novidades e outras coisas

Archive for Outubro, 2009

o que vale é que amanhã há futebol!

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Quando leio sobre a ascensão e (rápida) queda de civilizações (ou sistemas políticos), parece que um factor comum a todas as ascenções-quedas está no gasto irracional de recursos, nos investimentos massivos sem sustentação económica, ambiental, etc e tal. Tipo obras faraónicas, convento de Mafra, arsenais atómicos.

Fica-me a dúvida se as pessoas que viveram um período assim tiveram consciência do que se ia passar. A dúvida posso até restringi-la às elites dirigentes para simplificar a resposta: não se deram conta do processo? Eram tão limitados os seus conhecimentos que não conseguiam projectar no médio, longo prazo, as consequências?

Creio que sabiam bem o que se iria passar, mas julgavam poder recorrer a um expediente clássico: a predação de novos territórios. Talvez os Maias acreditassem nisso. Os Europeus modernos praticaram-no à escala mundial, e o seu último império (o soviético) conseguiu chegar até à última década do sec.XX. Ou, em alternativa mais prosaica, aumentavam os impostos à população e desviavam atenções para um inimigo imaginário e temível. Até ao dia em que todos acordaram e descobriram que o Império Romano tinha ruído.

As “elites” podem sacrificar o longo prazo para se garantirem no curto, na boa lógica de “quem vier no fim que limpe a porcaria toda” . E se os restantes estivermos demasiado preocupados com os casos do dia, o futuro ficará realmente muito, muito curto…

 

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sobre o Padre Eterno e outros contos

Receio que boa parte da polémica com Saramago passa pelo atrevimento dum leigo ateu em dar uma interpretação literal a textos que presumem, entre outras interpretações, essa mesma leitura.

Eu consigo perceber que até exista algum simbolismo na seguinte passagem dos Salmos : “Os ímpios extraviaram-se desde o seio materno: os que dizem mentiras erraram desde o seu nascimento (…) Ó Deus, quebra-lhes os dentes! (…) Que eles passem, como o caracol, a desfazer-se em baba e como um aborto, que não viu a luz do sol. (…) O justo há-de alegrar-se ao ver-se vingado, e, no sangue do ímpio, lavará os pés. (Salmos, 58,4.7.9.11 ed. Nova Biblia dos Capuchinhos-Difusora Biblíca 1998)

O que não entendo é qual seja. E suponho que por esta e outras razões há quem nos tenha de recordar o óbvio: “(…) É à Igreja que é confiado o ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita e transmitida, exercitando a sua autoridade em nome de Jesus Cristo”. (Ratzinguer ou o seu avatar Bento XVI)

Claro, também há quem tenha leituras enviesadas: (…) é necessária “uma compreensão da Bíblia enquanto texto literário para verdadeiramente chegar ao seu sentido”, é preciso “ir à terra do poeta”, como se referia no Vaticano II, perceber que há “um sentido segundo, terceiro, que não se pode ler de forma literal e unívoca, que os géneros literários são para respeitar”. (Tolentino Mendonça para a Agência Ecclesia)

Talvez à maneira de Guerra Junqueiro:

Jehovah, por alcunha antiga o Padre Eterno
Deus muitissimo padre e muito pouco eterno,
Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
Poz-se a esgaravatar co-o dedo no nariz,
Tirou d’esse nariz o que um nariz encerra,
Deitou depois isso cá baixo, e fez a terra
.

(in A Velhice do Padre Eterno)

Mas aí, lá está: cai-se no erro de Saramago de procurar um sentido. Ou o sentido literal também não é uma leitura possível?

Boo

Abrãao aceita resignadamente matar o próprio filho...porque Deus assim exige. Um exemplo a seguir, dirão alguns. (in Book of Genesis de Robert Crumb)

futuro anacrónico

El pensamiento posado y reposado sobre el papel tiene determinados componentes de presencia que no pueden sustituirse fácilmente. (Emilio Lledó in el país)

A existência física dum texto seguro pelos dedos, a presença do livro no espaço da sala que nos chama a pensar nos assuntos lidos, as marcas do tempo e do leitor, bem podem ter um interese marginal, senão mesmo ridículo, para quem não tem hábitos de leitura.

 Possivelmente, o livro editado a papel voltará a ser um objecto caro, porque destinado a uma minoria. Áqueles gourmets que saboreiam a textura do papel enquanto deglutem uma ideia especiosa, uma frase bem condimentada.

E surgirá a moda das leituras em grupo, a serem partilhadas ao ritmo do tempo com que a vida enche o mundo de novidades e acontecimentos. Escrever passará a ser um exercício de estilo e sensibilidade, em rascunhos à mão e a lápis, num primeiro tempo e para não perder a inspiração; depois, um esforço de criatividade e inteligência. Possivelmente, surgirão espaços públicos com mesas e cadeiras onde se servirão cafés para que as pessoas possam ler, escrever e conversar…sem pressa. Com todo o prazer. E lojas de rua onde livros serão acumulados em estantes imensas num labirinto cujo sentido só o cliente apaixonado poderá descobrir.

basicamente, para quem ainda não tenha dado conta:

God is dead; he is no longer a vital element in how human beings interact in a meaningful, productive way with the universe. Modern fundamentalism is basically a series of aftershocks as cultures struggle to deal with the fall of gods. (in Pharyngula)

maus hábitos de leitura geram polémicas ôcas

Como já não estou a ir para novo, tenho um pouco a tendência para levar à conta das novas gerações o desinteresse pela leitura, pela polémica não  fundamentada no texto (ou autor) citado, pela facilidade como se criam “casos” e “indignações” sempre (e só) quando o tema é falado nos media.

Felizmente, volta e meia a realidade me leva a recordar que neste país poucos se dão ao trabalho de ler e, dos que lêem, muitos ajeitam o texto de modo a confirmar o que pensavam antes. Provavelmente, esta tendência agravou-se nos séculos da Inquisição quando era tido por verdade e boa justiça os testemunhos e confissões arrancados sob tortura. Ou seja, não interessa o que alguém realmente disse, mas interessa dizer que o que diz é aquilo que se pretende que diga…e daí ter pretexto para as tais “indignações” e “ultrajes” que tão bem ficam na vida em sociedade.

Depois há quem critique leituras superficiais, apressadas, tendenciosas ou simplesmente estúpidas. De facto, isso até é fácil num ambiente cultural que passou rapidamente do analfabetismo à iliteracia. Também terá algo a ver com o facto de, em Portugal, o tal livro “mais lido, mais vendido, etc e tal” ter sido traduzido para a língua nacional numa fase já muito tardia ( e mesmo assim à revelia do credo dominante), o que nem será assim tão relevante num país analfabeto onde os poucos alfabetizados sabiam (e a crer nos poetas satíricos da época, muito mal)) Latim. Pior, muito pior, terá sido a convicção de haver boas leituras que não podiam ser facultadas aos leigos sem o necessário condicionamento (ou palas) para a correcta interpretação (ou ortodoxia).

Afinal, já Platão considerava, ao seu modo, a literatura homérica “um manual de maus costumes“.

O bom destas tempestades em copos d’água é que despertam alguma curiosidade e há sempre quem procure os textos originais para descobrir o que há lá de tão sacrílego.

centrar esforços

20091016-lisboa(imagem retirada daqui)

Podem argumentar com a racionalidade da concentração, com as mais-valias da associação de esforços, e outros critérios economicistas, mas politicamente a região norte irá perder um instrumento de pressão e dinamismo: A sede da CEP ficará localizada em Lisboa e terá uma “delegação principal” no Porto.

Basicamente, existe uma contradição de interesses entre a visão do desenvolvimento do país a partir da região de Lisboa e a visão de desenvolvimento do país no seu todo (com o potencial das euroregiões). Em qual fica a futura associação neste capítulo?

“um bom exemplo de como a riqueza de alguns se alimenta da pobreza de muitos”

Os jornais publicavam ontem duas notícias de Angola: a de que todos os anos ali morrem com diarreia 20 mil crianças de menos de 5 anos, 600 mil não têm peso suficiente e 900 mil sofrem de subnutrição, e a de que, além de Isabel dos Santos, mais dois filhos do presidente angolano estão a investir milhões em Portugal. A vacina contra a gastroenterite custa umas poucas de dezenas de euros. (M.A. Pina in JN)

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