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a bem ou a mal

A propósito dum livro recentemente publicado, parece ter-se levantado uma polémica “literária” sobre a abordagem do “Mal”. É interessante como pode ser expresso o critério proposto para a “evocação” do dito cujo: Cuando se evoca el mal, es necesario enfrentarlo al bien, para que sirva de contraste. La reconstrucción del mal sin condena, sin héroes positivos, adquiere una apariencia de voyeurismo amoral. (Lucetta Scaraffia citada in el país)

Supunha que a arte europeia já tinha esgotado o tema ainda no sec.XIX. Que os americanos mantém a dialéctica dos bons e dos maus é um facto que posso observar na esmagadora das séries de televisão ou dos filmes de Hollywood, mas até há uma década atrás iludia-me com a expectativa de que, um dia, também haveriam de crescer. Com a presidência de Bush jr. e o Tea Party já percebi que não. E, entretanto, a Europa parece regressar progressivamente aos velhos demónios da sua infância.

Culpa das nossa herança grega? Pouco provável, ou não tivessem os antigos gregos escritos tragédias. Da cultura judaico-cristã? Ainda menos, como se pode ver por esta pérola do “voyeurismo amoral”:

Ora, um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, Satanás apareceu também no meio deles na presença do Senhor.

O Senhor disse-lhe: De onde vens tu? Andei dando volta pelo mundo, respondeu Satanás, e passeando por ele

O Senhor disse-lhe: Notaste o meu servo Jó? Não há ninguém igual a ele na terra, íntegro, reto, temente a Deus e afastado do mal. Persevera sempre em sua integridade; foi em vão que me incitaste a perdê-lo.

Pele por pele!, respondeu Satanás. O homem dá tudo o que tem para salvar a própria vida.

Mas estende a tua mão, toca-lhe nos ossos, na carne; juro que te renegará em tua face.

O Senhor disse a Satanás: Pois bem, ele está em teu poder, poupa-lhe apenas a vida.

Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça. ( in a Bíblia)

Não há nada como reler os velhos clássicos…

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Comentários a: "a bem ou a mal" (2)

  1. Sai, forse il problema sono le finalità di chi scrive.
    Ci hai pensato? Se si scrive d’amore, di rettitudine, d’onesta… insomma una storia pulita e dalla morale integra… ecco che nessuno la compra.
    Ma se chi scrive vuole avere “successo” ecco che nella storia ci mette sesso, violenza, oscenità ed allora qualche lettore acquista e i media acclamano al best-seller.
    🙂
    Ma effettivamente come dici, siamo ritornati nel tempo: altro che progresso, tutt’altro che evoluzione!
    Pepe… possiamo forse solo dire che “siamo umani” e come tali ci comportiamo anche peggio delle bestie?
    Ho smesso di pormi troppe domande: mi ritrovavo con quesiti ed assiomi dal mattino a notte fonda… poche risposte, a volte incoerenti.
    Per questo sono fermamente sicura che anche la religione (vista in modo egemonico) non è la soluzione…
    E lascio anche perdere la filosofia greca. Forse l’unica che ora mi può dare degli stimoli e delle risposte è quando mi metto da qualche parte a meditare recitando i miei mantra. Beh, nella filosofia buddista, di certo, ho trovato solo cose stupende…
    Serenità
    :-)claudine

  2. Creio eu, Claudine, que estas polémicas surgem de modo artificial para se poder falar de coisas distintas do que aquelas que estão na sua origem, ou não fosse a obra de Umberto Eco esclarecedora dos valores pelos quais ele se rege.

    Ou, pior ainda, revelam uma incapacidade total de entender a ironia e de expressar sensibilidades e ideias opostas sem cair no maniqueísmo, no moralismo, etc.

    Os monstros das antigas fábulas (aqueles que comiam criancinhas e sequestravam donzelas) habitam entre nós, talvez vivam em nossa casa. E os carniceiros da História (que têm honras de Chefe de Estado e destroem literalmente milhões de pessoas) são, sem excepção, pessoas duma vulgaridade (mediocridade) simplesmente extraordinária.

    Ora, quem melhor de que a Literatura para nos fazer experimentar intimamente todo esse horror?

    A Tragédia grega coloca-nos diante do Inominável, a Filosofia grega tenta nomea-lo e a cultura judaico-cristã faz-nos sentir a todos culpados (como a história de Job tão bem ilustra) por algo inominável e sem sentido.

    Por isso entendo bem a sua referência ao budismo, pois abre-nos horizontes muito diferentes. Pessoalmente, costumo também recitar meus mantras, via um dos meus gurus de estimação, Alberto Caeiro.

    Este, por exemplo:

    “Porque o único sentido oculto das cousas
    É elas não terem sentido oculto nenhum,
    É mais estranho do que todas as estranhezas
    E do que os sonhos de todos os poetas
    E os pensamentos de todos os filósofos,
    Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
    E não haja nada que compreender.”

    Ou meditar com ele sobre os grandes mistérios do universo: “Que pensará o meu muro da minha sombra?”

    Stupendo, no?

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