também já veio publicitada na comunicação estrangeira, não tem regras de convivência com a cidade e não há quem as saiba fazer. Que recebemos turistas e vivemos uma cidade que não liga ao seu Património, às suas margens e trata cada lado do rio como se dois feudos se tratassem. Que os buracos imperam em todas as ruas da cidade e só se asfalta o trecho do autódromo do Parque da Cidade.

Não continuo porque afinal a época é Natalícia e será melhor fazer de conta que há que “adoçar”. (Alexandre Burmester in A Baixa do Porto)

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