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acordo ortográfico

Compreendo que para os académicos da Língua, o Acordo Ortográfico seja um assunto de crucial importância para o bem ou para o mal. Aceito que seja um modo satisfatório de contrariar a ramificação natural desse ramo de tronco latino que é o galaico-português. Ou que seja um modo de potencializar a afirmação da língua portuguesa no uso internacional. E que o faça ao arrepio de certas normas e com resultados caricatos. Mas imagino que não hajam soluções perfeitas e estou certo de que nunca houve uma política de promoção da língua por parte de Portugal (então, o Brasil que assuma esse papel!). Como disse alguém: “Falta definir quem manda na língua.”

Também imagino que os utentes linguísticos portugueses irão embirrar com tudo que lhes desagrade na mudança. Com a profundidade e coerência como habitualmente falam de qualquer assunto.

Pessoalmente, irrita-me mais é o acefalismo com que se incorporam estrangeirismos (tipo “por defeito” como quem diz “por definição”), bestialidades como o aportuguesamento deselegante de nomes estrangeiros (recordo aquelas edições da primeira metade do século passado tipo “Oliveiros Twist” de Carlos Dickens) ou polémicas obtusas sobre o modo como escrever Corão/Alcorão. E nada disto passa pelo Acordo.

Outra coisa é ter sensibilidade à grafia: Pessoa recusava que “lírio” pudesse significar alguma vez o “lyrio” e leio agora que Sophia preferia “dansa” a “dança”. Ou ter noções filológicas suficientes para se arrepiar com a ideia de que os “fatos” passem a ser relevantes na condenação de alguém em tribunal. Pelos vistos, passará a haver uma norma facultativa. Facultativa?! Fica difícil entender o interesse dum Acordo se é para se ficar pela sugestão duma norma.

Infelizmente, as melhores intenções dos defensores/opositores do Acordo serão de pouca valia se os portugueses não cultivarem a Língua, continuando a serem simples usuários pouco informados das regras, dos fundamentos dessas regras e serem, principalmente, frugais apreciadores dos seus condimentos e cozinhados. É verdade que sem paladar a língua ainda é um órgão útil, mas em vias de degenerar numa língua de trapos ou numa língua de pau.

Porque, ainda mais importante do que as letras, é aquela “flôr nativa e fresca” que Camilo atribuía a certa Morgada de Romariz:

A respeito de soletrar, a morgada recebia cartas de um amanuense da camara de Barcellos; mas só abriu sete que ajuntára quando uma costureira lh’as leu. Felizarda creara-se sem lettras, e vivia, a respeito de litteratura, como as raparigas gregas antes de Cadmo, filho de Agenor, introduzir na Grecia o alphabeto phenicio; mas, em compensação, tinha muita flôr nativa e fresca de acres aromas n’aquelle afflante seio, e folgava de ouvir trovas de chula e desafios de cantares em que ás vezes a phrase estava pedindo a intervenção da policia. (A Morgada de Romariz, de C.C.Branco in Projecto Gutemberg)

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Comentários a: "acordo ortográfico" (1)

  1. AUREMÁCIO CARVALHO said:

    VOLTO A REPETIR: A NOSSO HERANÇA CULTURAL É MUITO SUPERIOR A QUESTÕES MENORES, PROVINCIAIS. INTERESSE A DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA- AFINAL, SOMOS CERCA DE 300 MILHÕES DE FALANTES.

    VAMOS FAZER DE 2010, O ANO DA LÍNGUA PORTUGUESA.

    ABRAÇOS DO BRASIL

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