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imagens saídas do baú

Por altura dos meus 17 anos (1979), o Serviço Militar Obrigatório (SMO) era um cenário futuro insuportável. Não porque houvesse uma guerra algures em África (situação que havia existido cinco anos atrás). Não porque me horrorizasse o recurso às armas e à força para a legítima defesa.

Mas, em 79, o SMO era uma coisa bafienta e sem sem sentido, reunindo o pior das praxes académicas (que ressurgiram por essa altura, curiosamente) ao pior dum poder legal para punir aquilo que são direitos civis numa sociedade civilizada (passe o trocadilho, mas isto de civil versus militar é toda uma questão cultural).

No Porto, reunindo regularmente no auditório da Coop. Árvore (que nos recebeu benevolamente e sem qualquer interferência nos trabalhos), começaram a reunir-se jovens em idade para cumprir o SMO mas que rejeitavam a imposição por motivos vários. Ao abrigo da Objecção de Consciência como principio constitucional (mas não regulamentado), iniciou-se uma actividade militante completamente fora dos circuitos políticos da época, muito imatura também, que se projectou em toda a região norte e causou grandes engulhos no recrutamento ao aparecerem milhares de objectores nos quartéis, já com os “papéis” para entregar e firmes no direito que sabiam ter.

Sessões semanais de esclarecimento foram feitas até 1982, então já em instalações próprias arrendadas à Coop.do Povo Portuense, participação na criação e dinamização da Associação Livre dos Objectores e Objectoras de Consciência (estrutura a nível nacional), distribuição de informação à porta do quartel  na rua de Serpa Pinto (onde se reuniam os mancebos chegados de fora do Porto), publicação dum revista divulgada em toda a Universidade do Porto, participação em actos e manif’s pela paz (inclusivé nas organizadas pelo PCP e pela Intersindical, habitualmente contra os mísseis americanos na Europa, dando lugar às habituais sarrafadas quando se exibiam cartazes contra os mísseis de ambos os lados da Cortina de Ferro), e muitos outras actividades efémeras, fizeram parte do meu quotidiano da época.

E se hoje trago este assunto é só porque aqui está exposto, para memória do país que fomos e de quem fomos, estes singelos autocolantes que se venderam (praticamente a preço de custo) às dezenas de milhar, impressos numa tipografia do pai do Miguel Tavares, armazenados no sótão da minha casa (onde eram policopiadas à manivela os exemplares da revista acima referida), e depois distribuídos pela cidade e pelo país numa rede informal de conhecidos que participavam localmente na divulgação do direito à objecção de consciência ao SMO.

Como tantas outras coisas, tudo desapareceu gradualmente e sem deixar vestígios com o passar dos anos, com os novos desafios que a cada um se pôs.

Sem deixar vestígios?! Obviamente que não.

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Comentários a: "imagens saídas do baú" (1)

  1. […] Ver a história destes autocolantes aqui: […]

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