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sangue e arena

Qual é a diferença entre matar um vitelo no matadouro para fazer hamburgueres ou cortar bifes e matar um touro em local público para gáudio da assistência?

Eu já suspeitava que havia alguma, mas agora tenho a certeza: “a morte do touro constitui um símbolo da cultura da população” (in Expresso)

Imagino o simbolo cultural e o seu valor na formação de quem assiste ao espectáculo: “O touro foi este sábado à tarde abatido ilegalmente na vila medieval de Monsaraz, concelho de Reguengos de Monsaraz, no final de uma novilhada popular, cumprindo uma tradição reivindicada pela população local. O golpe fatal foi desferido cerca das 19:45, depois de o touro ter sido laçado e preso ao muro da arena improvisada, na antiga praça de armas do castelo de Monsaraz, histórica povoação localizada nas margens da albufeira de Alqueva. O abate do touro não foi presenciado pela assistência que enchia o castelo (perto de 2000 pessoas), por o animal ter sido coberto com um pano escuro.” (in IOL Diário, sublinhados meus)

Se bem que eu ainda tivesse a ilusão da morte do bicho na arena, num frente-a-frente entre el matador e el toro recriando uma espécie de duelo cósmico.

Afinal, para evitar desnecessárias burocracias policiais e coimas acrescidas, é suficiente encurralar e atar o bicho a um canto, cobri-lo a ele e aos valentes matadores com um púdico pano opaco, e matá-lo de forma anónima e discreta. Como num vulgar matadouro improvisado. Mas com o valor cultural acrescido deste acto encoberto e sem glória ser assistido por centenas, milhares de pessoas, que se sentem assim salvaguardadas na sua grandeza cultural.

Ou seja, se bem entendi: o importante é que corra sangue à vista de todos. Bem-hajam!

Claro, sempre haverá alguns que discordam ser esta uma lição de civilização para as criancinhas, como posso ler numa caixa de comentários de outro blogue a propósito do mesmo assunto: “Para min, a razón de prohibir as touradas teñen un calado ético/cultural moito máis fondo, tanto como o de abolir un espectáculo relacionado coa morte” (F. Míguez in Apunta, para non esquecer).

"Tu estás louca, Jessy!...louca, louca, louca!"

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Comentários a: "sangue e arena" (6)

  1. Non saprei cosa rispondere, Pepe.
    Mangio carne due volte al mese, unicamente prodotto biologico di una fattoria poco distante da dove vivo.
    Siamo quasi vegetariani ed ogni prodotto è sempre scelto con cura ed attenzione ecologica…
    Non ho mai sopportato chi fa soffrire gli animali, che non sanno difendersi…
    Perciò le “corride” o corsi di cani levrieri o palio di Siena e tante altre stupidate… non sono sicuramente sulla nostra agenda!
    Ma l’Uomo è la peggiore delle bestie, nulla di nuovo, è da sempre risaputo avvalorato dalla scemenza di chi al posto di utilizzare il cervello utilizza il fondo schiena!
    Serena settimana, :-)claudine

    http://claudine2007.splinder.com

  2. Sendo um omnívoro sem culpa, nem arrependimento, distingo a vontade de comer um bife do acto de caçar o animal, talvez por ser um cidadão do sec.xxi habituado aos corredores dos super/hiper-mercados.

    Noutros tempos, uma e outra coisa estariam ligadas e faziam a diferença na dieta duma comunidade. Daí entender o instinto do caçador e o prazer da emboscada bem sucedida, mas por isso mesmo jamais quis ser caçador: não só não preciso de caçar para me alimentar, como aprecio mais o animal vivo e selvagem.

    Mas a questão da tourada, Claudine, não passa nem por uma, nem por outra coisa. Tem a ver com o espectáculo e a “arte de tourear”. Na tourada “à portuguesa” não há touro de morte, nem certos rituais sangrentos para início da faena. Mesmo assim, ao longo da lide espetam-se ferros no bicho que lhe causam evidente perda de sangue e sofrimento.

    Se retirarmos esses “tecnicismos” sangrentos, o trabalho do toureiro com a capa, a pega de forcados (7 homens em linha a enfrentar o touro para conseguirem domina-lo) e o trabalho do cavalo/cavaleiro (retirando os ferros que são para espetar no lombo do touro), até são interessantes.

    Ou seja, é perfeitamente possível uma tourada sem o espectáculo do sangue e da morte, nem sequer o sofrimento do touro.

    Mas o impressionante é que são o sangue e a morte que certas populações pretendem ver “defendidas” em nome duma tradição.

  3. Xa coñece vostede a miña opinión sobre a materia, Pepe. Hoxe celebrouse nunha vila de España unha «tradición» de moitos séculos consistente en acosar un touro con lanzas hasta matalo.

    http://www.publico.es/espana/252124/toro/vega/tordesillas/tortura/torneo/moscatel/igualdad/animal

    (A nova o ano pasado).

    O principal argumento é esa tradición. Non hai nada ético, nin moral, só o «así se fixo sempre» como excusa… paupérrima, claro.
    A verdade, é que é un tema que me pon bastante triste. Coa condición humana a un nivle tan baixo, un atopa que certos ideais nos que cre non van ser cumpridos nunca na miña vida.

    • Acabei de ver o video, Míguez, mas bastou metade…: é agoniante (e não me considero impressionável).

      Conforme é dito no artigo do Publico, havia gente disposta a agredir quem recolhesse imagens.

      Se isto é assim sem motivo outro do que a “diversão” e a “alegria”, imagine-se como será esta gente quando se sente ameaçada.

  4. Compreende-se que – num País onde casos mediáticos como o “Apito Dourado”e “Casa Pia” diluem-se em manobras processuais emperrando os tribunais, acabando-se com a noção que não foi feita justiça – matar ilegalmente um touro em Monsaraz frente a uma multidão histérica e sedenta de sangue, vai acabar como nos anos anteriores: com a conivência das autoridades, da autarquia, do Governo Civil de Évora, com a impotência da Inspecção-Geral das Actividades Culturais e, finalmente, com o arquivamento da praxe no Tribunal de Comarca. Parecem saídos de um argumento de um filme de Kusturica – uma comédia burlesca onde se conclui que o culpado foi o touro!

    • Tem razão, Dylan, basta ver que a GNR não estava na praça de touros apesar de se saber como como “estas coisas” acabam.

      O problema está ao nível das mentalidades, na tolerância, ou aceitação, do sangue e da morte como espectáculo público. O culpado é o touro? Bem, a crer nos defensores da tourada de morte, também o touro só tem a ganhar com o espectáculo da sua morte (!)

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