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Archive for Agosto, 2010

“la loi totalitaire qui ne reconnaît aucun droit au choix personnel”

“Jeûner toute la journée, sans avoir même le droit de boire un peu d’eau, et ce pendant un douzième de l’année, constitue un exercice de privation radical et relève d’un ascétisme religieux de haut niveau que rien ne justifie d’ordonner à l’ensemble d’une communauté”. (Abdennour Bidar in Le Monde)

douro natural

 

 

 A criação da Reserva Natural Local do Estuário do Douro pela Câmara de Gaia é uma iniciativa que pode ainda dar polémica entre aqueles (que são muitos) que frequentam este espaço desde sempre. Nada que uma campanha de sensibilização não possa resolver, utilizando exemplos e raciocínios de fácil entendimento como o artigo abaixo citado a propósito duma outra situação:

Este é o real valor da biodiversidade. O conjunto de espécies que existia na região – sua biodiversidade – forneceu os seres vivos que estão reconstruindo o ecossistema abalado pelo homem. Este exemplo demonstra como é difícil prever como um ecossistema reage quando agredido. (Fernando Reinach in Estadão)

jornalismo comprometido

Pela mesma lógica do Expresso, a não-construção da barragem do Côa e a criação do Parque Arqueológico do Côa não melhoraram as acessibilidades, não tornaram o Douro "tão conhecido e visitado como agora é"...

De facto, como Carlos Romão denuncia (ver link mais abaixo) , há um “exercício contorcionista que não passa de um um frete à estratégia da EDP, de apropriação da água dos rios do norte para no futuro a comercializar através de transvases no sul do país” neste trabalho assinado por Vítor Andrade e Liliana Coelho:

“Com a construção das várias barragens que o Douro hoje tem o nível das águas subiu, fizeram-se estradas e melhoram-se as acessibilidades, tanto para os locais como para os turistas – ficou mais fácil circular junto ao vale do Douro vinhateiro, hoje património da humanidade.

Será que se não tivesse havido esta evolução e os investimentos que se fizaram nas barragens, o Douro hoje teria a importância que tem? Seria tão conhecido e tão visitado como agora é? Questões que ficam e que dividem opiniões.

Uma coisa é certa e garantida já por decreto governamental, com a chancela do Ambiente. As barragens de Foz Tua e do Sabor vão ser uma realidade. A paisagem vai mudar. Mas o país fica com mais energia verde e com novas acessibilidades junto a esses empreendimentos. Quem é que fica a ganhar? Todos ou só alguns?”  (in Expresso)

Na verdade, este é bem um exemplo duma coisa que é uma coisa que é outra coisa. Carlos Romão desmonta a propaganda:

A energia dita “verde”, a produzir pela hipotética barragem do Tua, corresponde a menos de 1% das necessidades nacionais, o que, posto no prato da balança, com a destruição da paisagem e da linha ferroviária do Tua, que a barragem implicará, vale ZERO.

 Se as barragens trouxessem riqueza e desenvolvimento para as regiões, como afirma o Expresso, Trás-os-Montes não seria a região mais pobre e menos desenvolvida do país. A riqueza produzida pelas barragens transmontanas – comandadas à distância – paga impostos ao estado central no sul e é lá que cria postos de trabalho. Até a derrama, imposto municipal, é paga à… Câmara Municipal de Bragança? Não! A derrama é paga – pasme-se – à Câmara Municipal de Lisboa.

E o Expresso, descarado, ainda pergunta, “quem é que fica a ganhar, todos ou só alguns?”. (Carlos Romão in A Baixa do Porto)

A finalizar, remete para o post no Aventar “A honestidade intelectual do Expresso”:

(…) e ao contrário do que o texto advoga, os “investimentos em barragens” não foram o sinónimo de se terem feito estradas “e melhoram-se as acessibilidades” porque muitas das estradas ribeirinhas (naturalmente sinuosas – são centenárias embora não tão antigas como o caminho-de-ferro). Portanto, se “ficou mais fácil circular junto ao vale do Douro vinhateiro, hoje património da humanidade” tal se deveu muito, e na maior escala, à chegada do comboio e não às barragens. (Dario Silva in Aventar)

Acrescento eu, ignorante em economia e desenvolvimento, que me parece muito traiçoeiro comparar a necessidade de construção das barragens no Douro nas décadas de 50 a 80 do sec.XX com a necessidade de construir  barragens no Sabor e no Tua em 2011. Mas se me parece é só porque, na minha falta de entendimento, o desenvolvimento e a economia portuguesa da altura e a de hoje não são comparáveis…quer se dizer, comparáveis são, os problemas e as soluções é que não serão os mesmos.

silly season

Lamenta-se um padre-cura que o declínio do número dos alunos para a disciplina de Religião e Moral Católica tenha várias causas,  “la causa primera y principal no es precisamente la actual legislación, sino la falta de interés, la comodidad, la adaptación al ambiente, cuando no la irresponsabilidad de muchos padres y alumnos, que anteponen otros intereses, cuando no la comodidad, a una buena formación cristiana“(in Público). E ameaça com um tenebroso futuro do início da época escolar sem a caridosa disciplina.

Quando Deus morreu, por volta do sec.XIX, muitos lhe sentiram a falta, mesmo entre aqueles que o mataram: a liberdade e a responsabilidade, abrindo novas possibilidades, ainda assustam mais do que atraem, é verdade. Talvez por isso, o bom do padre-cura explore a culpa e a insegurança, apontando a dedo “a comodidade”…uma outra forma de dizer prazer

E a sociedade, irremediavelmente laica, acaba por concordar à sua maneira: falta de idealismo, de civismo, de ética e de espírito de sacrifício trabalho. Como se fizessem falta umas palmadas de quando em vez e sopinha a todas as refeições.

Para antídoto a todo este pessimismo, já o sábio louco alemão insistia nas virtudes da dança, do riso e do jogo. Mas, evidentemente, é preciso ser criança para criar um novo mundo.

Para não deixar pedra sobre pedra

 Para saber mais, ler aqui.

Entretanto, deixo esta sugestão via Manuel A. Pina no JN O protesto está marcado para as 18 horas, no Largo Camões. Eu teria preferido a sugestão do leitor de um dos blogues que divulgaram a iniciativa: levar à embaixada do Irão um monte de pedras conformes ao artº 104º do Código Penal iraniano, isto é, “não tão grandes que matem à primeira nem tão pequenas que não mereçam a classificação de pedras”.

horas antigas

Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. (in Grande Sertão: Veredas)

coisas de bicho do mato

Mais duma vez, nas minhas caminhadas por serras e matas, tenho ouvido o ladrar de cão em locais onde o pobre animal só pode andar perdido (porque muito longe de casa), pensava eu. Cão de pastor não é, porque nem sinais de rebanho, nem cão de guarda ladra assim. Menos ainda cão de caça.

Até, recentemente, visitar este site. Mais concretamente aqui, onde voltei a ouvir o tal cão…

Por falar em cão, uma vez julguei descobrir pegadas de lobo nas margens do Lima. Enviei as fotos ao Miguel Barbosa do Fauna Ibérica que, sem me conhecer de lado algum, tirou-me a ilusão e deu-se à maçada de me explicar as diferenças entre a pegada dum cão da dum lobo.

 

São sites assim que fazem valer a pena surfar na Net.

Lasting words

“No longer free to exercise it, I appreciate more than ever how vital communication is: not just the means by which we live together but part of what living together means.

The wealth of words in which I was raised were a public space in their own right – and properly preserved public spaces are what we so lack today. If words fall into disrepair, what will substitute?

They are all we have.”

(Tony Judt in Guardian)

in memoriam

Memory, forgetting, and history are all important. When I write as a historian, I see that forgetting, for example, worked wonders in stabilizing postwar Europe. (…) as a historian, I say this is why forgetting worked, but as an engaged citizen I must say this is also unacceptable.
(…) No society, however, can live indefinitely with the weight of impossibly painful memories constantly being dragged into the public sphere. No society can move past those memories until it has addressed them.” (Tony Judt in Historically Speaking: the Bulletin of The Historical Society)

“distintas visões de futuro”

(…) O fato é que se me perguntarem, como me têm perguntado, o por quê da permanência de Casa Grande & Senzala, ou mesmo de Sobrados & Mocambos, direi, sem exclusão de outros motivos, que entre eles prima a forma como foram escritos.

 Palavras bem escolhidas. Frases concatenadas, graça no discorrer dos temas, de tal modo que a vasta erudição do autor e a imensidade das notas e citações são como papel de embrulho chinês ou como as caixinhas que os japoneses usam para dar um quê de mistério encobrindo os delicados presentes que oferecem.

(…) Freyre achava que além de tomar em conta o passado e ver como ele se reproduzia ou se modificava no presente, as análises deveriam incluir as orientações e visões que os homens anteviam e como vislumbravam o futuro (…) há tempos co-existentes, tempos menos cronológicos do que psicológicos e que a inter-subjetividade é parte constitutiva da realidade. Esta tanto é dada como é imaginada pelos atores sociais.

Mais ainda, quando passa dessas considerações abstratas para a cronologia, procurou definir as épocas como sendo compostas por quatro gerações. Resumindo, diz nosso autor: “o tempo do relato literário e sociológico tipicamente brasileiro parece dever corresponder a situação mais complexa de entrelaçamento na consciência do brasileiro dos três tempos: o presente, o passado e o futuro.

(…) Faz-nos recordar também que não existe uma “realidade” dada. Nas sociedades, de certa maneira, tudo é processo, ora mais estável, ora se desfazendo, ora se refazendo, mas sempre guiado por distintas visões de futuro.” (Fernando Henrique Cardoso sobre Gilberto Freyre in Estadão)

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