novidades e outras coisas

Ontem assisti a um debate à volta do livro “Corpo e Transcendência” de Anselmo Borges (ed.Almedina), moderado pelo próprio autor, com a presença de José Pacheco Pereira, Bento Domingues e Daniel Serrão. O tema não me interessava especialmente, mas os participantes garantiam a qualidade do debate.

Sendo eu também um incréu, como o próprio JPP se auto-designou, com ele partilhei a ausência de interrogações e dúvidas sobre o Transcendente, a Morte e, naturalmente, Deus. Dos outros participantes observei com apreço o modo como enfrentam racionalmente (dando o exemplo de Tomás de Aquino) os desafios à sua fé religiosa colocados pelo conhecimento científico.

O que me leva a reflectir nas pessoas que assistiam ao debate (entre 100 a 200): ninguém se levantou a acusar apostasias, heresias e blasfémias, a   invocar argumentos de autoridade e dogma. Bom-humor, cordialidade, simpatia, seriedade…porque haveria de esperar outra coisa?

Sendo padre um dos palestrantes (o autor) e outro frade dominicano, alegra-me sentirem-se confortáveis nas suas inquietações teológicas num século que já é excessivo no regresso da intolerância religiosa, do obscurantismo criacionista e outras manifestações de falta de cidadania e cultura.

A verdade é que as notícias que tenho de palestras, debates, apresentações de livros, etc, relacionadas com temas religiosos através dos media são motivadas, quase sem excepção, pelo confronto verbal ou físico provocado por energúmenos. Provavelmente, fazem-se centos, milhares de eventos como este e correm admiravelmente bem, alguns até serão tão ou mais interessantes. Mas disso não se ocupam os media. Então, e se assim for, a realidade de ser possível falar de qualquer assunto religioso, ou à volta da religião/sagrado, de modo livre e tranquilo, acaba por nos passar ao lado, presos à imagem que uma minoria intolerante consegue impor.

Culpa só dos media e dos energúmenos? Bem, imagino se os jornais e televisões dessem cobertura ao debate de ontem, ou os dois participantes padre e frade dissessem o que disseram em formato de entrevista (com cabeçalhos seleccionados por legítimos interesse editorial), as reacções menos cordatas e tolerantes seriam maioria, assim como os pedidos de excomunhão.

Afinal, não foi o que aconteceu (enfim, mais ou menos…) a um cardeal-patriarca por ter relativizado a exclusão das mulheres no exercício do sacerdócio, admitindo não haver qualquer principio válido para tal a não ser a tradição?

Seja como for, as vantagens duma sociedade que existe para lá das instituições (Estado, Forças Armadas, religião oficial ou dominante, grandes corporações), que se assume civil e laica, apesar de evidentes e inegáveis, são frequentemente obscurecidas, distorcidas e negadas de modos mais ou menos subtis. E esta é uma tendência em crescendo na última década.

Antídotos não há, só muito esforço mental e físico (de preferência colectivo).

Ou como disse um jornalista, ainda há poucos dias: “as escolhas limite se fazem todos os dias, no nosso quotidiano, e duvido muito que quem vive de espinha dobrada em tempo de paz, em tempo feliz como é – já nos esquecemos – o tempo democrático, seja capaz de endireitar a espinha em tempos difíceis” (Pedro Rosa Mendes in Publico).

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