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Saramago

O êxito de Saramago como escritor e icone cultural é um fenómeno interessante se pensarmos que a sua escrita não é fácil (e diria eu intraduzível), com temáticas alheias às tendências dominantes. E sendo português. E sendo velho quando se tornou famoso.

Sobre ele parece não haver meio-termo: a paixão (ou reverência) dos que o apreciam, mesmo sem nunca o ter lido; o ódio (ou a raiva) dos que não o suportam, principalmente nunca tendo lido nada que escrevesse.

Da inveja, não há muito a dizer: ter êxito, êxito literário, neste rectângulo pequenino onde tantos se acotovelam e põe-se em bicos dos pés, ou se desfazem em vénias e mesuras, é realmente uma injustiça insuportável. E a inveja nunca matou o invejoso, pois é alimento que aguça o espírito.

Assim como o vício das carpideiras, sempre atentas a quem aparece e a quem não aparece aos funerais, sempre críticas às formas alternativas de luto, sempre alheias ao legado do morto que não se contabilize em tostões e honrarias: também elas se alimentam de missas, sermões e marchas fúnebres.

Ainda há esperança para um país, quando um escritor é capaz de causar tanta perturbação.

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Comentários a: "Saramago" (4)

  1. Muito bom texto sobre a mentalidade dos nossos conterrâneos, Pepe!

    Não sou apaixonada de, nem odeio Saramago. Limito-me a constatar aue tenho uma lacuna nas minhas leituras e que devia ter dado mais atenção aos romances e poesia deste grande Homem português. Com tendência para ler mais obras estrangeiras – por razões profissionais e por gosto, a literatura portuguesa tem-me passado bastante ao lado.Mea culpa…

    Bjo

    • Isto das “lacunas” é um complexo que não tem razão de ser no sec.XXI, Virginia.

      Na década de 80 do século passado ainda era possível ter a ilusão de se abarcar um “cânone” qualquer de obras literárias (ou outras), mas isso era derivado da medida curta do panorama editorial português e duma herança cultural europeia caída em desuso.

      Já cheguei à conclusão (muito óbvia) que a TV foi o maior inimigo da leitura, suplantada depois pelo uso acrítico da Internet. E os dias continuam a só ter 24h.

      Para quem esteja cansado de perder tempo com novidades anunciadas com pompa, para logo na abertura se constatar a banalidade do texto, o recurso às re-leituras acaba sempre por ser mais proveitoso. Isto já é sabedoria de leitores de épocas remotas.

      E depois, na verdade, há tanto livro bom por descobrir…

  2. Gostei do teu texto e se não te importas vou levar para outros lados!

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