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Sou daqueles que sempre (sempre no sentido de até um dia) viram no professor um chato e uma figura de autoridade a contestar, em grande parte por imaturidade, em boa parte por ter professores chatos e sem capacidade de diálogo. E também conheci todo o contrário disto, assim como também o tempo ajudou-me a entender porque há tanto problema na relação entre o professor e os alunos.

"Algém quer colocar alguma questão? Não? Bem, desde que toda a gente esteja, pelo menos, apática, podemos prosseguir."

Independentemente da mediocridade das pessoas, todo o sistema de ensino condiciona professores e alunos a uma relação estéril que só a qualidade duns e de outros pode conjugar numa inversão radical dessa experiência. Como pai duma aluna actualmente no 12º ano, tenho acompanhado a evolução dos tempos e não me sinto optimista, embora observe o esforço duma escola, de seus professores e de seus alunos, em serem uma comunidade empenhada.

Identificar as causas é sempre um exercício obrigatório, geralmente difícil. Principalmente porque extravasam o simplismo da relação professores/alunos. No fundo, é uma questão cultural da sociedade (ou seja, toca a todos). E, como tal, política (que, ao contrário do senso comum, ultrapassa largamente o âmbito do Estado, dos partidos e dos governos). Porém, qualquer análise passa por identificar aspectos concretos que permitam hierarquizar problemas, identificar responsabilidades, adiantar soluções possíveis.

O longo e desgastante conflito recente entre professores e governo levantou uma série de problemas que ultrapassam a esfera do ensino, mas concentra a atenção, naturamente, no papel da Escola. E quando penso na “Escola” penso na comunidade local, ou seja (politicamente falando), na Autarquia.

Os professores foram o bombo da festa (o bode expiatório, para ser mais erudito) de muitas opiniões espontâneas e outras bem estruturadas (e nem por isso correctas). Agora que se levantam questões sobre o parque escolar (que afinal é uma EPE e não uma ideia geral como ingenuamente pensava) tal como os levantados por Santana Castilho (no Publico de hoje), e donde destaco a contradição da autonomia das escolas apregoada no mesmo instante em que se lhes retiram competências de gestão, o problema tem raiz política inequívoca e objectiva.

Sem nunca esquecer o impacto que isso tem no desempenho dos professores, como leio aqui: (…) acabo de corrigir 74 testes, tendo havido 8 positivas. Tenho perfeita noção que, à luz do sistema e independentemente da falta de bases e métodos de estudo dos alunos e da sua falta de atenção, esforço e empenho, a responsabilidade destes resultados é minha e só minha, por não os ter motivado convenientemente. Mas, claro, é fácil obter a redenção. Basta que assuma o meu pecado e premeie o fraco desempenho com óptimas notas, contribuindo para o “sucesso” educativo português .

Se lhe dou crédito, é porque reflecte em detalhe o que vou me apercebendo como encarregado de educação ao longo destes últimos 12 anos.

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Comentários a: "entre a cultura e a burocracia: o ensino" (3)

  1. Obrigada Pedro pelo seu testemunho que refiro na última mensagem que coloquei no meu blogue
    Um abraço
    Regina Gouveia

    • Eu é que agradeço a distinção, Regina.

      Entre muitas outras questões, é importante assumirmos o que pretendemos para professores na nossa Escola: pedagogos ou mero funcionários.

      Recordo sempre com vergonha ir à escola da minha filha para increve-la no 11ºano e estar lá a directora de turma a fazer a triagem da documentação, em seguida fazer-me o balanço do 10º ano da turma e da aluna, tendo uma fila de pais atrás de mim, para depois ter de me colocar num balcão para proceder à inscrição, propriamente dita, onde fui atendido pelas funcionárias administrativas competentes. (ler aqui o post que escrevi sobre este episódio)

      A minha vergonha, pode imaginar, foi a de assistir à degradação das funções da directora de turma, à irrelevância dada à informação que é da sua competência e a que dou toda a relevância.

  2. Num artigo no nosso site, tomámos a liberdade de incluir um link a este artigo. Pode verificar aqui: http://www.manualescolar2.0.sebenta.pt/projectos/sebenta/posts/242.
    Aproveitamos a ocasião para convidá-lo a visitar o nosso site.
    Todos os comentários e sugestões são bem-vindos. Estamos à sua espera!

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