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Archive for Abril, 2009

o mês de maria é já amanhã

A falta de memória colectiva tem estes efeitos extraordinários que é ouvir-se tanta tranquila ignorância a propósito dum santo e condestável ou dum político e ditador, reduzindo-os à caricatura dum acidente de cozinha ou dum notável nascido numa terrinha de provincia. Sem (in)formação todas as polémicas se tornam cansativas e estéreis, rapidamente esquecidas.

Uma civilização que não tenha consciência do seu passado, das suas raízes linguísticas, do seu património cultural, em suma da própria natureza matricial, não pode obviamente ter futuro, pois está condenada a andar numa constante deriva identitária. Já Homero nos dizia isso, ao fazer Telémaco sair de Ítaca, em busca do pai. Não bastaria ao jovem ser Telémaco, para se afirmar como pessoa: precisava de ser Telémaco – o filho de Ulisses. (Delfim Leão in De Rerum Natura)

Podia-se esperar um esforço do ensino público, e certamente as “Crónicas” de Fernão Lopes ou o estudo da História do sec.XX fazem parte do currículo escolar. Mas não vale a pena ter ilusões: se o passado é uma coisa distante, o futuro fica demasiado curto. Em jeito de metáfora fast e muito light é como se aquele tradicional afecto pela comidinha da infância, cozinhada por uma avó amorosa ou pela mãe, se ficasse pelos douradinhos ultra-congelados ou nos domingos em família a comer hamburguers fora de casa.

Classics no longer unlocks a world of privilege, but it does give us the keys to an intellectual playground of breathtaking beauty, wonder, and rigour; it gives us the tools to help us understand who we are.(Charlotte Higgins in The Guardian)

Na verdade, a tendência colectiva para a ignorância sobre tudo que não tenha relevância para o dia-a-dia de cão do fadinho lamuriento, seja na versão saloia, seja na versão hip hop, é tão antiga quanto a Humanidade. Assim como o potencial de violência que encerra. Por isso, para apaziguar conflitos se diz que “gostos não se discutem”. Como tal, nem se partilham, nem se expõem. E se a maioria “achar” que o errado é o que diverge do gosto maioritário, feito norma, então os gostos a-normais podem ser perigosos.

Por que é que eu – que vou falar da estrutura narrativa dos desenhos, compará-los com outros desenhos feitos por cartoonistas portugueses e mostrar que existe uma comunidade de temas, de percepção, de construção estética e satírica desse objecto – me tenho que colocar a mim próprio o problema de não os poder mostrar? Ou de não os dever mostrar? Ou do facto de os mostrar poder ser entendido como provocação? E ao mesmo tempo eu pergunto a mim próprio: “Se eu começo a pensar assim, efectivamente a minha liberdade já não é nenhuma”. (Pacheco Pereira in Abrupto)

Quando o diálogo e as interrogações, na sua vertente crítica ou meramente prospectiva, sofrem autocensura no que seria suposto ser o templo da ciência, será que o Direito defenderá melhor a liberdade de pensamento, da expressão e toda esses activos civilizacionais de que somos herdeiros precários?

Minister for Justice Dermot Ahern proposes to insert a new section into the Defamation Bill, stating: “A person who publishes or utters blasphemous matter shall be guilty of an offence and shall be liable upon conviction on indictment to a fine not exceeding €100,000.”

“Blasphemous matter” is defined as matter “that is grossly abusive or insulting in relation to matters held sacred by any religion, thereby causing outrage among a substantial number of the adherents of that religion; and he or she intends, by the publication of the matter concerned, to cause such outrage.” (in Irish Times)

Tudo isto podia até merecer um aceso debate, mas haverá quem tenha pachorra?

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sinta a energia deles

Este é um dos muitos exemplos dum “futuro melhor” que no passado prometeram e, no presente, deu no que deu:

Completados em Março sete anos após o encerramento das comportas da barragem de Alqueva, nas aldeias alentejanas ribeirinhas da Estrela e da Luz a desertificação humana avoluma o número de casas vazias e a população activa entra nas malhas da emigração, desiludida com as promessas de desenvolvimento garantidas anos a fio pelas autoridades nacionais, regionais e locais.


Em vez do anunciado progresso sob a forma de grandes projectos turísticos que prometiam levar à pequena aldeia o bem-estar na forma de emprego seguro em lugar do incerto e duro trabalho sazonal na agricultura, o mais que conseguiram foi um cais para os barcos atracarem junto ao esgoto que lança sem tratamento, na albufeira de Alqueva, os efluentes domésticos produzidos na comunidade.

Quem sai das embarcações que chegam é imediatamente confrontado pelo cheiro intenso do esgoto.

(in Publico)

Agora, a propósito da bacia do Tâmega, Sabor e outras, novos futuros radiosos nos aguardam e sempre com a preocupação no meio ambiente, nas pessoas e no desenvolvimento sustentado.

Pouco lhes interessa, na verdade, a qualidade das águas ou se o impacto ambiental das imensas albufeiras vai ou não afectar duramente milhares de anos de equilíbrio entre a presença humana e a natureza, se vai ou não aniquilar ecossistemas e terrenos de cultivo.

 Nem se dignam, sequer, a baixar as tarifas que cobram às populações que resolveram incomodar. Por muito que se rodeiem em palavras bonitas, e delírios de Noé, nunca conseguíram, nem vão conseguir, compensar as perdas em lado nenhum.

O mapa hidroeléctrico do País é e será, na sua grande parte, uma trágica reprodução do país desertificado, descaracterizado e sem perspectivas de desenvolvimento.(in Avenida Central)

"descubra na barragem a projeção dum mundo melhor"

"descubra na barragem a projeção dum mundo melhor"

pigs on the wing

Pigs...(martin rowson)

Pigs...(martin rowson)

literatura latino-americana e campanha negra

Ontem, ao ouvir o primeiro-ministro, fiquei curioso com uma coisa que ele disse: as obscuras campanhas de difamação que visam “mata-lo” politicamente através de processos judiciais fazem-lhe lembrar “aqueles” livros da literatura latino (ou sul-)-americana.

Pena não ter dado dois ou três exemplos para minha orientação bibliográfica.

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Apondo em balança, que é que isso me representava?

Só nos olhos das pessoas é que eu procurava o macio interno delas; só nos onde os olhos. (in Grande Sertão:Veredas)

uau!

(…) But I’ll make you a deal. If you grim old white male virgins leave sex and science alone, I won’t suggest that your sexual pathologies could be treated with regular exposure to the soft and slippery bits of living, squirming human women (or, if you prefer, the flesh and fluids of human men)…you know, all that biology you deny. Even if it would be good for you. (in Pharyngula)

"...Worse, this is a topic all tied up in your, umm, issues with sex. Your priesthood is just plain weird in its denial of a basic and healthy human urge and its obsession with regulating the private behavior of others."(In Pharyngula)

"...Worse, this is a topic all tied up in your, umm, issues with sex. Your priesthood is just plain weird in its denial of a basic and healthy human urge and its obsession with regulating the private behavior of others."(In Pharyngula)

a propósito dum almoço a 15 de Agosto

 

Cada geração tem as suas referências, seus heróis, suas tresleituras.

Por exemplo, sou ainda do tempo em que se falava dos Três Mosqueteiros por haver um livro do mesmo nome que alguns haviam lido e a maioria ouvira falar, talvez tivesse até visto um filme  baseado no livro. E o nome de D’Artagnan não era completamente estranho.

Há dias vi um filme muito interessante que começa com o filho quase-idoso a ler os Três Mosqueteiros à sua mãe. Ela é fascinada pela figura de D’Artagnan e pede ao filho para descreve-lo em pormenor, o que ele faz sem dificuldade retomando o início do livro onde a descrição é detalhada. Infelizmente, o pormenor do nariz adunco, “aquilino”, estragou o devaneio da senhora que confessou não suportar homens com essa característica.

Como o filme é italiano e, por conseguinte, legendado, pude apreciar que nesse trabalho de tradução todas as referências a D’Artagnan foram substituídas por “Dartacão”. “Dartacão”? pensei eu à primeira vez, ficando na dúvida se o que o filho lia à mãe era mesmo o livro de Alexandre Dumas.

Depois, pela tal  pormenorizada descrição do personagem fiquei seguro de que, naquela família, ainda se apreciavam os clássicos da Literatura duma época que já passou. O tradutor, o senhor que coloca as legendas, o distribuidor do filme, esses é que devem ser gente muito nova e com outras referências, outros heróis…

 

"...les muscules maxillaires énnormément dévellopés, indice inffailible auquel on reconnait le Gascon, même sans béret" (Les Trois Mousquetaires, de A.Dumas)

"...les muscules maxillaires énnormément dévellopés, indice inffailible auquel on reconnait le Gascon, même sans béret" (Les Trois Mousquetaires, de A.Dumas)

 

 
 
 
 

 

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