novidades e outras coisas

Archive for the ‘mundo em movimento’ Category

reflexão dominical

Num pacato Domingo de fim de Maio, tomando o pequeno-almoço na minha varanda virada ao mar (apesar de distante vários quilómetros e impossível de avistar desde o meu prédio, sua presença é sensível graças ao vento e ao céu), navegando livremente no grande oceano da net, descubro um elo comum numa série de notícias que me fazem pensar na frágil segurança do bem-estar que nos convencemos ser o nosso dia-a-dia.

1362681873_482131_1362682167_album_normal

Este ano faz 1 século que Emily Wilding Davison, aos 40 anos, tornou-se tristemente célebre por se ter atirado para debaixo de um cavalo, em plena pista de corridas, algures no Reino Unido, como forma de chamar a atenção para a causa do direito de voto para as mulheres (ou sufrágio universal, daí o termo “suffragettes” para designar as militantes das organizações que reivindicavam a alteração da legislação).

Recentemente, a análise detalhada das filmagens do acidente permitem concluir que o objectivo de Emily não foi o de se sacrificar pela causa, mas um acto de propaganda espectacular que correu mal (muito mal, porque morreu). A mim sempre repugnaram actos suicidas de propaganda e sempre admirei a coragem daquelas mulheres, geralmente da classe média ou superior, que enfrentaram os poderes instituídos e o preconceito social, agindo de forma pacífica. Emily W.Davison foi uma dessas mulheres que se expôs por uma luta social e política de que somos todos devedores, porque beneficiários.

Infelizmente, nos dias de hoje mas noutras partes do mundo, uma outra mulher tem-se destacado com acções espectaculares e pacíficas, lutando por direitos que são em tudo iguais aos reclamados por Emily, cem anos atrás: Amina Tyler, tunisina de 19 anos, militante da rede feminista Femen, tem levado uma solitária campanha pelos direitos da mulher numa sociedade muito conservadora (ou seja, patriarcal) e enfrentando o ódio assassino do extremismo religioso.

Difícil de explicar o valor e simbolismo dos seus actos sem perceber o meio social onde Amina vive; tal como as “suffragettes” no seu tempo, ela opõe-se a uma mentalidade que submete metade da Humanidade a um papel social secundário, com todo o potencial de violência e repressão que isso implica para a outra metade. Também a Amina somos todos devedores de agradecimento e solidariedade, pois tudo o que a sua luta consiga obter através da sua corajosa exemplaridade, só pode ser em nosso benefício.

Barbaridades como a que aconteceu esta semana, algures em Londres, são reflexo directo daquilo que Amina se opõe: o ódio, a intolerância, o terrorismo, a morte. Neste atentado terrorista, a todos os níveis invulgar, merece destaque a acção de algumas pessoas, pessoas absolutamente “comuns”, que não permaneceram indiferentes e agiram no momento, lidando directamente com os assassinos e tentando auxiliar a vítima (que já estava morta, na verdade). Entre essas pessoas, destaque para Ingrid Loyau-Kennett, 48 anos, pela calma e pela capacidade de diálogo frente aos assassinos, numa tentativa de evitar que atacassem outras pessoas, conforme é aqui relatado. Ela, e outras mulheres que permaneceram junto da vítima, demonstraram uma capacidade de acção e coragem que não faz parte do padrão de conduta a que estamos habituados em casos semelhantes.

Entretanto, Maria Alyokhina, 24 anos, cantora da banda russa Pussy Riot, iniciou uma greve de fome para protestar contra a decisão do tribunal em não autorizá-la a estar presente na audiência para concessão de liberdade condicional. Juntamente com Nadezhda Tolokonnikova, 22 anos (que já viu negado o pedido de liberdade condicional), encontra-se detida há um ano pelo crime de “blasfémia” e “ódio religioso”, embora o alvo das suas canções e acções pacíficas, mas espectaculares, seja o poder político russo e o presidente Putin. Também a elas devemos estar gratos pela coragem demonstrada frente a um estado todo-poderoso que não olha a meios para impor os interesses de quem manda.

No início falei dum fio condutor a todas estas histórias: coragem, acção não-violenta, cidadania. E os protagonistas: são todos mulheres. Foi o que me chamou a atenção.

a importância de andar com os pés bem assentes sobre rodas

Em tempos muito remotos, no início dos anos 80 do sec. XX, recordo como a bicicleta era coisa de desportista de estrada (mesmo na versão dos sexagenários tesos, que todos os fins-de-semana pedalavam perto duma centena de quilómetros pelo prazer de dar ao pedal) ou veículo da classe operária nas famosas pasteleiras, fabricadas algures no distrito de Aveiro.

Andar de bicicleta no Porto? Impossível, diria qualquer pessoa bem informada/bem formada.

Mesmo assim, alguns malucos iam para a Faculdade na bicla, havia um Departamento de Cicloturismo num grupo ecológico, faziam-se uns passeios para divulgar “a causa”, tudo actividades efémeras, marcadas ainda por um espírito “soixante-huitard”, nas vésperas dos gloriosos anos do Cavaquismo e do novo sonho português (betão-alcatrão-carrão).

Assim, para um velhinho desses tempos, não lhe é indiferente quando lê uma coisa como esta:

“Há décadas atrás, ainda a Internet não tinha chegado a Aldoar, o Velho Lau começou este blogue. Quer dizer, não foi assim há tanto tempo, mas parece.

A ideia, era ter um sítio que respondesse por si à pergunta que as pessoas me faziam permanentemente:

Porque carga de água andas de bicicleta na cidade?” (in Um pé no Porto e outro no Pedal)

Na verdade, a revolução dos hábitos urbanos não começa exclusivamente pelas nossas cabeças.

6a00d8341bfb1653ef017c376cdf54970b-550wi

pussy riot

A farsa do julgamento dos três membros da banda feminina Pussy Riot não é propriamente uma surpresa, já que a tradição russa da repressão, a coberto duma pretensa moral, nunca foi interrompida senão por curtos intervalos.

A pretexto da acusação de hooliganismo e ódio religioso, nega-se o direito das acusadas afirmarem o que as levou a uma igreja e tocarem uma canção obviamente ofensiva contra o presidente russo e o mais alto representante da igreja ortodoxa russa.

http://www.youtube.com/watch?v=grEBLskpDWQ (mais…)

the dark side of the earth

Se o Lobo Mau é uma realidade, à Lua o deve. Por oposição, o canto do galo e o nascer do Sol dissipam as trevas e afastam demónios e quejandos.

O que diz muito ou muito pouco sobre a atração da Lua nos pares apaixonados e em todos os vagamundos.

Se a Lua põe os lobos a uivar na serra, o que não fará ao coração selvagem que se descobre preso a uma vida acomodada? "E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível para mim." (Álvaro de Campos in A Noite Terrível) retirado de Imago Mundi (clicar na foto para ver mais)

Mitos, contos e a psicanálise quase não falam de outra coisa, alguma poesia também. Porque, claro, há uma tendência muito grande para esquecer que  all that is now/ all that is gone/ all that’s to come/ and everything under the sun is in tune/ but the sun is eclipsed by the moon. (Pink Floyd in Eclipse)

Pink Floyd – Eclipse (clicar no texto ao lado para ver/ouvir video)

Porém, na Lua a cantiga será outra.

Mas, o que gostaria mesmo de ouvir contar serão as lendas, mitos e versos que os selenitas contam às crianças e às bem-amadas sobre o planeta azul que gira à volta da Lua.

“Quem se mete com a blogosfera leva!”*

O aproveitamento desta extraordinária cena, deste extraordinário filme, não é a primeira para obter um efeito qualquer na blogosfera, mas é sempre oportuna e de grande impacto:

* a citação adaptada do título foi proferida por um político e ex-governante português agora administrador duma (imensa) empresa privada na área que antes tutelava, a propósito do seu próprio partido.

emmy curl from trás-os-montes: alive and kicking in oporto

Hoje, por mero acaso, fiquei a saber da existência desta cantora, saltei para a sua página no my space onde me tenho deliciado a ouvi-la.

Ámanhã, às 18h30m, Emmy irá estar na CDGO, na Rua de Cedofeita, 509-511 (entrada livre). Conto lá estar também (mas escusam de aparecer por minha causa).

o poder dum homem só

Que se pode pensar de alguém que põe em causa a legitimidade do regime do seu próprio país? Um “criminoso que violou a lei do seu país, julgado por um tribunal desse seu país“? E que participa em “coisas” como a abaixo -assinadas?

“Unfortunately most of this political progress has extended no further than the paper on which it is written. The political reality, which is plain for anyone to see, is that China has many laws but no rule of law; it has a constitution but no constitutional government. The ruling elite continues to cling to its authoritarian power and fights off any move toward political change.” (in Charter 08)

Então, e que pensar dos motivos que animam quem premeia essa atitude criminosa? Uma obscenidade, talvez. Mas isso seria uma grande ingenuidade. Há pior, muito pior: A decisão da atribuição do Prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo – inseparável das pressões económicas e políticas dos EUA à República Popular da China – é, na linha da atribuição do Prémio Nobel da Paz de 2009 ao Presidente dos EUA, Barack Obama, mais um golpe na credibilidade de um galardão que deveria contribuir para a afirmação dos valores da paz, da solidariedade e da amizade entre os povos. (lido aqui, que é o mesmo que dizer de quem percebe destas coisas).

Que, curiosamente, está na mesma linha de pensamento de quem diz que  “the Nobel Peace Prize broadens the suspicion that there is a Western plot to contain a rising China“.

Se, ao menos, tivesse este nosso país um sistema político tão combativo que nos defendesse de quem quer subverter o actual regime!

Nuvem de etiquetas

%d bloggers like this: