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Archive for Setembro, 2010

arte contemporânea

Ontem, ouvindo um pintor e professor de pintura, homem conceituado do meio e desconhecido do grande público, soube que foi empurrado abandonou um projecto de criação/dinamização dum espaço artístico privado (exposições permanentes e não só) essencialmente por ter deixado “escapar” a mensagem de que o espaço e a entidade privada eram independentes das instituições políticas ou outras, o que lhe dava maior coerência para o desafio de se fazer algo do género numa pequena cidade a 20 km da grande cidade.

Por causa dessa “inconfidência”, quem mandava na dita entidade privada recebeu o recado da autarquia local de que “assim” não haveria disponibilidade para qualquer tipo de colaboração. Já teria havido um recado, tempos antes, de que determinado artista local de nomeada não seria visto com bons olhos se expusesse lá. Como o dito artista tambem não fazia parte das preferências do projecto-que-acabou-por não-acontecer (ainda que somente por questões estéticas), a coisa não mereceu demasiada importância.

Filosofando sobre o tema, o dito pintor-professor acrescentou mais esta informação, derivada desta (e outras experiências de vida): uma autarquia desconfia sempre das iniciativas privadas na área cultural, principalmente quando estas interpelam a câmara para obter algum tipo de apoio/colaboração/etc. Se a iniciativa privada contacta a câmara para poder usar um equipamento cultural da autarquia, tudo bem, é para isso que foi construído. E se a câmara tiver aprendido a lição daquela autarquia que passou a exigir o conhecimento prévio de todas as obras a serem exibidas antes, para não ser surpreendida depois (como aconteceu certa vez com a exposição de algo alegadamente-chocante-creio-que-um-corpo-meramente-nu), então está tudo perfeito.

Obviamente, diz ele, não se trata de dinheiro. Trata-se de nunca se colocar a câmara em cheque, de não se utilizar a câmara para promover artistas non-gratos, e de ninguém retirar louros com os apoios da câmara sem os dividir generosamente com esta. No fundo, no fundo, é a mera gestão do Poder e da sua perpetuidade longevidade.

Porque dinheiro para construir pavilhões, anfiteatros, multiqualquercoisas e outros pseudo-equipamentos culturais que depois minguam por falta de projectos, isso não faltará nunca (a menos que a crise obrigue…).

Por exemplo, veja-se aquela câmara duma grande cidade a norte que tem espaços para ceder aos artistas numa zona-património-mundial de graça. Mas os espaços estão vazios porque não há ninguém na dita autarquia que faça a gestão desses equipamentos, que os promova, que desafie os artistas (se é que os há) a ocupa-los e fazerem coisas…

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contra-revolução?

"El éxito del proceso que ahora se inicia dependerá del aseguramiento político que desde el movimiento sindical y bajo la dirección del Partido los dirigentes sindicales demos previamente a las acciones que se deben emprender"(in Pronunciamiento de la Central de Trabajadores de Cuba)

Curiosa polémica aberta entre a Central de Trabajadores de Cuba e o “nosso” PCP, como se pode analisar nas páginas do Granma e do Avante, respectivamente: (…) En correspondencia con el proceso de actualización del modelo económico y las proyecciones de la economía para el periodo 2011-2015, se prevé en los Lineamientos para el año próximo la reducción de más de 500 000 trabajadores en el sector estatal y paralelamente su incremento en el sector no estatal. 

 El calendario para su ejecución está concebido por los organismos y empresas, hasta el primer trimestre del 2011. (…) Es conocido que el exceso de plazas sobrepasa el millón de personas en los sectores presupuestado y empresarial.  (…) Nuestro Estado no puede ni debe continuar manteniendo empresas, entidades productivas, de servicios y presupuestadas con plantillas infladas, y pérdidas que lastran la economía, resultan contraproducentes, generan malos hábitos y deforman la conducta de los trabajadores.  

Es necesario elevar la producción y la calidad de los servicios, reducir los abultados gastos sociales y eliminar gratuidades indebidas, subsidios excesivos, el estudio como fuente de empleo y la jubilación anticipada.(…) Para el tratamiento laboral de los trabajadores que en una entidad o puesto de trabajo resulten disponibles, se amplia y se diversifica el actual horizonte de opciones con nuevas formas de relación laboral no estatal como alternativa de empleo: entre ellas están el arrendamiento, el usufructo, las cooperativas y el trabajo por cuenta propia, hacia donde se moverán cientos de miles de trabajadores en los próximos años.  

(in Granma, sublinhados meus)  

Ou seja, e de acordo com as políticas neo-liberais (“menos Estado é melhor Estado”) e o revisionismo assumido por Fidel de Castro (‘O modelo cubano não serve nem para nós‘), a resposta à crise é feita à custa dos trabalhadores, da precariedade do trabalho, do retrocesso das condições de vida da grande massa trabalhadora (neste caso, tantos os “velhos” como os “jovens”). Como não podia deixar de ser, o PCP soube dar a resposta no momento e no tom certo: “Política de direita com resultados à vista  

Com esta política, nem se combate a crise, nem se resolvem os problemas nacionais que assumem uma nova e mais preocupante dimensão. O resultado está à vista no elevadíssimo desemprego, que permanece a níveis nunca antes atingidos e sem perspectivas de inversão; no prolongamento da estagnação económica, com destruição da capacidade produtiva nacional, no empobrecimento relativo do País (…); na persistência dessa larga mancha de pobreza (…). Mas igualmente na amplitude da precariedade das relações laborais, que está a contribuir, juntamente com o desemprego, para o acelerado retrocesso das condições de vida da grande massa trabalhadora, particularmente dos jovens.” 

(in Avante, sublinhados meus)

sangue e arena

Qual é a diferença entre matar um vitelo no matadouro para fazer hamburgueres ou cortar bifes e matar um touro em local público para gáudio da assistência?

Eu já suspeitava que havia alguma, mas agora tenho a certeza: “a morte do touro constitui um símbolo da cultura da população” (in Expresso)

Imagino o simbolo cultural e o seu valor na formação de quem assiste ao espectáculo: “O touro foi este sábado à tarde abatido ilegalmente na vila medieval de Monsaraz, concelho de Reguengos de Monsaraz, no final de uma novilhada popular, cumprindo uma tradição reivindicada pela população local. O golpe fatal foi desferido cerca das 19:45, depois de o touro ter sido laçado e preso ao muro da arena improvisada, na antiga praça de armas do castelo de Monsaraz, histórica povoação localizada nas margens da albufeira de Alqueva. O abate do touro não foi presenciado pela assistência que enchia o castelo (perto de 2000 pessoas), por o animal ter sido coberto com um pano escuro.” (in IOL Diário, sublinhados meus)

Se bem que eu ainda tivesse a ilusão da morte do bicho na arena, num frente-a-frente entre el matador e el toro recriando uma espécie de duelo cósmico.

Afinal, para evitar desnecessárias burocracias policiais e coimas acrescidas, é suficiente encurralar e atar o bicho a um canto, cobri-lo a ele e aos valentes matadores com um púdico pano opaco, e matá-lo de forma anónima e discreta. Como num vulgar matadouro improvisado. Mas com o valor cultural acrescido deste acto encoberto e sem glória ser assistido por centenas, milhares de pessoas, que se sentem assim salvaguardadas na sua grandeza cultural.

Ou seja, se bem entendi: o importante é que corra sangue à vista de todos. Bem-hajam!

Claro, sempre haverá alguns que discordam ser esta uma lição de civilização para as criancinhas, como posso ler numa caixa de comentários de outro blogue a propósito do mesmo assunto: “Para min, a razón de prohibir as touradas teñen un calado ético/cultural moito máis fondo, tanto como o de abolir un espectáculo relacionado coa morte” (F. Míguez in Apunta, para non esquecer).

"Tu estás louca, Jessy!...louca, louca, louca!"

“lamber frio”

Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais. O demônio diz mil. Esse! Vige mas não rege… Qual é o caminho certo da gente? Nem para frente nem para trás: só para cima. Ou para curto quieto. Feito os bichos fazem. Os bichos estão só é muito esperando? Mas, quem é quem sabe como? Viver… O senhor já sabe: viver é etcétera…(in Grande Sertão: Veredas)

“…pero la lluvia es la compañera inseparable”

Por indicação amiga da Maria Luisa cheguei a este artigo no El País:

A Oporto le sienta bien la luz: el cielo se pone azul y unas nubes gordas y blancas se mueven rápidamente por él como si tuvieran miedo a quedarse quietas. La luz hace que las baldosas de las fachadas de los viejos edificios, muchos de ellos abandonados, brillen. El escritor más importante de la ciudad, Eugenio de Andrade, fue el poeta de la luz, y de los cuerpos y de la vida.

A Oporto le sienta bien la luz, pero la lluvia es la compañera inseparable. La lluvia cae a menudo para marcar territorio (Félix Romeo in elpaís).

E se ela se lembrou de mo mostrar foi por lhe fazer recordar algo semelhante que leu em PortoGrafia:

A cidade velha vive sob a influência da atmosfera densa do rio: sua luz não é a do Sol, mas a da chuva. 

E são as tardes frias, cinzentas, quem seduzem o estranho que nela se perca.  A cidade brilha sob a chuva miúda, sua pele de sáurio antigo se solta, rejuvenescendo na mulher de beleza eterna e idade indefinível. Do húmus das fundações libertam-se exalações íntimas, insinuantes. Suas ruas se transfiguram no bailado de luz e cor com as nuvens que passam. Nuvens ligeiras e úberes

(Arranhando a superfície até sangrarem os dedos in Imago Mundi)

 

voando alto e arriscando a não sair do sítio

Quando deixou de ser suportável a “legitimidade” de se concentrarem investimentos, obras públicas e equipamentos culturais numa certa cidade mais a sul, passou a usar-se o argumento da “locomotiva” que iria arrastar o país para o desenvolvimento. Um logro, pois o que fizeram foi plantar um eucalipto que seca tudo o mais em redor.

Quando leio este post duma associação de cidadãos duma certa cidade mais a norte, percebo a preocupação com a falta de pressa duma tal Ana, criatura algo imprevidente e com pouco acerto a fazer contas. Mas depois leio este outro post de José Ferraz Alves, mais concretamente no ponto iv), e vejo que a referida associação bem pode andar preocupada com a Ana e outros como ela, eles próprios preocupados em regar o eucalipto.

Se houvesse debate político no país, certamente este seria um tema central. Mas a avaliar pelo que leio e ouço, andamos todos a ver passar os aviões…

"O que está a fazer uma cabra-montesa no meio das nuvens?"

O Presidente, a Probidade e a liberdadezinha

Há países com sorte.
 
Países onde o Presidente dá consultas de apoio e aconselhamento para problemas de fôro interno, imagino que familiares, gástricos e psicológicos, não sei: “O Presidente […] recebe todos os dias enviados de Chefes de Estado estrangeiros que (…) lhe pedem apoio e conselhos para resolverem os seus problemas internos”.
 
Sua fama, prestígio e competência leva-o a correr mundo para ensinar a receita de paz e estabilidade política (“apesar das diferenças”…mas este “porém” eu não entendi), como quando se deslocou à “(…) histórica cimeira de Áquila(*) onde o nosso Presidente apontou claramente quais devem ser as medidas a tomar para que o mundo viva em paz e haja estabilidade política, apesar das diferenças”.
 
Agora o que entendi, e não posso concordar, é que haja gente malvada que o ataquem, insultem e atentem: “Porque atacar o Presidente da República é atacar todos os angolanos. Insultá-lo e atentar contra a sua honra, é o mesmo que insultar e desonrar todos os angolanos. O mais alto magistrado da Nação representa-nos a todos, mesmo os que são empregados da Open Society, a organização que mais se destaca na guerra contra a honra da pátria e dos seus dirigentes”. (esta e as anteriores citações in Editorial do Jornal de Angola, assinado por José Ribeiro…mas o link à Open Society é meu).
 
Ora, fiquei a pensar que devia até haver leis contra semelhantes desacatos, mas o bom do citado José esclareceu-me em outro Editorial o seguinte: “O nosso país tem em vigor a Lei da Probidade.(…) Existem profissionais – incluindo no jornalismo – que se arrogam de fazer render deslealdades e desonras, a troco de nada” !! E só posso concordar que fazer render seja o que for a troco de nada é um absurdo lógico e quem disso se arroga não é boa gente.

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