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A reserva do direito de admissão

Longe de mim emitir qualquer juízo sobre uma frase assim:  o “sacerdócio [é] reservado aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega na Eucaristia. De facto, é coisa que não se põe em discussão. 
Não, de modo algum.
O que me causa espécie é o sentido da expressão em que o ‘esposo se entrega‘, já que daí resulta o sacerdócio ser reservado aos homens.
Oh, não, ela está usando o mesmo vestido que eu

                       MULHERES-BISPO                     “Oh não, ela está usando o mesmo chapéu que eu”

MULHERE

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‘e agora – phosga-se – já parece ser tarde para tudo’

(…) mais uma homenagem a mais um ego desmedido na área da nossa economia para totós, a mais fértil em gente capaz de mudar o mundo e arredores, mas só antes ou depois de estar em posição para o fazer.

 Este é outro que sabia tudo antes, saberá tudo depois, mas agora parece que coiso.’ (in A Educação do meu Umbigo)

De facto, o exemplo escolhido é um entre tantos: antes ‘de estar em posição’ dá-se opinião para tudo, sobre todos e, sobretudo, com absoluta isenção de qualquer dúvida sobre o que há a fazer; depois ‘de estar em posição’ não há um exame autocrítico, nem uma reavaliação ou o vislumbre duma alternativa.

Entretanto, ao longo do penoso exercício ‘de estar em posição’, o vazio.

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Poderá um livro ajudar alguém a fazer algo melhor?

Nas livrarias há aquela secção dita de ‘auto-ajuda’ que engloba a mais variada das temáticas sob o mesmo signo do tédio da frase feita, cheia de amor ou optimismo.

Noutros tempos, creio que sem secção própria, espalhavam-se livros com apelativos títulos ‘faça você mesmo’ (desde uma cadeira de madeira a um foguetão inter-galáctico), ’10 passos para se tornar’ (e seguiam-se diversas opções conforme o título: melhor pessoa, pessoa fascinante, pessoa invejável, ou, prosaicamente, um vendedor de sucesso).

Também havia livros para ajudar o estudante a ser melhor estudante. Esses, curiosamente, só de olhar para as capas já me enjoavam. Bem feito, deve ser por isso que acabei por me tornar no que me tornei.

Felizmente, a idade traz sempre algumas compensações como os remorsos e o rebaixamento da soberba, além da responsabilidade de criar uma filha. Assim, comecei a perceber que a realidade do ensino ser tão chato e estúpido podia também se dever a algo mais do que ao ministro da educação e ao seu mastodôntico ministério, ao atavismo cultural em geral e a outros bodes expiatórios nacionais.

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Ou seja, antes do fim do último milénio consegui perceber que o próprio estudante acaba por trair as suas próprias expectativas ao não se empenhar seriamente naquilo que é específico da sua qualidade existencial: estudar.

Ora, recentemente deparei com uma entrevista à professora que publicou um livro com o extraordinário título ‘Como estudar melhor’ e o sub-título mais promissor de ‘Um guia para o teu sucesso’.

Confesso que a minha reacção instintiva foi a da criatura nascida na década que viu surgir coisas tão distintas como The Doors ou o ‘Maio de 68’. E, pior ainda: nascida em Portugal (o que significa que tive a agravante de, em seguida, passar a década de 70 nos bancos da escola e do liceu). Para os muito novos fica difícil de entender o que pretendo insinuar, mas adiante!

Porém, logo a seguir o peso dos anos e da experiência fez-se sentir e comecei a ler a entrevista com outro olhar: como posso negar que a maioria dos alunos que conheci não tinham/não têm qualquer método para estudar? Na verdade, não sou dos que teimam que a falta de método e a falta de estudos são das taras nacionais mais antigas que prejudicam o bem-estar geral?

Ainda assim, que algum livro se proponha resolver tão óbvio e grande problema é fácil de dizer…e consegue?! Não será um título apetecível para quem quer respostas imediatas, simplistas mas, fatalmente, ineficazes? O início do ano lectivo torna ainda mais urgente a apetência pela panaceia mágica que transforma o cábula num marrão.

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A autora, Fernanda Carrilho, defende o título do livro e o método proposto pela investigação que desenvolve há anos, através de inquéritos, entrevistas, aferindo resultados e testando as técnicas de estudo. Ou seja, não se trata dum livro baseado no sentido comum e na tradicional pedagogia da ‘satisfação do dever cumprido’.

De facto, o livro começa com um questionário de auto-diagnóstico que, a ser levado a sério pelo próprio, ajuda-o a entender onde pode e deve melhorar. Além disso, faz o estudante centrar-se no que pretende fazer, tanto da vida, como dos estudos que o podem ajudar na vida.

Reconheço que esta prosa e esta argumentação agradou-me, conciliando o adolescente rebelde que (ainda) há em mim com este que sou agora: a autora passa a responsabilidade para o indivíduo (o estudante), leva-o a ponderar sobre as opções que tem em aberto, desafia-o a realizar os seus projectos de futuro dum modo consistente, planeado, bem formado. E se não tem projectos, a desenvolver um.

Não é isto, na essência, uma lição de cidadania e apologia da liberdade?

Sem com isso descurar a responsabilidade dos pais e professores na ajuda ao aluno que se esforça para vencer as naturais dificuldades da aprendizagem: se devem estar presentes e exigir tempo de estudo (e resultados), também têm de garantir qualidade de condições para o estudo. Como ter tempo livre para as coisas que o filho/aluno goste de fazer, por exemplo.

Claro, pode alguém sugerir que as questões sociais do momento (e as de sempre, já agora: este é um tema crónico nos últimos 450 anos) são uma condicionante negativa e o cenário proposto pela autora ser idealizado, não havendo condições para tão louvável projecto ser aplicado por muitos milhares de alunos. Além de ser de exigir muito a uma pedagoga equacionar os magnos problemas que afectam o país num livro exclusivamente focado na metodologia dos estudos, seria dum fatalismo idiota pensar que os alunos de famílias muito pobres ou desestruturadas não podem, não ambicionam e não conseguem ser excelentes alunos.

De facto, não só existem inúmeros exemplos de sucesso escolar e profissional que contrariam esse preconceito, como este livro acaba por ser um excelente companheiro de estudos para quem se vê sozinho diante do desafio de organizar-se ao longo dos anos de estudo.

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 Fernanda Carrilho avisa que ‘não há poções mágicas e que os melhores métodos sempre se tornam falíveis se não forem devidamente aplicados’, e por isso reforça, ao longo dos capítulos do livro, o apelo ao leitor prosseguir a leitura, a não desistir, através de mensagens curtas e sabiamente colocadas em passagens cruciais. Diz, na entrevista, que ‘para quem está interessado em melhorar os seus resultados escolares, o primeiro passo é adquirir o livro. Mas o que acontece, grande parte das vezes (à semelhança do início de uma dieta ou de outra actividade que requer esforço da nossa parte e mudança de hábitos que já estão enraizados) é a tendência para desistir, após as primeiras páginas’.

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No final da entrevista, Fernanda Carrilho cita ‘Sete Mandamentos’ do livro Como Estudar Melhor, Um Guia para o teu Sucesso(de Fernanda Carrilho, Editoral Presença 2013). São todos pertinentes, todos fáceis de entender. Só uma objecção, prezada Autora: o 7 resulta menos boa mnemónica que o 10. Já Jeová o sabia (e mesmo assim não lhe valeu de muito, é verdade…)

Por isso, acrescentaria mais três: cultivar a paixão pela dúvida (facilita muito a aprendizagem de qualquer coisa); desenvolver espírito crítico (exige, do próprio e dos outros, explicações e demonstrações); viver a vida (dá sentido ao esforço de estudar).

Agora não há mais álibis, meus irmãos cábulas: mãos-à-obra!

Perigos de quem anda sozinho pela noite…

De vez em quando, alguém teima em me recordar como é perigosa e selvagem a vida em certos recantos deste país, supostamente civilizado.

 

Sempre bem documentado com detalhes macabros e fotográficos, confirma que por aí andam lobos maus e outras criaturas sinistras da noite a comer inocentes bambis, tal qual os vampiros e lobisomens dos best-sellers e blockbusters que a nossa cultura urbana de centro comercial nos oferece para descarga de adrenalina e fantasia onírica.

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E diz que o fazem para cevar a fome duma prole desejosa de sangue e carne, e deste modo garantir a perpetuidade destas espécies que se alimentam de outros seres vivos.

Nesta altura dos fogos de Verão, quando andamos iludidos pelo marketing que nos leva a confundir floresta com monoculturas industriais de pinheiro-bravo e eucalipto, é bom que prestemos atenção à “Natureza bem viva, selvagem, que apesar de raramente podermos observar encontra-se ainda bastante preservada no nosso país. Acreditem. Basta olhar para as imagens…

Ok...Espero que todos gostem deles tostado por fora e rosadinhos no meio.

Ok…Espero que todos gostem deles tostados por fora e rosadinhos no meio.

 

“¿Por qué odio las fiestas populares?”

Aranda del Duero, uma cidade vizinha de Pamplona, nunca alcançou o mesmo grau de sucesso com a sua largada anual de abelhas assassinas.

Aranda del Duero, uma cidade vizinha de Pamplona, nunca alcançou o mesmo grau de sucesso com a sua corrida anual de abelhas assassinas.

Cuando los poderes perseguían, restringían, oprimían, internaban o ejecutaban, las fiestas populares eran un paréntesis de alivio en el que se consentían algunos excesos, un tiempo breve en el que hacer manifiestas la alegría vecinal o la furia, la risa satírica y el poder corrosivo de los menesterosos.

En teoría, el único precepto que se seguía en una manifestación reglada por ritos era éste: fuera normas… ¿Qué es lo que sucede hoy, en nuestros tiempos permisivos e hipermodernos?

En muchos casos, las fiestas populares se han convertido en la excusa para que el exceso injustificado se exprese, para que algunos brutos se manifiesten rompiendo materialmente lo propio y lo ajeno, para que algunos se entreguen a un libramiento destructivo con desenfreno impenitente.

Por supuesto, en las fiestas siempre estuvo ese sentido de brutalidad: eran incluso bestiales, pues el vandalismo es una forma de expresar lo reprimido, lo que necesita escape o paliativo.

Sin embargo, en la sociedad permisiva y democrática de nuestros días, el vandalismo no es necesariamente la manifestación de los humildes: muy frecuentemente es la licencia que se da el individuo bronco y ordinario.

(Justo Serna in El País)

“…os livros me fazem e desfazem”

Quando se lê muito, e eu fui feito pela leitura e não pelo estudo – porque nunca verdadeiramente estudei no sentido escolar do termo, e não “fazia os trabalhos de casa” -, aprende-se e forma-se. Aliás, este é o cerne da educação no sentido clássico, hoje tão esquecido, o de aprender para se fazer.
 
 
O livro de Werner Jaeger sobre a paideia grega era então de leitura obrigatória para qualquer aprendiz de filosofia, e explicava bem essa parte “passiva”, interior, aberta às influências e às seduções, quer do pathos, quer doethos, quer do logos.
 
 
Essa formação “passiva”, a que nos faz, é, pela sua natureza, caótica, depende do “monstro”, que alimentamos à força dos livros, e do modo como eles atingem a vida que se tem. Mas uma vez feita, fica lá para sempre. “Passiva”, aqui nada tem de negativo, mas de silêncio interior perturbado apenas pelo som da nossa voz íntima falando connosco próprios.
 
 
Freud sabia o que isso era, Proust também e, lá longe, na sua fantasmática Konigsberg, Kant procurava-a como alicerce para essa “razão prática” que fundamentava tudo. 
 
Depois, a uma dada altura, dá-se a volta, e a enorme presunção adâmica que os intelectuais têm fá-los escrever. Escrever, nos anos sessenta, por esta ordem: poemas, “teoria” e romances.
 
 
Hoje, a ordem está alterada: os poemas estão lá, mas com menos peso, depois ficam as escritas fáceis (e quase sempre débeis) dos blogues e Facebook, e depois romances, romances, romances. Esta ordem das coisas é para mim um mistério, como é que uma pessoa de juízo normal pensa que os pode escrever com facilidade.” (JPP in Abrupto)
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“Internet es una cosa y su contraria”

Em entrevista recente, Umberto Eco diz que “Internet es como la vida, donde te encuentras personas inteligentísimas y cretinas. En Internet está todo el saber, pero también todo su contrario, y esta es la tragedia.

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Ou seja, uma tragédia banal e previsível: quanto mais se alarga o universo dos nossos relacionamentos, contactos, fontes de desinformação, espaços de debate, etc, mais facilmente nos deparamos com o maravilhoso e o mesquinho. Porém, há uma ou outra lei da Física que explica haver maior probabilidade estatística para encontrarmos esta última categoria, em vez da primeira (life sucks, terá dito já algum filósofo).

A internet veio aumentar (vertiginosamente) o número de interacções possíveis para o ser humano comum. Que diferença para aqueles bem informados cidadãos ao longo do sec.XIX, correspondendo-se com dezenas, às vezes centenas, de outros indivíduos por todo o mundo, através de papel de carta e dos serviços de correio da altura (a pé, a cavalo, de barco), lendo jornais e revistas que os punham a par das últimas novidades com um atraso somente de dias, semanas, talvez meses, e partilhando entre si um imenso acervo bibliográfico que as enciclopédias (em papel, também) tornaram ainda mais fácil de aceder e consultar!

Porém, sentido crítico, bom senso, curiosidade intelectual e abertura de espírito nunca deixaram de ser ferramentas básicas para o uso e abuso destes recursos, sejam analógicos, sejam digitais.

Infelizmente, são ferramentas que não vêm com o software básico.

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