novidades e outras coisas

in memoriam

A propósito da morte deste senhor disseram-se coisas que me fazem pensar como é realmente curta a memória dos povos. Após vários anos e milhares de soldados americanos mortos (dos vietnamitas nem se fala), ele acabou por reconhecer que se enganara, que a sua participação na tomada de decisão em envolver o Estados Unidos numa guerra de grandes proporções fora assumida no desconhecimento do que era o Vietnam. Que falhou em toda a linha, enfim: He acknowledged that he failed to force the military to produce a rigorous justification for its strategy and tactics, misunderstood Asia in general and Vietnam in particular, and kept the war going long after he realized it was futile because he lacked the courage or the ability to turn Johnson around. (Thomas W. Lippman in WP).

memory

Quarenta anos depois, as invasões do Iraque e Afeganistão revelam a mesma falta de informação e estratégia. Pior, se possível, é a confirmação de ter-se deliberadamente falseado e enganado instituições, opinião pública e outros estados, para justificar a invasão do Iraque. Ou a de violar as bases do Estado de Direito (negar o direito a um julgamento isento e à defesa, promover a tortura, manter pessoas sem culpa formada presas durante anos).

Claro que esta crítica só faz sentido a países que vivem num Estado de Direito, porque dos outros países em que o Estado (ou lá o que for que tenha poder) nega as liberdades elementares, os direitos básicos, pratica regularmente a repressão da dissidência, a tortura dos opositores e até massacra concidadãos, pouco se pode dizer a propósito da memória e sabedoria dos povos.

E isto da memória ocorre-me porque a minha, quando li os obituários daquele senhor,  fez-me recordar os exaltados debates nos media a propósito da invasão do Iraque (antes, durante e imediatamente depois), nomeadamente os aguerridos defensores da estratégia bélica em desenvolvimento. Recordo-me como desancavam violentamente sobre os infelizes que punham em causa essa mesma estratégia por razões mais próximas ao bom senso, boa prudência, cepticismo, desacordo com o modo como se punha em causa certas normas da regulação dos conflitos internacionais, coisas assim que eram logo apodadas de “anti-americanismo” e misérias outras. Seria interessante fazer um apanhado dessas polémicas na versão portuguesa e verificar como os protagonistas e os argumentos têm aguentado a erosão da História.

E se me recordo é precisamente por, na altura, tentar formular a minha própria opinião no fogo-de-artifício de “factos” e opiniões propalados por tão douta gente (e afinal: andavam todos enganados?!).

Seja como for, a memória é fraca, fraquinha. Em momentos de insegurança, um discurso machão, autoritário, isento de dúvidas, é o favorito das massas e dos fazedores de opinião encartados (lembrem-se de Munique!, há sempre alguém a gritar). Agora, também podem se lembrar do Vietnam, do Iraque…

Ainda não vai há um ano e a expectativa dum ataque ao Irão era levada muito, muito, a sério, lembram-se? Claro, pela melhor das razões e para a segurança de todos.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Nuvem de etiquetas

%d bloggers like this: