novidades e outras coisas

Archive for Julho, 2009

in memoriam

A propósito da morte deste senhor disseram-se coisas que me fazem pensar como é realmente curta a memória dos povos. Após vários anos e milhares de soldados americanos mortos (dos vietnamitas nem se fala), ele acabou por reconhecer que se enganara, que a sua participação na tomada de decisão em envolver o Estados Unidos numa guerra de grandes proporções fora assumida no desconhecimento do que era o Vietnam. Que falhou em toda a linha, enfim: He acknowledged that he failed to force the military to produce a rigorous justification for its strategy and tactics, misunderstood Asia in general and Vietnam in particular, and kept the war going long after he realized it was futile because he lacked the courage or the ability to turn Johnson around. (Thomas W. Lippman in WP).

memory

Quarenta anos depois, as invasões do Iraque e Afeganistão revelam a mesma falta de informação e estratégia. Pior, se possível, é a confirmação de ter-se deliberadamente falseado e enganado instituições, opinião pública e outros estados, para justificar a invasão do Iraque. Ou a de violar as bases do Estado de Direito (negar o direito a um julgamento isento e à defesa, promover a tortura, manter pessoas sem culpa formada presas durante anos).

Claro que esta crítica só faz sentido a países que vivem num Estado de Direito, porque dos outros países em que o Estado (ou lá o que for que tenha poder) nega as liberdades elementares, os direitos básicos, pratica regularmente a repressão da dissidência, a tortura dos opositores e até massacra concidadãos, pouco se pode dizer a propósito da memória e sabedoria dos povos.

E isto da memória ocorre-me porque a minha, quando li os obituários daquele senhor,  fez-me recordar os exaltados debates nos media a propósito da invasão do Iraque (antes, durante e imediatamente depois), nomeadamente os aguerridos defensores da estratégia bélica em desenvolvimento. Recordo-me como desancavam violentamente sobre os infelizes que punham em causa essa mesma estratégia por razões mais próximas ao bom senso, boa prudência, cepticismo, desacordo com o modo como se punha em causa certas normas da regulação dos conflitos internacionais, coisas assim que eram logo apodadas de “anti-americanismo” e misérias outras. Seria interessante fazer um apanhado dessas polémicas na versão portuguesa e verificar como os protagonistas e os argumentos têm aguentado a erosão da História.

E se me recordo é precisamente por, na altura, tentar formular a minha própria opinião no fogo-de-artifício de “factos” e opiniões propalados por tão douta gente (e afinal: andavam todos enganados?!).

Seja como for, a memória é fraca, fraquinha. Em momentos de insegurança, um discurso machão, autoritário, isento de dúvidas, é o favorito das massas e dos fazedores de opinião encartados (lembrem-se de Munique!, há sempre alguém a gritar). Agora, também podem se lembrar do Vietnam, do Iraque…

Ainda não vai há um ano e a expectativa dum ataque ao Irão era levada muito, muito, a sério, lembram-se? Claro, pela melhor das razões e para a segurança de todos.

dinamite cerebral

 Fazem-me falta aqueles programas de rádio de décadas atrás, geralmente à noite e sábados de manhã, em que haviam autores com nome e com prazer em partilhar seus gostos e saberes. Com eles aprendi alguma coisa sobre música norte-americana, brasileira e outras. Também na TV haviam documentários temáticos, debates e programas de autor, onde havia tempo para formular pontos de vista, teses, contraditórios, etc. Provavelmente foram desaparecendo por serem “chatos”, não terem audiência, ficarem caros e faltar-lhes “actualidade”, “dinamismo”. Dos jornais podia dizer a mesma coisa (saudades do tempo da Revista do Expresso dos anos 70-80, do Público dos primeiros anos…).

Na Antena 2 ainda vou ouvindo alguns programas temáticos, muitas vezes sobre assuntos e autores que me são completamente desconhecidos, para meu grande benefício pessoal. E tem Jazz apresentado e comentado por quem sabe e gosta. Na TV alguns espaços de debate são puro tempo perdido por diversas razões, seja pelo formato, seja pelos comentadores  serem “residentes” com um discurso previsível, seja por representarem uma corrente de opinião partidária. Nos jornais, ainda vão aparecendo colunas de opinião interessantes. Provavelmente, muita coisa boa haverá sem grande projeção e que me escapa.

O que não me escapou foi o “Ponto/Contraponto” do José Pacheco Pereira na Sic. Sendo quem é e a solo, só podia ficar na expectativa do que poderia sair dali. E o que tenho visto confirma o prometido pelo próprio JPP: um programa sobre as suas opiniões a propósito dos media portugueses e o modo como estes produzem notícias. Para quem acompanhe o Abrupto, a abordagem é familiar. A diferença está no próprio media com tudo o que isso implica.

Talvez se possa dizer que é um formato “pobrezinho” para televisão, mas só por si faz justiça ao mote “boa dinamite cerebral”: pôr um senhor conhecido, com um percurso político activo e partidário, há vários anos escrevendo em jornais, participando em debates nas tv’s, autor dum blogue de grande audiência, execrado publicamente por muita gente, a falar 15 minutos sobre o modo como jornais e televisões lidam com os factos e produzem notícias, é uma provocação ao políticamente correcto.

O seu estilo não é bombástico, suas críticas são duras e explícitas (quer dizer: nomeia, cita e ilustra os visados…os quais não são pessoas, mas os próprios media e, obviamente, quem produz as notícias) e o tema não é política/sociedade/cultura, etc, mas simplesmente as “notícias”. Imagino como deva ser irritante para quem trabalha na área da comunicação social ter alguém com este estilo e esta abordagem a dedicar-lhe semanalmente 15 minutos de crítica. Mas é largamente compensador para quem siga o programa: faz-nos pensar, reflectir e olhar de modo diferente para os títulos de jornal ou para o alinhamento noticioso nas televisões. Estará JPP a aplicar algo de novo? Na verdade, outros já o fazem. Mas na Televisão?

Curiosamente, como o próprio JPP se refere, as críticas ao programa são imensas. Por ser ele. Por ele tratar dos assuntos à sua maneira. Por não haver contraditório. Mas a dinamite cerebral também passa por isto: por se deixar arrebentar opiniões parciais (não necessariamente falsas, sectárias ou motivadas por outros interesses que os explicitados) e assistir ao espectáculo pavoroso dos que se sentem atingidos na carne e no ego.

Venham mais programas assim para arrebentar com o estado de bovinidade geral!

 

Ponto/ Contraponto é um programa de opinião.(JPP)

Ponto/ Contraponto é um programa de opinião.(JPP)

Nuvem de etiquetas

%d bloggers like this: