novidades e outras coisas

Archive for Março, 2010

“Tem de todas as coisas”

Vivendo, se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas. (in Grande Sertão: Veredas)

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rio abaixo

A seta indica a localização do restaurante, visto do molhe novo.

Há dias, postando a própósito da destruição dum restaurante construído junto à foz do Douro, nos molhes, atribuí a responsabilidade ao mar. Mas não é só a culpa do mar. Também o rio tem culpas…e logo este rio!

Esta é a definição para as “cheias extraordinárias”: “Na foz do rio designam-se cheias extraordinárias as cheias que ultrapassam a cota dos + 6,00 m, Z.H., medidos junto à ponte de D. Luis, na margem direita, por serem aquelas que galgam o cais da Ribeira (cota + 5,90 m), embora quando isso sucede, já Miragaia está inundada (+ 4,19 m)”. (in INUNDAÇÕES DO RIO DOURO: DADOS HISTÓRICOS E HIDROLÓGICOS por Cristina Aires, Diamantino Insua Pereira & Teresa Mira Azevedo)

Segundo o mesmo estudo, há “cheias extraordinárias” de 10 em 10 anos. Espantoso? Nem por isso, o Douro sempre teve fama de ser temperamental e violento (será do vinho?).

O que é mesmo espantoso será gastar-se dinheiro (de quem?*) a construir um restaurante neste local. Ou, mais espantoso ainda, continuar interessado em gastar dinheiro e repetir a graça. Para chegar ao fim e se surpreender sempre com o resultado. E já nem discuto o rigor dos estudos de impacto ambiental, a confiança de quem nos assegurava que as derrapagens orçamentais são imponderáveis inevitáveis ou de todos aqueles que nos sossegam dizendo que as “simulações e estudos que se fizeram, que levam a concluir que não se vai verificar aquilo que certas vozes dizem por aí“.

* Pinto Ferreira [presidente da junta de freguesia da Foz], referindo-se aos cerca de 40 milhões de euros que custou a obra, critique que “os dinheiros públicos tenham sido mal aproveitados” (in JN) 

Tirada do mesmo local, vista para sul e para o molhe do Cabedelo

E esta é a vista da cidade, do lado norte do molhe novo, num dia normal.

 
 

 

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guerras mundiais à porta de nossa casa

Ainda a propósito da “informação que temos direito“, leio hoje o artigo de TGA abaixo citado. Há uma guerra tecnológica já em movimento e é tudo menos claro o seu desfecho. Para além do interesse dos regimes políticos autoritários em se defenderem da opinião alheia, existem nos países com liberdade de expressão uma percentagem variável (mas significativa) de pessoas  que apoiam activamente a limitação dessa mesma liberdade; por outro lado, o desafio tecnológico exige criatividade e, portanto, liberdade. Assim como a liberdade é um anseio pessoal que não se restringe a nenhuma época ou cultura.

In thinking about the way information is supplied to us, we have, it seems to me, four possible approaches:

 (1) the state I live in decides what I can and cannot see, and that’s OK;

 (2) the big companies I rely on (Google, Yahoo, Baidu, Microsoft, Apple, China Mobile) select what I see, and that’s OK;

(3) I want to be free to see anything I like. Uncensored news from everywhere, all of world literature, manifestos of every party and movement, jihadist propaganda, bomb-making instructions, intimate details of other people’s private lives, child pornography – all should be freely available. Then it’s up to me to decide what I’ll look at (the radical libertarian option);

(4) everyone should be free to see everything, except for that limited set of things which clear, explicit global rules specify should not be available.

 (Timothy Garton Ash in Guardian)

Por coincidência, MMC também fala dum outro confronto: o do desenvolvimento sustentável.

A utopia ecológica, que procura estabelecer regras universais que garantam o equilíbrio do planeta – e que sofreu um grande revés com o fracasso de Copenhaga. A utopia tecnológica, que aposta sobretudo em “esverdear”o crescimento, acreditando que a humanidade acaba sempre por encontrar soluções técnicas para os seus problemas, nomeadamente para aqueles que decorrem das crises de escassez.

E a utopia antropológica, que procura estimular uma reflexão de fundo sobre o modo de vida das nossas sociedades, as raízes e os efeitos da extrema dependência em relação ao hiperconsumo nos modelos de vida hoje dominantes. Como bem diz Cohen, esta é a utopia decisiva, porque é ela que “obriga a que nos interroguemos sobre o que há de mais inessencial na civilização material que o Ocidente exportou para o resto do mundo, e a questionar os fundamentos das nossas sociedades”.

 (Manuel Maria Carrilho in DN)

E quem julga que os confrontos são distintos, talvez se engane…

opinar ou não opinar…

A propósito do meu post sobre a greve de fome e os protestos pela liberdade em Cuba, F. Míguez suspende cartesianamente o juízo sobre a veracidade das informações que lhe chegam de Cuba e Venezuela:

Só podo opinar polo que leo e me contan nos medios, pero como uns medios tiran para un lado e os outros… contra ese mesmo lado ¿cómo podo saber se o que sei e certo, para poder opinar?” (F. Míguez aqui na caixa de comentários)

Bem, Míguez, a minha leitura dos media é selectiva e dou créditos aos títulos que reservam amplo espaço à polémica, aos debates e estudos onde possa verificar fontes, autores, testemunhos, critérios. Depois gosto de cruzar a informação entre diversos títulos e fontes, comparando estilos e metodologias. A consistência da informação pode ser reforçada (ou não) ao longo do tempo com o avolumar de assuntos tratados neste e naquele media que sigo. Além do mais, muita da informação/opinião tem uma assinatura e um rosto. Para mim não é difícil aceder a informação sobre Cuba ou à propaganda ferozmente pró/anti-castrista.

Ora, o que me posso aperceber é que em Cuba é muito complicado ter acesso a opiniões públicas críticas ao regime, e percebo isto pela simples consulta da imprensa on-line cubana. Essa é a questão de fundo para me elucidar sobre a natureza dum regime, não me comovendo as justificativas clássicas de que ou somos pela Pátria-Revolução-Deus-Grande Líder ou somos contra (e nesse caso ficamos sob suspeita de prestarmos serviço a outra Entidade). Basta ler o Granma para perceber a mentalidade autoritária do regime castrista, não tendo qualquer dúvida dos perigos que qualquer opositor corra num país assim.

Sobre o falecido Orlando Zapata Tamayo leio no Granma que se tratava dum criminoso comum “amamentado” por embaixadas estrangeiras (haviam de ser embaixadas cubanas, no?!). Verdade, mentira? A verdade é que o homem seguiu com a greve de fome até ao fim. A greve de fome não concede “santidade”, a posse da verdade ou o monopólio do sentido de justiça a quem está disposto a leva-la às últimas consequências, mas dificilmente se encaixa no perfil dum mercenário. Porém, se eu vivesse em Cuba essa é a informação que teria “direito”.

E quando vejo as manifestantes serem acossadas por “milícias populares” por se exprimirem contra o regime, como posso suspender o juízo quanto à luta que ali se trava? Pior ainda, só mesmo a cobertura “jornalística” na televisão cubana…

tudo à molhada

Pode ser que por não entender nada de nada sobre quase tudo em geral, o erro seja meu. Porém, reconheço que isto de construir encima da linha do mar, num local tão afamado como a foz do Douro (marés-vivas, cheias, naufrágios…), ainda por cima num local que se chama “molhes” só poderia dar no que deu: meter àgua.

 

Fui à Wikipédia buscar esta definição de “molhe”: 

Um molhe é uma obra marítima de engenharia hidráulica que consiste numa estrutura costeira semelhante a um pontão, ou estrutura alongada que é introduzida nos mares ou oceanos, apoiada no leito submarino pelo peso próprio das pedras ou dos blocos de concretos especiais (tetrápodes ou outros), emergindo da superfície aquática. É, portanto uma longa e estreita estrutura que se estende em direção ao mar, mas não deve ser confundido com os píeres.

Necessariamente uma ponta do molhe se situa no mar e a outra ponta do molhe em terra. Se as duas pontas da estrutura forem no mar trata-se de um quebra-mar, e se as duas pontas forem na terra, trata-se de um dique.

Claro, arquitectos, engenheiros, e tantos outros decidiram que se ali ficava bem um restaurante, uma galeria, etc e tal, é porque fica mesmo bem. Entretanto, gastam-se uns dinheiritos, uns dizem que a situação é excepcional, outros que estão surpreendidos, outros ainda prometem acionar garantias. Moral da história: a culpa é do mar.

“delitos” de opinião

"Pela libertação imediata e sem condições de todos os presos políticos das prisões cubanas" in Petição

  

Para que servem os abaixo-assinados? Se tiverem alguma amplificação mediatica, no mínimo chateiam. No caso deste que aqui subscrevi, é o mínimo que se pode fazer em prol de quem vive uma situação insuportável. Um texto duro, factualmente exacto, apontando responsáveis, é salutar e passível de discussão.     

Nem tenho a inocência dos anos 70-80 do sec.XX, em que havia a postura políticamente correcta de criticar os Estados Unidos sempre que se criticava a União Soviética. Há sistemas políticos que foram concebidos para se autoregularem e sistemas políticos concebidos para regularem os outros. A tortura institucionalizada pela Administração Bush foi denunciada e combatida no interior do próprio sistema político norte-americano, enquanto em Cuba os donos do Poder têm o mesmo nome há mais de 50 anos e não concedem o direito ao contraditório, quanto mais à independência do poder judicial.    

Há dias qualifiquei de “ridículo” outro abaixo-assinado a propósito do mesmo drama dos presos políticos cubanos, dirigido à Embaixada de Cuba. De facto, não tenho pachorra para os arranjos florais de textos que procuram não ferir sensibilidades ideológicas. E ainda me deixo surpreender com a obscenidade, a propaganda acéfala e insultuosa.     

Porque, na realidade, o meu critério não está em escolher entre os bons e os maus. Prosaicamente, avalio um sitema político que permite aos leitores de jornais ler isto “No es iluso pensar que el extraño privilegio de Cuba, Venezuela, Irán o la República Popular China en las Resoluciones del Parlamento Europeo, persiguen un objetivo común: cuestionar la política interna y exterior, magnificar los problemas de países cuya trayectoria progresista, desarrollo económico o política diferenciada, “preocupa” a quienes dictaminan qué puede o no hacer cada quien en uso de su soberanía nacionale, por contrapartida, ler isto “Si algún país del mundo tiene un verdadero programa para lograr la reeducación del hombre y su reinserción en la sociedad, ese es Cuba, en cuya concepción y puesta en práctica desempeñó Fidel un papel protagónico “. E para variar, ainda ler que “el Parlamento Europeo acaba de aprobar, luego de un sucio debate, una resolución de condena contra nuestro país que manipula sentimientos, tergiversa hechos, esgrime mentiras y oculta realidades“. Ou seja, podendo todos assim concluirem livre e ajuizadamente que “Exceptuando a sus familiares y a los médicos, ninguno de sus afines en las actividades políticas contra el Gobierno de Cuba fue a los hospitales a pedirle a Zapata Tamayo que abandonara la huelga, nadie le dijo que desistiera porque peligraba su vida, esas imágenes no existen“.   

actualização do fim de dia:   

 

   

Cerca de 30 Damas de Branco, grupo que reúne mães e mulheres de presos políticos cubanos, foram detidas pela polícia quando efectuavam um desfile no bairro de Párraga, em Havana, e metidas à força em dois autocarros.(in Publico)   

Estava presente no desfile a mãe de Zapata Tamayo…  

  

  

“Dizer isto não basta, todavia. “

(…) Ora são maus porque não são políticos, mas delinquentes de direito comum; ora são péssimos porque assumem posições políticas nefandas.A conclusão, escondida mas com o rabo de fora, é que a ditadura não reconhece a diferença entre a criminalidade e a oposição política. O que é motivo bastante para nos solidarizarmos com os perseguidos. (Miguel Serras Pereira in Vias de Facto)

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