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triste fado

O enredo parece ser recorrente em Portugal: o Estado gasta demais e mal, sobrecarrega os contribuintes, continua a gastar demais e mal e volta a sobrecarregar, etc e tal… . De tanto em tanto tempo surge um balão de oxigénio, uma miragem, reais oportunidades (que se perdem mais adiante). E governantes autoritários, “esclarecidos”, que impõe uma qualquer disciplina de contenção, a sucederem a uma série de outros que “nada fazem” ou “deixam fazer tudo”, para depois serem sucedidos pela continuação da mesmíssima série. 

Culpamo-nos todos uns aos outros: aos portugueses por sermos como somos, à Igreja e à Inquisição, às Descobertas e aos velhos do Restelo, a Castela e a Espanha, à pérfida Inglaterra e à Comunidade Europeia, aos patrões e aos sindicatos, aos produtos chineses e aos imigrantes, à Monarquia e à República, aos 48 anos de fascismo e ao 25 de Abril, às reformas por fazer na Educação-Saúde-Justiça e à legislação feita a torto e a direito, à chuva de Inverno e à seca do Verão. 

Dos discursos dos vencidos da vida aos anúncios das novas oportunidades, uma doença bipolar parece afectar os ciclos do país. Ora, num mundo crescentemente multipolar e numa comunidade europeia tendencialmente amorfa, com a economia ferida duma crise estrutural e de longa duração, alguma coisa se pode fazer sempre e para melhor mas na condição dum balanço realista e de aceitar que muita coisa tem de mudar para pior agora. 

Muitos dos que enchem a boca com lições e pregões sobre “ganhos de produtividade”, “aumento de eficiência”, “investigação&desenvolvimento”, “fazer melhor leis”, “cortar ao despesismo”, e outras grandes ideias, são gente que trabalha na política, nas finanças, na justiça, no ensino, mas nem por isso lhes merece a pena explicar a discrepância entre o que fazem, o que falam e o que acontece. 

Noutros tempos, este seria o cenário ideal para o Homem-Providencial. Felizmente, vivemos num canto do universo (a Europa Comunitária) onde outras soluções podem aparecer sem se colocar em perigo os ganhos civilizacionais das últimas décadas: a sociedade democrática com liberdade de expressão, direito à oposição e gestão pacífica dos conflitos. 

Como bom português, direi: aguardemos, então!

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Comentários a: "triste fado" (2)

  1. Peores somos os galegos, que dicimos “éche o que hai”.
    Certamente, ía lendo e ía dubidando de qué parte da península estábamos a falar, porque a descripción vale perfectamente nos dous lados da raia.
    Comparto o optimismo de que as sociedades democráticas poden vivir sen “Homem-Providencial”, pero vexa vostede a cobertura feita polos medios (polo menos polos medios españois) sobre a campaña e elección de Barack Obama, e dígame se de verdade estamos vacinados de ese risco.

  2. “É o que temos” ou “é o que a casa gasta”, Miguez, em galaico-português do sul do Minho.

    A mentalidade é a mesma porque somos a mesma gente e mal nos damos conta, e esse é um problema estrutural que enfraquece nossa auto-estima e potencial de desenvolvimento.

    Fica mais fácil reduzir as opções entre A/anti-B ou B/anti-A, e quando uma opção ganha ela própria é vítima das expectativas simplistas e facilmente decepciona quem espera milagres ou respostas rápidas.

    À semelhança do que se passa com aquelas pessoas que tomam medicamentação para perder peso em poucas semanas sem alterarem comportamentos e estilos de vida.

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