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pussy riot

A farsa do julgamento dos três membros da banda feminina Pussy Riot não é propriamente uma surpresa, já que a tradição russa da repressão, a coberto duma pretensa moral, nunca foi interrompida senão por curtos intervalos.

A pretexto da acusação de hooliganismo e ódio religioso, nega-se o direito das acusadas afirmarem o que as levou a uma igreja e tocarem uma canção obviamente ofensiva contra o presidente russo e o mais alto representante da igreja ortodoxa russa.

http://www.youtube.com/watch?v=grEBLskpDWQ

Fizeram-no porque o presidente Putin é um dirigente autoritário dum Estado corrupto e violento, contando com o apoio explícito da igreja ortodoxa, a qual,e por isso, regressou de facto à situação de religião do Estado com tudo o que isso implica num país com a tradição russa. Mas o tribunal não permite que as três acusadas sejam julgadas pela sua motivação politica, tentando reduzir o caso à ofensa dos sentimentos religiosos dos crentes.

As três raparigas estão detidas há mais de meio ano a aguardar julgamento, em condições difíceis, provavelmente sendo sujeitas a um regime ainda mais duro durante o tempo que durar o julgamento. O resultado final é previsível, dependendo da reacção das opiniões públicas nacional e internacionais, da pressão dos países democráticos principalmente, a dureza da condenação.

Na martirizada tradição da oposição ao poder, que é apanágio da história da Rússia dos séculos XIX e XX, o caso das Pussy Riot  nem de perto se aproxima aos mais dramáticos episódios de perseguição e repressão, mas é, até agora, a mais bem sucedida acção para denunciar Putin e aqueles que o apoiam. Tanto mais eficaz porque a acção das Pussy Riot em Fevereiro deste ano, faz parte duma acção alargada que reúne muitas mais pessoas, tornando-se elas as protagonistas inesperadas da maior contestação à ditadura.

Sendo 3 raparigas com menos de 30 anos (duas com filhos, todas bem formadas, bem educadas, com um discurso sólido e bem articulado, com ânimo para sorrir na sala de tribunal e enfrentar as acusações com espírito sereno, mantendo as suas razões e denunciando a farsa do julgamento, são o melhor exemplo de cidadania e sacrifício cívico que se pode desejar. O que agrava as dores de Putin, certamente.

A situação criada pela nossa acção de protesto ajuda as pessoas a entender em pormenor a fusão da instituição da Igreja e dos serviços de segurança, da Igreja e das autoridades, da Igreja e de Putin. Tudo veio à superfície. (…) o aspecto político é deliberadamente silenciado no julgamento. O juiz e o acusador público têm uma reacção muito violenta sempre que o nome “Putin” é dito. Apesar das questões à volta de Putin tenham uma relação directa com o caso, pois todas as acções do nosso grupo são políticas. (Maria Alyokhina ao jornal em língua russa The New Times (citação retirada da tradução em inglês publicada aqui)

Na nossa actuação atrevemos-nos, sem a bênção do Patriarca, associar a imagem visual da cultura Ortodoxa com a cultura de protesto, sugerindo às pessoas atentas que a cultura Ortodoxa não pertence só a Igreja Ortodoxa Russa, ao Patriarca e a Putin, pois também pode estar ao lado da rebelião cívica e do protesto na Rússia.

Talvez que o desagradável efeito a tão larga escala da nossa intrusão mediática na catedral fosse uma surpresa para as próprias autoridades. Primeiro tentaram apresentar a nossa actuação como uma palhaçada de militantes ateístas sem sentimentos. mas cometeram um grande um grande erro, pois, já na altura, éramos conhecidas como uma banda punk feminista anti-Putin que associava os maiores símbolos políticos do país às suas acções mediáticas. 

O sistema não pode esconder a natureza repressiva deste julgamento. Mais uma vez, a Rússia é diferente, aos olhos do mundo, daquilo que Putin tenta apresentar nos encontros internacionais. Todos os passos que ele prometeu para  implantar um estado de direito  não foram dados, claramente. (Ekaterina Samutsevich na sua Declaração Final no julgamento (da tradução para o inglês retirado daqui)

Quem é responsável pela actuação na Catedral de Cristo Salvador e por nos levar a tribunal depois do concerto? O responsável é o sistema político autoritário. O que as Pussy Riot fizeram é arte de protesto ou política expressa em forma artística. Em qualquer caso, é uma forma de acção cívica quando as condições dos direitos humanos essenciais, as liberdades civis e políticas, estão suprimidas pelo sistema do estado corporativo. (…) Muita gente, incansável e metodicamente esfolada viva pela destruição das liberdades desde a viragem do século, rebelaram-se. Nós procuramos a autenticidade e a simplicidade, e encontrámos-las nas nossas actuações punk.

Gostaria que considerassem os resultados dos testes psicológicos e psiquiátricos que a investigador ordenou-me a submeter durante a detenção. As conclusões do especialista foram as seguintes: os valores aos quais estou comprometida na minha vida são a justiça, o respeito mútuo, a humanidade, a igualdade e a liberdade. Isto é o que o especialista disse, alguém que não me conhece e de quem o Investigador Ranchenko gostaria, certamente, que tivesse escrito algo diferente. (Nadezhda Tolokonnikova na sua Declaração Final no julgamento(da tradução para o inglês retirado daqui)

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Comentários a: "pussy riot" (1)

  1. […] religioso”, embora o alvo das suas canções e acções pacíficas, mas espectaculares, seja o poder político russo e o presidente Putin. Também a elas devemos estar gratos pela coragem demonstrada frente a um estado todo-poderoso que […]

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