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A libertação dum homem, por razões humanitárias motivadas pelo cancro que o irá brevemente matar, preso sob a acusação de ter participado no acto de terrorismo que vítimou quase três centenas de pessoas, é o típico caso polémico: vítimas (se as houvesse vivas) e familiares/amigos das vítimas (que são também outras vítimas), naturalmente não se conformam; as autoridades responsáveis sublinham o sentido moral da decisão; a opinião pública, especializada e outras dividem-se.

Para ser libertado, o homem teve de reconhecer a culpa que nunca assumira: típico ritual judicial para amenizar uma condenação, já que poupa tempo e dinheiro. Como o próprio reconhece, antes do diagnóstico da doença nada tinha a perder com o apuramento de toda a verdade. Agora, diz, sua memória será associada irrevogavelmente à autoria do crime que outros cometeram. Curiosamente, este é o tema central da famosa peça de Arthur Miller “The Crucible”, que culmina com a recusa dum acusado em admitir a culpa para se livrar da morte; e Miller estava a pensar nas vítimas do senador McCarthy.

Seguramente, não tenho a menor opinião sobre a sua culpa: nada sei sobre o processo nem sobre as investigações, mas conheço algumas (boas) histórias sobre como fazer dum inocente culpado (ou a variante: fazer dum cúmplice menor o bode expiatório) e também sou capaz de partilhar dos inesgotáveis recursos da dissimulação, mentira e hipocrisia com que a nossa espécie soube sofisticar o convívio social, nomeadamente a arte dum canalha fazer-se passar por santo (no Decameron, há um excelente e memorável conto sobre o tema).

Já menos polémico parece ter sido a autoria do atentado por parte do regime do coronel Kadhafi, o qual desembolsou algum dinheiro, assumiu responsabilidades e moderou palavras e actos para voltar a ser bem aceite na comunidade internacional capitalista, ocidental e colonialista que sempre abominou. E, no mínimo, é curiosa a forma como foi encenada a recepção do “funcionário” acusado dum crime (que diz não ter cometido), por parte do próprio regime para quem trabalhava ( e que assumiu responsabilidades e indemnizações às vítimas).

É de compreender o embaraço de governantes e a indignação de familiares das vítimas, mas o regime do coronel só surpreende quem não o conhece. Veja-se, por exemplo,quais são os padrões de justiça correntes na Líbia. Por isso, as invocadas razões humanitárias podem ser um testemunho da radical diferença entre o regime britânico (ou escocês) e o líbio. E, dum modo geral, pode ser uma demonstração da superioridade do Estado de Direito e da aplicação da Carta dos Direitos do Homem sobre a arbitrariedade dos regimes autoritários.

Ou será que Kadhafi até tem melhores razões para se orgulhar da justiça do seu regime? A avaliar pela triste figura (ver aqui também) que um país como a Suiça faz para lhe agradar, é bem de temer que hajam mais razões do que razões humanitárias por detrás desta libertação.

jkKOPELNITSKY

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