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O texto abaixo é a citação integral da “carta aberta” dum famoso estadista, ainda no activo, publicado no The Onion. Ao contrário de todos os outros, sua sinceridade é desarmante, mais ainda (muito mais mesmo!) a sua perplexidade. A tradução do original em inglês é da responsabilidade do Google com uma ajudinha minha.

Oi, nos últimos dois anos, você me permitiu matar 70 mil pessoas

por Bashar Al-Assad

“Olá. Meu nome é Bashar al-Assad. Eu sou o presidente da Síria, e nos últimos dois anos, você, o cidadão do mundo e seus governos permitiram-me matar 70.000 pessoas. Você leu correctamente  Eu sou um indivíduo que matou 70 mil seres humanos desde Março de 2011, e você assistiu isso acontecer e não fez nada.”

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Eu já matei muitas pessoas: manifestantes, rebeldes, civis inocentes. Você escolha um grupo de pessoas e eu matei-os. Eu matei pessoas com as famílias e entes queridos. Eu matei mães e filhas e pais e filhos, e quero continuar a fazê-lo. Na verdade, já matei muitas pessoas em plena luz do dia, mas ainda estou aqui, vivo e ainda a matar pessoas.

Porque sou capaz de continuar fazendo isso, só posso concluir que a morte de cerca de 100.000 pessoas deve ser uma coisa aceitável. Afinal, ninguém na comunidade internacional tem feito muito mais do que condenar verbalmente minhas acções. Então, eu tomei isso como uma autorização tácita para continuar fazendo o que estou fazendo, o que, novamente, é  assassinar brutalmente toneladas e toneladas de pessoas.

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Como uma nota lateral: acho que é realmente interessante que toda a gente saiba quantas pessoas tenho assassinado e ainda nada aconteceu comigo. Você não acha que isso é interessante? No século 21? Enfim, eu acho que é interessante.

Você vê, controlo um exército forte para que tenha sido capaz de enviar soldados a matar muito bem quem eu quero. Alguns dias haverá uma manifestação pública contra mim  e vou mandar a polícia disparar sobre os manifestantes. E, às vezes, vou enviar um avião que vai soltar uma bomba que mata dezenas de pessoas indefesas em poucos segundos. Então vou acordar na manhã seguinte e fazer tudo de novo, porque ninguém tentou me matar ou me prender.

Esse é um padrão que eu tenho de repetido, sem obstáculos, por quase 750 dias seguidos.

Setenta mil pessoas: isso é 96 por dia para os últimos dois anos. Na verdade, acabei de matar outra pessoa enquanto você estava lendo a última frase. Esta menina estava em uma casa que foi invadida por minhas forças armadas e foi baleada e agora ela está morta. Ops, acabei de matar seu irmão mais novo, também. E sua mãe e seu pai.

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Eu realmente me pergunto por que nenhum de vocês está disposto a parar o que é claramente um massacre. Há artigos de jornais sobre o crescente número de mortes na Síria praticamente todos os dias, e tenho ido à televisão falar sobre todas as pessoas que morreram. E em vez de ser assassinado depois da minha entrevista, volto para o meu palácio em Damasco, na Síria, um local cujas coordenadas estão disponíveis para todos os governos estrangeiros com mísseis balísticos, comer o jantar, e aproveitar a noite como eu fosse apenas uma pessoa normal e não o arquitecto de um holocausto em todo o país.

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Agora, eu diria que todos têm uma boa razão para não fazer um esforço simbólico e intervir para pôr fim a esta matança sem sentido. Ou vocês estão apenas ignorando completamente o massacre porque ou não se importam ou acreditam que interferir será politicamente difícil. Se for esse o caso, eu acho que as pilhas de corpos mortos estão pesando na sua consciência, em algum sentido. Não que me importe um jeito ou de outro. Na verdade, eu deveria agradecer a todos por quão pouco têm feito para me parar. Eu realmente aprecio isso.

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Enfim, eu só pensei que você gostaria de saber tudo o que eu estou fazendo. A guerra civil está entrando em seu terceiro ano agora, então eu vou tentar mantê-lo actualizado sobre quantas pessoas estou matando enquanto vocês e seus líderes continuam a sentar-se em suas mãos. Setenta mil é apenas uma estimativa oficial da ONU, por sinal. É honestamente muito, muito maior do que isso.”

De facto, sinto-me até tentado em concordar com o sr. Presidente Al-Assad. E não é por ser caso único, que não é.

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Comentários a: "“Oi, nos últimos dois anos, você me permitiu matar 70 mil pessoas”" (2)

  1. Dear Pepe, I think you know what I think about this subject…
    But I would like to prevent your bog to be “obscured” and mine “locked”… 😉
    The crap out of this world is that there will ALWAYS be assholes who will do what they want, other assholes who will tamper and more assholes who will stay and see what happens, hoping to reap a substantial profit.
    It’s disgusting, I know, but you should first begin to “clean up” the planet Earth from the first assholes’, then move on to the second ones and make them impotent and then make sure that the latest assholes, the silent observers, will be neutralised.
    The terrible thing that make my stomach sick is that I, unfortunately, belong to the fourth category (which I haven’t even mentioned), because, in fact, has absolutely we have “no say in the matter”. Well, I belong to the Citizen of the World!! and I can’t do a damn thing to change things…. it’s so frustrating… claudine

    • Claudine, de vez em quando levamos com um murro no estômago e, para nosso mérito, sentimo-nos agoniados. Provavelmente, inquietos e desconfortáveis.
      Aquela “carta aberta” aos cidadãos do mundo é uma provocação que tem precisamente esse objectivo: levar-nos a reflectir…uma vez mais, se calhar.

      Divagando um pouco: um autor que aprecio muito, Stefan Zweig, da primeira metade do sec.XX (e seu vizinho, Claudine 🙂 ) exprimiu diversas vezes sua perplexidade perante a eclosão da IªGrande Guerra numa Europa que ele sentia fraterna, culta e internacionalista. Mais dolorosamente, ele experimentou a dor de ver muitos dos seus amigos dos diversos países em guerra adoptarem o discurso bélico e odioso contra as populações “do outro lado”. Pode imaginar como se sentiu ele, menos de duas décadas depois e ainda antes do início da IIªGrande Guerra…

      Não creio que Zweig usasse a expressão “cidadão do mundo”, mas certamente sentia-se um Europeu acima de tudo. Quando leio trechos dos seus textos sobre as transformações do mundo que lhe era contemporâneo, tanto me dá para a melancolia (tantas semelhanças, apesar de tudo), como para o optimismo (apesar de tudo, tantas semelhanças).

      Querendo com isto eu dizer: tal como o salmista, concordo que não há nada de novo debaixo do Sol; mas, como Galileu, murmuro “eppur si muove”.

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