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Archive for Setembro, 2010

competências e competitividade

Os ventos sopram  tempos não andam de feição, posso ver daqui.

Há muitos, muitos anos atrás, numa galáxia muito, muito afastada (na realidade, o Portugal dos anos 70), li uma crónica de Augusto Abelaira onde era feito o elogio ao profissional-especializado-em-qualquer-coisa por oposição à formação generalista, tipo aristocrata. Dum lado, alguém que sabia a fundo tudo o que havia a saber sobre a sua área de trabalho; do outro, alguém que sabia alguma coisa, muito pouco certamente, de muitos e variados assuntos e actividades. Confesso que nesse tempo assumi uma irreprimível discordância desse ponto de vista.

Porém, tenho de concordar que não queria um canalizador em casa que soubesse assim-assim sobre canos e me deixasse o trabalho quase pior do que estava (na verdade já aconteceu). Por muito versátil que fosse nos seus gostos e dotes artísticos. O mesmo direi dum médico ou dum astronauta mecânico. Na verdade, digo isso da generalidade das actividades.

Mas reconheço, também, que os profissionais que se limitam a uma sólida cultura na sua área sem mais interesses, ideias e perspectivas do que a pequena (ainda que microscopicamente imensa) bolha de conhecimento adquirido em bancos de escola/universidade/fábrica/repartição/empresa, são pessoas geralmente chatas e porque não dize-lo? muuito chatas. Como ir a casa de alguém, tipo engenheiro-da-não-sei-das-coisas, e entrar na sala recheada de livros de engenharia, engenharia, engenharia. E até de engenharia. Ah, poesia diria levemente esperançado ao ver as Odes, de Álvaro de Campos, para logo ser decepcionado com a resposta: Esse aí?! Comprei porque o autor era engenheiro, dizem, mas afinal não tem nada a ver…!

"Ohhhhhhh...Olha para aquilo, Shuster...os cães são tão fofos quando tentam compreender mecânica quântica."

De facto, compreendo o interesse económico da exploração das monoculturas tipo eucalipto. Ou das urbanizações de prédios e casas todos iguais.

Mas entendo melhor a frustração de quem anda sem trabalho porque não se adequa ao perfil da generalidade das ofertas de emprego, em parte por ser “sobrequalificada” (e ter 45 anos), em parte por não haver procura (ou predisposição para valorizar) alguém que seja “multi-talentosa”.

 O mesmo se passa nos Jogos Olímpicos com o pentatlo ( cinco modalidades diferentes: hipismo, esgrima, natação, tiro esportivo e corrida): em vias de extinção devido à sua fraca popularidade.

Qualquer um se pode interrogar o que prefere para si mesmo: ser um excelente nadador ou atirador, corredor, etc, ou ser um razoável praticante de tudo isso à vez?

Uma civilização que não favoreça a diversidade acaba sempre por se dar mal. Mas isso sou eu a falar, um razoável automobilista, medíocre ciclista, peão envergonhado e nadador de esplanada de piscina.

o filho-do-pai

Compreendo que para a generalidade das pessoas não seja muito evidente a vantagem da transmissão do poder político de pais para filhos. Os monárquicos têm como justificação um sentido da tradição, da família e coisas assim que me fazem lembrar sempre esse modelo de pater familias que foi Henrique VIII em Inglaterra, ou mesmo o nosso D.Afonso IV com seu desvelo paternalista para com a mãe dos netos, a formosa Inês.

Mas no caso do jovem Kim Jong-un tenho de reconhecer que, mesmo para um país que se auto-intitule “república”, “democrática” e “do povo” (ou “popular”), bem se pode abrir mais uma excepção. Afinal, a linhagem de que descende é verdadeiramente excepcional como se pode ler aqui(para quem tenha dificuldade de ler em inglês recomende o uso do tradutor da google…é que vale mesmo a pena saber que ainda existem dirigentes políticos e estadistas como antigamente).

urbanidade

Outra evidência é que o desenho do sistema viário urbano tem vindo a ser feito por engenheiros de trânsito que não sabem desenhar “ruas”, e pejam as cidades com “sistemas rodoviários”. Naturalmente que neste caso há um evidente conflito com os sistemas alternativos de transporte. 

 As nossas cidades deixaram de ter ruas e passaram a ter rodovias. A introdução de transportes alternativos sejam eles quais forem tem de ser feito pelo princípio de urbanidade, isto é pela convivência e não pela exclusão. (Alexandre Burmester in A Baixa do Porto)

“cada país tiene su barbarie”

(…) la barbarie no es un atributo solo de los hombres poderosos. Es consecuencia de la mediocridad. Gente normal haciendo cosas horribles. (John Le Carré in el país)

a propósito do dia de ontem…

Si, coñezo a enfermidade. En todas as súas fases. Con toda a súa putada e toda a súa merda.

Por iso hoxe árdeme o peito lendo nos xornais as declaracións institucionais das distintas administracións, dicindo que si, que si, que canto queremos aos velliños, que imos dispór de cada vez de máis axudas, que si, que si, que canto queremos aos velliños e as velliñas que enferman disto, e que camiñamos cara a aplicación da lei de dependencia, e o carallo 29.

 Que si, que si, que canto queremos ás velliñas e aos velliños e que sorte que vivimos no estado de benestar e que para nós a idade é un patrimonio…

(in A canción do náufrago)

“É incrível, mas existe…

(…) uma ‘quase’ ciclovia oculta no Porto. Oculta porque se encontra num estado deplorável, porque parte do seu percurso não é legalmente ciclável e porque existem interrupções e barreiras a superar.” (in Um pé no Porto e outro no pedal)

Para quem, como eu, pedalou de modo regular pela cidade desde as últimas décadas do sec. XX até meio da 1ª década do sec.XXI (assim dito, reparo como devo ter uma idade respeitável…) posso atestar por minha honra já conhecer a dita “(quase) ciclovia” nas minhas deslocações de então: era um troço que surgia do nada e acabava no nada (dois eixos paralelos à actualmente conhecida Av.AIP nome horrível e piroso…brrr!), que obrigava a cuidada atenção por causa dos buracos, lombas e vegetação enraizada na via ( se os portuenses abandonarem o Porto, a natureza selvagem há-de salvá-lo…).

Pelos vistos, apesar de tanta obra pública a estrear ciclovias ou circuitos pedonais um pouco por todo o lado (talvez existam por aí lobbies do pedal e do calçado, temo bem), a câmara municipal também deve desconhecer esta relíquia construída talvez para “servir” os operários que trabalhavam nesta antiga zona indústrial, agora reciclada no roteiro da noite fora-d’horas

Entretanto, o génio espontâneo dos tripeiros de gema, a cidadania solidária e o municipalismo pro-activo da dita cuja câmara tem destas surpresas (já não são biclas, senhores, são skates!):

” A fonte da Praça da Batalha tem agora um novo acessório, uma rampa de skate construída em betão, que lhe confere uma utilidade que o projectista jamais terá imaginado”. (in A Cidade Deprimente)

os desempregados não-empreendedores

No Centro de Emprego: "Recentes inqueritos revelam que os californianos estão ligeiramente mais optimistas com a economia em 2004..."

 Li as declarações do Presidente do IEFP sobre a falta de empreendedorismo dos desempregados, relacionando-a com a falta de empreededorismo nacional face à média europeia. De modo expressivo, o Público acrescenta números: “Em 2009, quando o número de desempregados que acorreu aos centros de emprego ultrapassou os 690 mil, apenas 6387 decidiram aproveitar os apoios do Estado“. O mesmo jornal refere-se que o dito presidente gostaria que a proporção fosse mais elevada.

 Pois…  Veja-se o caso (que garanto ser verídico) dum desempregado que meteu um projecto ao IEFP para montar uma micro-empresa em Janeiro de 2009: a) segundo uma portaria qualquer, a resposta do IEFP teria de ser dada obrigatoriamente em 90 dias b) mas foi logo avisado de que esse prazo não era para valer (quer dizer, já se sabia que ia muito além de 90 dias), o que  implicaria o indeferimento do processo, mas, claro, tal nunca acontecia por essa razão c) 150 dias depois (mais ou menos) é chamado pela 1ª vez ao IEFP, só para entregar uma declaração ou outra em falta (irrelevantes para a apreciação do projecto) d) 270 dias depois (mais ou menos) recebe o indeferimento por inviabilidade económica.  (mais…)

arte contemporânea

Ontem, ouvindo um pintor e professor de pintura, homem conceituado do meio e desconhecido do grande público, soube que foi empurrado abandonou um projecto de criação/dinamização dum espaço artístico privado (exposições permanentes e não só) essencialmente por ter deixado “escapar” a mensagem de que o espaço e a entidade privada eram independentes das instituições políticas ou outras, o que lhe dava maior coerência para o desafio de se fazer algo do género numa pequena cidade a 20 km da grande cidade.

Por causa dessa “inconfidência”, quem mandava na dita entidade privada recebeu o recado da autarquia local de que “assim” não haveria disponibilidade para qualquer tipo de colaboração. Já teria havido um recado, tempos antes, de que determinado artista local de nomeada não seria visto com bons olhos se expusesse lá. Como o dito artista tambem não fazia parte das preferências do projecto-que-acabou-por não-acontecer (ainda que somente por questões estéticas), a coisa não mereceu demasiada importância.

Filosofando sobre o tema, o dito pintor-professor acrescentou mais esta informação, derivada desta (e outras experiências de vida): uma autarquia desconfia sempre das iniciativas privadas na área cultural, principalmente quando estas interpelam a câmara para obter algum tipo de apoio/colaboração/etc. Se a iniciativa privada contacta a câmara para poder usar um equipamento cultural da autarquia, tudo bem, é para isso que foi construído. E se a câmara tiver aprendido a lição daquela autarquia que passou a exigir o conhecimento prévio de todas as obras a serem exibidas antes, para não ser surpreendida depois (como aconteceu certa vez com a exposição de algo alegadamente-chocante-creio-que-um-corpo-meramente-nu), então está tudo perfeito.

Obviamente, diz ele, não se trata de dinheiro. Trata-se de nunca se colocar a câmara em cheque, de não se utilizar a câmara para promover artistas non-gratos, e de ninguém retirar louros com os apoios da câmara sem os dividir generosamente com esta. No fundo, no fundo, é a mera gestão do Poder e da sua perpetuidade longevidade.

Porque dinheiro para construir pavilhões, anfiteatros, multiqualquercoisas e outros pseudo-equipamentos culturais que depois minguam por falta de projectos, isso não faltará nunca (a menos que a crise obrigue…).

Por exemplo, veja-se aquela câmara duma grande cidade a norte que tem espaços para ceder aos artistas numa zona-património-mundial de graça. Mas os espaços estão vazios porque não há ninguém na dita autarquia que faça a gestão desses equipamentos, que os promova, que desafie os artistas (se é que os há) a ocupa-los e fazerem coisas…

contra-revolução?

"El éxito del proceso que ahora se inicia dependerá del aseguramiento político que desde el movimiento sindical y bajo la dirección del Partido los dirigentes sindicales demos previamente a las acciones que se deben emprender"(in Pronunciamiento de la Central de Trabajadores de Cuba)

Curiosa polémica aberta entre a Central de Trabajadores de Cuba e o “nosso” PCP, como se pode analisar nas páginas do Granma e do Avante, respectivamente: (…) En correspondencia con el proceso de actualización del modelo económico y las proyecciones de la economía para el periodo 2011-2015, se prevé en los Lineamientos para el año próximo la reducción de más de 500 000 trabajadores en el sector estatal y paralelamente su incremento en el sector no estatal. 

 El calendario para su ejecución está concebido por los organismos y empresas, hasta el primer trimestre del 2011. (…) Es conocido que el exceso de plazas sobrepasa el millón de personas en los sectores presupuestado y empresarial.  (…) Nuestro Estado no puede ni debe continuar manteniendo empresas, entidades productivas, de servicios y presupuestadas con plantillas infladas, y pérdidas que lastran la economía, resultan contraproducentes, generan malos hábitos y deforman la conducta de los trabajadores.  

Es necesario elevar la producción y la calidad de los servicios, reducir los abultados gastos sociales y eliminar gratuidades indebidas, subsidios excesivos, el estudio como fuente de empleo y la jubilación anticipada.(…) Para el tratamiento laboral de los trabajadores que en una entidad o puesto de trabajo resulten disponibles, se amplia y se diversifica el actual horizonte de opciones con nuevas formas de relación laboral no estatal como alternativa de empleo: entre ellas están el arrendamiento, el usufructo, las cooperativas y el trabajo por cuenta propia, hacia donde se moverán cientos de miles de trabajadores en los próximos años.  

(in Granma, sublinhados meus)  

Ou seja, e de acordo com as políticas neo-liberais (“menos Estado é melhor Estado”) e o revisionismo assumido por Fidel de Castro (‘O modelo cubano não serve nem para nós‘), a resposta à crise é feita à custa dos trabalhadores, da precariedade do trabalho, do retrocesso das condições de vida da grande massa trabalhadora (neste caso, tantos os “velhos” como os “jovens”). Como não podia deixar de ser, o PCP soube dar a resposta no momento e no tom certo: “Política de direita com resultados à vista  

Com esta política, nem se combate a crise, nem se resolvem os problemas nacionais que assumem uma nova e mais preocupante dimensão. O resultado está à vista no elevadíssimo desemprego, que permanece a níveis nunca antes atingidos e sem perspectivas de inversão; no prolongamento da estagnação económica, com destruição da capacidade produtiva nacional, no empobrecimento relativo do País (…); na persistência dessa larga mancha de pobreza (…). Mas igualmente na amplitude da precariedade das relações laborais, que está a contribuir, juntamente com o desemprego, para o acelerado retrocesso das condições de vida da grande massa trabalhadora, particularmente dos jovens.” 

(in Avante, sublinhados meus)

sangue e arena

Qual é a diferença entre matar um vitelo no matadouro para fazer hamburgueres ou cortar bifes e matar um touro em local público para gáudio da assistência?

Eu já suspeitava que havia alguma, mas agora tenho a certeza: “a morte do touro constitui um símbolo da cultura da população” (in Expresso)

Imagino o simbolo cultural e o seu valor na formação de quem assiste ao espectáculo: “O touro foi este sábado à tarde abatido ilegalmente na vila medieval de Monsaraz, concelho de Reguengos de Monsaraz, no final de uma novilhada popular, cumprindo uma tradição reivindicada pela população local. O golpe fatal foi desferido cerca das 19:45, depois de o touro ter sido laçado e preso ao muro da arena improvisada, na antiga praça de armas do castelo de Monsaraz, histórica povoação localizada nas margens da albufeira de Alqueva. O abate do touro não foi presenciado pela assistência que enchia o castelo (perto de 2000 pessoas), por o animal ter sido coberto com um pano escuro.” (in IOL Diário, sublinhados meus)

Se bem que eu ainda tivesse a ilusão da morte do bicho na arena, num frente-a-frente entre el matador e el toro recriando uma espécie de duelo cósmico.

Afinal, para evitar desnecessárias burocracias policiais e coimas acrescidas, é suficiente encurralar e atar o bicho a um canto, cobri-lo a ele e aos valentes matadores com um púdico pano opaco, e matá-lo de forma anónima e discreta. Como num vulgar matadouro improvisado. Mas com o valor cultural acrescido deste acto encoberto e sem glória ser assistido por centenas, milhares de pessoas, que se sentem assim salvaguardadas na sua grandeza cultural.

Ou seja, se bem entendi: o importante é que corra sangue à vista de todos. Bem-hajam!

Claro, sempre haverá alguns que discordam ser esta uma lição de civilização para as criancinhas, como posso ler numa caixa de comentários de outro blogue a propósito do mesmo assunto: “Para min, a razón de prohibir as touradas teñen un calado ético/cultural moito máis fondo, tanto como o de abolir un espectáculo relacionado coa morte” (F. Míguez in Apunta, para non esquecer).

"Tu estás louca, Jessy!...louca, louca, louca!"

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