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Archive for the ‘mundo confuso’ Category

A reserva do direito de admissão

Longe de mim emitir qualquer juízo sobre uma frase assim:  o “sacerdócio [é] reservado aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega na Eucaristia. De facto, é coisa que não se põe em discussão. 
Não, de modo algum.
O que me causa espécie é o sentido da expressão em que o ‘esposo se entrega‘, já que daí resulta o sacerdócio ser reservado aos homens.
Oh, não, ela está usando o mesmo vestido que eu

                       MULHERES-BISPO                     “Oh não, ela está usando o mesmo chapéu que eu”

MULHERE

Verão cultural

Um dos privilégios da minha vida é o de poder gozar, com alguma frequência, fins-de-semana numa zona rural algures no sudoeste europeu, finais de tarde à beira-mar numa praia do nordeste-atlântico ou um dia inteiro a passear por um dos grandes rios ibéricos. Privilégios de quem reside no litoral sul da região galaico-portuguesa.

Apesar desta diversidade geográfica, em todos estes lugares posso usufruir do mesmo gosto cultural pela música gravada, geralmente com uma qualidade algo peculiar, que me chega de localidades “em festa”, dos bares da praia por onde passeio, do próprio barco que faz o percurso do rio.

A qualidade do som pode variar (muito mau nas aldeias, mau nos barcos e sofrível nas esplanadas de praia), o reportório vai do pimba (os barcos) ao pseudo-folclórico (as festas de aldeia) e a estilos mais ecléticos desde o pop dos anos 80 a temas jazzísticos (os bares), mas a ubiquidade do ruído (musical) é, de facto, a prova da tenacidade cultural das multidões estivais que celebram o convívio, a festa, o escape.

Cultura versus (evidentemente) Natura. Quem está para escutar o piar irritante dos passarinhos, o silêncio enervante das margens do rio (se calhar o rio até tem os seus ruídos próprios, mas é impossível afirmá-lo sob a torrente de canções porno-pimba que os barcos debitam) ou o barulho monótono do mar?

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Da inteligência das galinhas

Sem ironia e sem qualquer juízo depreciativo, um dos aspectos mais extraordinários e fascinantes da espécie humana é a estupidez. Digo isto e acrescento, desde já, que me incluo na dita espécie, partilhando a tal extraordinária e fascinante qualidade.

Tal como dizia um francês metódico e cartesiano, também me parece que o bom senso é a coisa mais bem distribuída no mundo, ainda que sujeito a variações bruscas e catastróficas.

Ainda esta semana li uma entrevista com Jane Goodall em que ela confessava o seu desapontamento ao reconhecer nos chimpanzés os mesmos comportamentos agressivos e cruéis  que conhece no macaco humano.

É um ovo quadrado dentro dum buraco quadrado, seu idiota.

É um ovo quadrado dentro dum buraco quadrado, seu idiota.

Curiosamente, num artigo publicado recentemente, uma investigadora da Universidade de Bristol, Christine Nicol, afirma que os pintainhos nascem com uma precoce competência numérica, incluindo noções de física e, particularmente, engenharia estrutural (seja lá o que isso for). O que me faz reflectir profundamente sobre o sentido deste mamífero destituído de qualquer competência matemática (que sou eu) ter acabado de almoçar um frango estufado com batata.

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…e queremos agradecer à evolução por mudar lentamente algumas espécies de dinossauro numa bola de carne com pernas e com uma pequena cabeça.

Ora, o que me motiva este post tem a ver com a milionésima vez que leio no Facebook um aviso urgente, com apelo cívico à sua divulgação maciça pela rede, a anunciar mais uma malfeitoria da entidade que se esconde por detrás da sigla Facebook.

A que li hoje não varia muito do habitual: se o usuário não afixar o texto que está a ler na sua Cronologia, o Facebook irá cobrar-lhe não sei quanto por dia/mês (um balúrdio de dólares, mesmo quando convertidos em euros), apropriando-se dos direitos de autor de tudo quanto o usuário publicou, além de apropriar-se de todos os dados pessoais do usuário.

O mais assustador nem é isso. Dum modo muito geral, tudo o que se publica na net (facebook incluido) passa a património mundial automaticamente (veja-se o que se passa com os downloads ilegais de filmes, músicas e livros) e a entrega dos dados pessoais de todos nós, intrépidos navegantes e surfistas, são a contrapartida para usufruirmos de todos aqueles serviços gratuitos com que já não saberíamos viver se os perdêssemos e, pior ainda, para os quais não teríamos dinheiro para pagar se a isso formos obrigados.

A esse respeito, incomoda-me mais que os governos da China, do Irão, dos Estados Unidos ou da Rússia, ou de qualquer outro país aliás, tenham acesso a esses dados directamente ou via google, facebook, microsoft, etc.

O que me assusta mesmo é ler nos tais avisos publicados em páginas do Facebook por usuários de espírito cívico, rebelde e bem informado, é que, a partir das tantas horas de tal dia (geralmente o próprio dia ou o seguinte), “os fiscais do Facebook” começarão a visitar todas as páginas para listar as que não tiverem publicado o tal texto em que o usuário não autoriza tal e tal coisa por parte do Facebook.

É a partir daqui que a inteligência superior das galinhas me dá um nó no estômago.

-Qual é o teu Q.I.? -Esses testes são muito imperfeitos -Uau, é assim tão baixo, eh?

-Qual é o teu Q.I.?
-Esses testes são muito imperfeitos
-Uau, é assim tão baixo, eh?

Abaixo leia-se a reprodução dum desses avisos:

NÃO AUTORIZO COBRANÇAS POR PARTE DO FACEBOOK, DIRETA OU INDIRETAMENTE.
FALTAM 12 HORAS PRAZO FINAL, ACABOU DE SAIR NA MÍDIA, EXTRA OFICIAL, passou no Splash (domingo passado) e no Programa da Querida Julia na quinta-feira, no Jornal Nacional e na terça-feira, na RFM na segunda-feira, no Jornal da Noite, no sábado passado no Gosto Disto e no Corean On Line, Daqui a 30 horas os fiscais do Face darão início a busca seletiva avançada a procura desse aviso no seu mural, tal qual está escrito aqui, e então o facebook e todos os serviços continuarão a ser gratuitos e sem o envio de dados ao governo americano. Do contrário, os dados continuarão a ser pesquisados pelo governo americano, as fotos serão visíveis por todos e seu nome irá para lista de inadimplentes com inclusão no SCP – CPT – SERAZA – OLGIZ – BANK CITY – BOBONIS E TROLINS (conforme lei 3102/07-06, recentemente aprovada pela Constituição da Republica). Caso não tenha esse aviso copiado, colado e registrado em arquivo word no seu computador com um print screen de tela, os agentes do face ligarão a cobrar, uma ligação internacional de 30 minutos, cobrando a taxa de 5,99 E (convertidos a moeda corrente do país pouco mais de 10,00 E por dia mais juros) por semana debitado diretamente na conta telefônica no seu ponto de acesso wi-fi internet segura – Não esqueça de colar isso no seu mural e você estará livre da cobrança e livre de ser taxado de bobo mais uma vez, dentre outros inconvenientes. Caso contrário, em trinta dias suas publicações tornar-se-ão públicas propriedade na privada, suas mensagens e fotos,
EU NÃO AUTORIZO!!!

A crise (sempre) é uma grande oportunidade

Tenho de reconhecer que na minha problemática adolescência, já as “pessoas muito sérias” (Paul Krugman) enchiam o peito antes de debitar números, análises, diagnósticos e previsões, apontando erros alheios e oferecendo receitas fantásticas de tão evidentes e assertivas.

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Dogbert, o consultor
Dogbert: “Um modo de encarar os seus problemas é que ninguém gosta dos vossos produtos…mas não sei como resolver isso. Assim, recomendo que se forme unidades de negócios internas para andarem a discutir uns com os outros.”
Cliente: “Porque recomenda isso?”
Dogbert:”Bem, estaria a mentir se dissesse que gosto de si.”

Sim, estou a falar de economistas, gestores e e toda essa gente muito objectiva, que lida com a realidade e com os números. O meu oposto, portanto.

Curiosamente, naquele tempo tanto os havia com o perfil neo-liberal (categoria discutível, mas que toda a gente entende o que quero dizer) como os de perfil marxista (-leninista). E uma catrefada de coisas intermédias, até porque aqueles eram mesmo outros tempos: assumia-se a ideologia, a social-democracia tinha pergaminhos e nem a China, nem a Rússia, eram os países capitalistas que conhecemos de há 20 anos a esta parte.

Com uma diferença, contudo: essa gente “muito séria” não se limitava ao estribilho da austeridade. O que as caracteriza, então como agora, é que “nunca se enganam e raramente têm dúvidas” (Aníbal Silva).

E não perdem o ar sério, as qualidades analíticas, o dom profético e compulsão em divulgar receitas auto-evidentes. Tudo em virtude de praticarem uma ciência, creio eu de que.

O que é consolador, pois se a crise económica actual é longa e dura, como seria se aqueles que regem os mercados, os bancos centrais, os governos, os fmi’s, etc,  fossem pessoas falíveis, dotadas de auto-crítica, sujeitas ao contraditório e à penalização (académica, claro) da sua reputação. Sim, como seria? (mais…)

“um homem faz de mãe e uma mulher faz de pai”

Um assunto que fascina antropólogos, etnólogos e historiadores é a diversidade e a evolução do conceito “Família” ao longo dos tempos.

Já suspeitava que também interessa aos juristas, mas não sei se a expressão “família natural” foi criada por eles, na continuidade de algum suposto “Direito Natural”. Mesmo assim, confesso a minha surpresa ao ler que, para a Ordem dos Advogados, a família é “uma família constituída por um pai (homem) e uma mãe (mulher) e não com um homem a fazer de mãe ou com uma mulher a fazer de pai.” (in Público)

Provavelmente, começou assim com Adão e Eva, porém o mundo foi sempre uma dor de cabeça para quem o criou e estabeleceu as regras do jogo: a Humanidade é arredia a tipificações muito precisas, mais ainda a normas impostas pelos deuses e pelos genes.

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Apesar de ser uma pessoa pouco vivida, recordo algumas mulheres de quem se dizia que eram “o homem da casa”, no sentido do “quero, posso e mando”. Frequentemente, era por serem quem trazia o sustento para casa, mesmo “levando porrada” do marido quando este bebia um pouco além da conta.

Assim como já li alguns livrinhos que falam daqueles viúvos que criavam as filhas com um cuidado verdadeiramente maternal. Ou tios amorosos cobrindo os sobrinhos órfãos com mimos. Ficções, certamente.

Além de ficções literárias e de órfãos, a literatura é rica em narrativas sobre as instituições onde a sociedade guarda as crianças sem família (ou que foram retiradas à família), e de que ainda ouço ecos perturbantes na Irlanda do sec.XX, e na vida real. Infelizmente, passa-se em todo o lado.

Sempre achei extraordinário que alguém, ou um casal, se dispusesse a adoptar uma criança “institucionalizada”, por muito bem que esteja a ser tratada. Estabelecer laços familiares com adultos e experimentar um sentimento de pertença faz parte do desenvolvimento natural (arrisco a palavra) de qualquer criança.

Naturalmente, há cuidados a ter na avaliação das propostas de adopção, mas a questão do sexo do(s) proponente(s) ou a(s) sua(s) preferência(s) sexual(is) são irrelevantes.

Até, porque, imagine-se “uma criança, educada por dois homens casados, até aos 10 anos de idade, morrendo nessa data o pai biológico num acidente…Aquela criança, que não distingue a nenhum nível qualquer dos pais, não tem, no entanto, o mais ténue vínculo jurídico com o, para si, pai sobrevivente. Pode mesmo vir a ser arrancada dos seus braços pela família do pai falecido, mesmo que não tenha tido qualquer contacto com ela ao longo da sua vida.” (in Público)

E isso também me faz lembrar que já vi algum filme sobre este tema. Ficções, ficções.

O “natural” é que é bom, lá dizia o anúncio.

o sentido da vida em versão off-line

Curiosa experiência de Paul Miller, cidadão do sec.XXI e residente algures entre o Canadá e o México: um ano inteiro sem estar ligado à net. Tendo eu próprio passado dezenas de anos da minha vida sem sequer imaginá-la, quanto mais experimentá-la, devo ser um case-study exótico. Verdade: foi no passado século, mas deu para sobreviver.

Falando sério: no mundo actual este isolamento voluntário é uma experiência estranha, e algo virtual, entendo eu de que.

Na verdade, Miller é redactor dum blog que lhe paga o ordenado direitinho (coisa que a Administração deste blog Novo Mundo infelizmente não faz aos seus redactores)  e passou a publicar semanalmente suas crónicas do deserto, entregando uma pen com os textos. Creio que se vivesse em Portugal, não conseguiria cumprir suas obrigações fiscais sem estar conectado, mas isso são detalhes.

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A experiência tem um valor notável: Miller descobriu alguns factos importantes da Vida, do Homem, do Tempo e do Mundo (sim, com letra maiúscula). (mais…)

Nota

O livro como espaço de deliberação e pensamento

Excelente entrevista ao escritor americano Junot Díaz, publicada hoje. Sua leitura integral é imprescindível (ver link mais abaixo), mas destaco este trecho:

El País: ¿Y no puede ser que hayamos llegado a un punto de la historia de la cultura en la que la lectura ha dejado de ser relevante?

Junot Diaz : Sinceramente, no lo creo. Todavía tiene que venir alguien capaz de demostrarme que existe un espacio de deliberación y pensamiento mejor que un libro.

El País: Pero usted mismo me acaba de decir que sus estudiantes no leen.

Junot Díaz: Creo que habría que situar esto en un contexto más amplio. La Universidad como institución ha dejado atrás los valores de la educación para sustituirlos por un modelo de negocios. Mis estudiantes creen que están allí para conseguir un puesto de trabajo. (Junot Díaz in elpaís)

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