novidades e outras coisas

Um qualquer canal de TV, pela enésima vez, resolveu preencher o tempo de emissão com um tipo de “informação” barato e de rápida popularidade: fazer dos outros burros.

O alvo foram estudantes universitários, as perguntas eram de cultura geral e as respostas seleccionadas bastante ridículas. Para quem veja filmes e séries de televisão sobre manipulação de informação e entretenimento, o que se viu não tem relevância alguma. Mas a popularidade que ganham estes programas é digna de reflexão.

Mais curioso é observar a persistência dum tique “cultural” que conheço desde que comecei a sentar-me nos bancos da escola: o de se saber nomes e datas, desligadas de qualquer contexto e repetidas com o mesmo esforço intelectual com que aprendi a papaguear a tabuada. Havia adultos, ainda na década de 70 do século passado, que faziam alarde de conhecer peças desgarradas dum ensino anacrónico, fossem os nomes de reis duma qualquer dinastia, fossem os rios de Angola e Moçambique, até mesmo as linhas de combóio da Metrópole e Ultramar.

Já noutros tempos de sentido estético apurado e exigente (ou seja, na minha adolescência…) haviam longos debates sobre política, cinema, música (rock, claro) ou qualquer coisa assim das áreas da arte e conhecimento, onde surgiam, às mãos cheias, gente que fazia gala dum longo desfiar de nomes, datas e citações, sem que daí resultasse uma qualquer forma fecunda de conhecimento e acção.

Ou seja (porque é aqui que quero chegar), de que vale saber que Leonardo da Vinci pintou tal e tal quadro se não fizermos qualquer ideia, remotamente que seja, do que foi a Renascença? Ou que alguém escreveu um livro (sabemos o autor e o nome do livro, até podemos saber em que século escreveu), mas escapa-nos toda a ironia e provocação do título, por exemplo?

Há quem carregue consigo carradas de bits de informação, peças avulsas de diferentes puzzles de que não têm a menor ideia. Mas sua utilidade, sem dúvida, é real: preenchem nacos de conversação aborrecida e pedante, onde se cria a ideia de que o usuário daqueles fragmentos de informação é, ele mesmo, o detentor dum conhecimento ou, para usar um termo mais na moda, duma competência.

Eça de Queirós, não sei se político, se treinador de futebol, parece ter convivido com uma extensa galeria de personagens assim.

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