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Archive for Setembro, 2009

cavaco versus sócrates

(…) não existe em nenhuma declaração ou escrito do Presidente qualquer referência a escutas ou a algo com significado semelhante. Desafio qualquer um a verificar o que acabo de dizer(PR)

“sei que é essa a opinião geral (…) Mas eu tenho o espírito obtuso, ao que parece, porque o não compreendo” (Sócrates)*

Transmito-vos, a título excepcional, porque as circunstâncias o exigem, a minha interpretação dos factos. (PR)

“seja qual for a questão sobre a qual tenhamos de deliberar, torna-se necessário conhecer aquilo sobre o que vai deliberar-se, meu rapaz, pois de outro modo, forçosamente nos enganaremos.” (Sócrates)**

Agora, passada a disputa eleitoral, e porque considero que foram ultrapassados os limites do tolerável e da decência, que os portugueses compreendam que fui forçado a fazer algo que não costumo fazer(…). (PR)

“De resto, o que se passou é algo que eu já esperava. O que pelo contrário, me causa grande admiração é a maneira como os votos se repartiram contra mim e a meu favor. Nunca pensei que a diferença fosse tão pequena, sempre esperei uma maioria forte.” (Sócrates)***

Só há uma forma de lidar com este tipo de suspeições: é cortar o mal pela raiz” (Pedro S. Pereira in Publico)

“Em tais circunstâncias, pergunto: que diziam exactamente os meus caluniadores?” (Sócrates)****

*in Diálogo sobre a Justiça autor: Platão pp. 87 editorial Inquérito trad.Lobo Vilela
** in Fedro autor: Platão pp42 Guimarães Cª ed. trad. Pinharanda Gomes 1981
*** in Apologia de Sócrates autor: Platão pp95 ed.Verbo trad.M.Oliveira Pulquério 1972
**** idem, pp68

paradoxo

(…) um indicador para se aquilatar a dinâmica cultural relacionada com a edição do livro nos nossos dias, sugerindo que se compare o universo da crítica literária e até polémica de outros tempos entre leitores e admiradores de Eça e de Camilo, lendo e discutindo um e outro autor, produzindo um incontável número de leituras, abordagens e textos críticos publicados em jornais, revistas ou em livros, ao longo de muitos anos, e o que se passa hoje em dia, em relação aos autores de sucesso (Paulo Samuel aqui)

and now for something completely different

Factorizar um número em dois números primos, segundo o Digital Millenium Copyright Act, é uma violação de direitos de autor e um acto ilegal. O que demonstra, matematicamente, que leis como esta são uma treta. (in Que Treta!)

Ora aí está o tipo de crime de que eu sou, pura e simplesmente, o mais improvável dos suspeitos.

Meston and Buss have interviewed 1,006 women from all over the world about their sexual motivation, and in doing so they have identified 237 different reasons why women have sex. Not 235. Not 236. But 237.

And what are they? From the reams of confessions, it emerges that women have sex for physical, emotional and material reasons; to boost their self-esteem, to keep their lovers, or because they are raped or coerced. Love? That’s just a song.

We are among the bad apes now. (Tanya Gold in The Guardian)

Mas a minha iliteracia matemática permite-me calcular que 4,2 mulheres em 1006 partilham da mesma motivação sexual (assim a modos que estatisticamente). E não sinto que isso me ajude muito.

o que dizem os búzios (3)

E aquela malta toda que não se dignou a ir às assembleias de voto? Sim, esses que já estão fartos de nem sabem dizer exactamente o quê. Ou que não ligam nada a essas coisas. E não percebem nada dessas coisas.

Pois…são muitos, não são? Todos juntos se calhar dava para formar governo.

Isso nunca farão, claro, não lhes está na massa do sangue. Mas quando alguma coisa os aperrear (e eles se deixam aperrear com pouca coisa, aliás), lá estarão a protestar na rua (mas não nas manif’s), no trabalho (mas não nas reuniões sindicais), com os amigos (mas não com os concidadãos), e dirão que é preciso fazer alguma coisa e que “eles” (os outros, os do poder, os do sistema, os da oposição, os anti-sistema) são todos iguais.

Até que uma sereia os encante (certamente promovida por uma boa imagem televisiva) a ponto de boa parte deles botar o seu mais que guardado voto nessa criatura providencial (em programas eleitorais nunca). Mas até lá, é sempre bota-abaixo. Contra quem governe e contra quem faça oposição, contra quem agite o marasmo da falta de cidadania e contra as formas de dar corpo à sociedade civil.

o que dizem os búzios (2)

A alegria e o alívio de não perder o poder. “Negociar” não é problema quando já se temia ficar sem os dedos. O poder vale por si, mesmo quando mitigado. Mais fácil ainda quando se teve a oportunidade duma terapia de choque para se adaptar ao novo modelo do “diálogo” e do “bonzinho”.

Perder o pássaro depois de o ter na mão (ou assim parecer que estava…) já é mau, mas deste modo é muito mau. E não serão as autarquias que darão grande conforto, mesmo que resultem espectacularmente: os autarcas não costumam dividir as vitórias com a direcção do partido. Depois, não se trata dum jogo a 3 tempos em que ainda se pode ganhar por 2-1. Esta cena é mais do estilo de 3 taças tipo a de Portugal, a do campeonato e a supertaça. A de ontem vale uma época.

Depois de andar a chorar pelas migalhas caídas da mesa, ver outro levar o queijo com que nunca se sonhou mas ter a faca mais que desejada na mão, deve inspirar uma grande vontade de partilha baseada num entendimento civilizado sobre os superiores interesses comuns.

Continuar a ser “l’enfant terrible” (ou “l’a bête noire”, conforme o francês de cada um…) não deixa de ser um afrodisíaco para o futuro, principalmente depois duma “performance” admirável. Porém, há um “contudo” sempre a considerar nestes casos: o crescimento leva às dúvidas existenciais, à inflação dos egos, a comportamentos contraditórios, à dilaceração da alma. À velha, tão velha,oposição entre o realismo e o sonho. Ou como passar de Peter Pan a Zé Povinho.

Envelhecer rijo e com força para destabilizar governos é um prodígio que, como tal, não admite alternativas de rumo. E para quê mudar, se nem a Coca-cola consegue alterar a sua imagem de marca sem sofrer as consequências?

o que dizem os búzios

PS: Sofreu a angústia de ser ultrapassado pelo PSD, chegou ao empate técnico, depois à ligeira vantagem e acaba com uma folgada margem em 1º lugar…como não se sentir vitorioso? É caso para pensar se com mais uns dias não alcançava a maioria absoluta. Porque, aparentemente, teve o bónus de atenuar os estragos duma acentuada erosão à esquerda (vulgo BE).

PSD: Em tudo o oposto ao anterior…como não ser considerado o grande derrotado?

CDS-PP: Entre o pavor de ser extinto ou sobreviver a custo, passa a ser a muleta indispensável ao 1º Ministro. Como não se sentir o grande vencedor?

BE: A falsa certeza de vir a ser indispensável para a sobrevivência dum governo PS estragou o milagre da multiplicação dos pães.

CDU (aka PCP): Com a morte anunciada muito antes da queda do Muro, sua simples sobrevivência parlamentar em 2009 já é prova mais do que suficiente da eterna vida e glória do marxismo-leninismo.

momento de reflexão

Infelizmente, as coisas são como são; a fé suplanta todas as energias da política, que deveriam ser canalizadas para fazer três perguntas essenciais: Vou pagar mais ou menos impostos? O país vai ficar mais ou menos endividado? Estou melhor ou pior do que há quatro anos?

A minha sobrinha considera, com toda a razão, que se trata de perguntas razoavelmente egoístas. Mas a verdade é que naquele espaço exíguo da “cabine de voto” cabe apenas um eleitor de cada vez e não o país inteiro. Portanto, cabe a cada um fazer as perguntas que entender, com inteira liberdade. Tudo o resto será uma chantagem em nome da democracia. (ASH in António Sousa Homem)

e cá como seria?

Uma sentença contra a asfixia democrática, nas ilhas como no continente:

“Es necesario evitar que la acción penal se convierta en una suerte de instrumento para amordazar”, dicta el juez .(in el país)

“el responsable de lo que le sucede”

Estranha campanha eleitoral que avança até ao fim aumentando a sensação de que o país ficará pior, seja qual for o resultado.

Por causa da instabilidade de não haver maioria parlamentar dum só partido (mas também porque a haver será um mal maior).

Porque as possíveis coligações parecem improváveis.

Porque parece ainda mais complicado um governo minoritário conseguir sobreviver de modo útil e duradouro.

Porque o “poder moderador” do presidente da república deixou de ser credível.

Porque se há alturas em que a rotação dos partidos no poder se impõe é esta, apesar de tantos críticos ferozes à governação actual, ainda no início do Verão, condescenderem agora na necessidade de lhe renovar o mandato.

Porque o partido da oposição que assume esse desafio não só se tem revelado incapaz de liderar o descontentamento, como revela uma fragilidade rara no momento em que tem oportunidade real de ganhar o poder.

Porque a convivência política está tão inquinada que não tem havido espaço de debate sobre as questões políticas de fundo, donde poderiam sair propostas e acordos entre duas ou mais forças partidárias.

Porque, depois das eleições, os protagonistas políticos serão os mesmos.

Porque, em última análise, tudo isto impediu a avaliação de desempenho do actual governo e a discussão dos futuros possíveis.

Porque, afinal, a quem beneficia tantos meses perdidos a discutir inanidades e assuntos sérios do mesmo modo estúpido e inconsequente?

No sé si revierte en favor del pueblo portugués, que, desde luego, no es simplemente una víctima, sino también el responsable de lo que le sucede. (José Gil in el país)

esmiuçando em miúdos

Pode-se gozar alguém por ser mulher, ter idade para ser avó e não ser fotogénica: aparentemente, neste país, ninguém é apontado a dedo na rua por semelhantes barbaridades.

Claro que ter humor é outra coisa, e isso nota-se quando alguém se deixa levar para essas alterosas águas sem saber nadar: reduz-se a uma figura de cartão com um discurso (sim, um discurso ponto final) de língua de pau e sorriso de plástico. Um exercício penoso que nem o próprio humorista ( o verdadeiro) consegue passar incólume, faltando-lhe o golpe de génio para transformar com uma frase, um trejeito, sei lá, tamanha sensaboria numa gargalhada. Talvez ao modo como Eça descrevia com admiração e reverência aquelas acácias figuras, de modo a nos desmanchar de riso.

Mas isso já é levar o humor para as subtilezas da ironia. Recordo o lamento reiterado de Eduardo Prado Coelho nas suas crónicas do Público, quando se via “obrigado” a explicar que o que escrevera numa crónica anterior era exactamente o oposto do que pensava e que o fizera na presunção de que os leitores entenderiam o registo irónico.

E que maior ironia do que ver a “velha feia conservadora” surpreender o humorista com sua postura habitual, mas animada dum sentido de humor elaborado e acutilante?

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