novidades e outras coisas

As religiões com sentido “histórico” balizam com datas os eventos que marcam o início e o fim dos tempos, assim como as etapas do seu desenrolar, deste modo enfrentando a decadência do Mundo e do Homem com o horizonte duma salvação para os justos e duma condenação para os ímpios. Horizonte que se cumprirá para a Eternidade irrepetivelmente.

Cada geração envelhece com a certeza de que “no seu tempo era melhor”, desabafo que se pode já constatar em folhas de papiro egípcias ou tabuinhas de argila babilónicas com milhares de anos. Os mitos, por regra, falam duma idade de ouro no passado e o fim do mundo mais lá para a frente, num futuro mais ou menos longo. Processo muitas vezes cíclico, eternamente repetível.

A um nível mais terra-a-terra, o sentimento actual de que se perdem valores como o do estudo, da cultura e do trabalho, muito por culpa da tecnologia (televisão, internet), do consumismo, do individualismo e da procura do prazer, é uma derivação do pessimismo dos mitos.

Já o sentimento de que as conquistas do conhecimento, o progresso tecnológico, o reconhecimento da liberdade e o direito natural à felicidade darão início a uma era de prosperidade e justiça para todos, está mais próximo das crenças religiosas dum mundo melhor e que coincide com o fim da História.

Um mundo sem deuses anuncia a libertação da Humanidade a toda a sujeição, a começar pela do conhecimento: Laplace terá dito a Napoleão que Deus era uma hipótese que explicaria tudo, mas não permitia predizer nada, ao contrário das hipóteses com fundamentos científicos. O tema da “morte de Deus” na sua versão oitocentista assenta na extensão deste conceito a todas as esferas da vida e das actividades humanas: Deus pode ajudar a entender tudo, mas não permite resolver nada.

As monarquias por direito divino cederam lugar às monarquias constitucionais ou, até, às repúblicas laicas e a Humanidade passou a ser vista (como, aliás, toda a vida na Terra) como uma etapa num processo evolutivo sujeito à selecção natural das adaptações ao meio ambiente, ele próprio em permanente mudança e equilíbrio dinâmico.

Porém, um dos sentido dado por Nietzsche (Gott is tot) à “morte de Deus” é a da necessidade de novos fundamentos para os valores humanos, agora que não há uma ordem única e absoluta que os sustente. A “morte de Deus” criou um vazio a ser preenchido penosamente por tudo o que alivie o luto e a culpa daqueles que são responsáveis por essa morte: os crentes que reconhecem a impossibilidade duma lei moral universal e objectiva.

Ao longo dos sec.XIX e XX desenvolveram-se modelos muito diferentes para preencher esse vazio: da universalidade dos Direitos do Homem ao particularismo da raça/etnia/nação, do determinismo histórico à aceitação do desacordo e da conflitualidade para o aperfeiçoamento da democracia.

Na sua imensa sabedoria, a Igreja Católica nunca descurou a importância dos ritos colectivos com pompa, solenidade, cor, música e mistérios vários. Ao transigir na publicação da Bíblia nas línguas comuns, fê-lo por causa da concorrência e pela evolução dos tempos; depois, ao aceitar que a própria Missa fosse rezada em língua que os celebrantes entendessem, também tentou o compromisso entre o Mistério e o Bom Senso.

Pois algo tem de mudar para que tudo continue na mesma, já o disse alguém, e os Papas tornaram-se globetrotters, estrelas pop de estádios e de prime time televisivo. Compare-se com a evolução de certas igrejas reformadas (a Anglicana, por exemplo), que seguiram o processo inverso: ao racionalizarem, tornando-se “razoáveis”, sem simpatia pelos mistérios da fé, nem por tradições populares, os seus próprios representantes não só “sabem” que Deus morreu, como parecem estar convencidos de que nunca terá existido.

Tal como os editores de livros, os livreiros ou os professores de línguas e literaturas vivas e mortas, de História ou de Filosofia, experimentam o paradoxo de viverem uma época em que tudo favorece a expansão dos hábitos de leitura, a facilidade do estudo e o prazer de debater qualquer tema, mas lê-se cada vez menos (embora se publiquem mais títulos), estuda-se menos (ainda que estudem mais alunos) e os debates (quando acontecem) são desvalorizados (ainda que possam ter formidáveis picos de audiência), a Igreja expande a sua imagem e voz como jamais em tempo algum, mas aqueles que se identificam com o catolicismo cada vez menos vão à missa dominical, cada vez mais divorciam-se como os incréus e convivem lado-a-lado com milhentos pecados e pecadilhos de modo público e assumido.

Sem falar de outras paragens do mundo e de outras crenças, compare-se a decadência da religiosidade destes católicos com a actual febre religiosa nos Estados Unidos. Como tantos outros fenómenos sociais e culturais americanos dos últimos 200 anos, certamente terão repercussões na vida social e política europeia.

...e não quero que ninguém ande a distorcer o que eu disse para justificar toda a merda que a Direita anda a fazer...entenderam!?

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Nuvem de etiquetas

%d bloggers like this: