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Archive for Fevereiro, 2009

sobre Courbet e “A Origem do Mundo”…

…uma aragem fresca e estimulante. (via Avenida Central):

(…) A acção policial foi assim explicada como  “medida cautelar para evitar uma alteração da ordem pública e o cometimento de outros crimes”, dada a  “iminência de confrontos físicos” no recinto da feira.

Tal interpretação do quadro legal é desprovida de fundamento e, se valesse  como precedente , não daria descanso às  forças de segurança: doravante passariam a ter de  tomar partido em choques de opinião sobre questões de gosto, moral e opinião, quanto às quais lhes cabe tão só velar pelo pluralismo social e pela defesa das liberdades. Ao sabor de queixosos ad hoc em feiras, livrarias e, pelo mesmo critério, cinemas, teatros, exposições…

No caso vertente, poderiam  os encarregados de educação presentes na feira  ter admoestado (ou não) os seus rebentos atraídos pela  “Origem do Mundo”. Não cabe, porém,  às polícias substituirem-se às convicções e acções dos  pais em tais situações e menos ainda praticar, sob qualquer pretexto, actos que privem  eventuais compradores de ter acesso a uma  obra cuja venda é livre e não pode ser impedida em qualquer ponto do território nacional.

Sendo esta a orientação que decorre da Constituição e da lei, será ela que prevalecerá no caso concreto e deverá ser seguida pelas forças de segurança, sejam quais forem as pressões sociais que os acasos gerem.

José Magalhães

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polícia dos costumes

A Polícia de Segurança Pública é parca em comentários. O subintendente Henriques Almeida apenas afirmou que “o livro não era apropriado para ser exposto” numa feira de livros que estava a ser frequentada por crianças. “Houve muitas reclamações e, como medida cautelar, o livro foi retirado do local onde se encontrava”, explicou Henriques Almeida, acrescentando que “agora será avaliado pelas instâncias subsequentes se constitui, de facto, a prática de algum acto ilícito”. (in JN)

impróprio para consumo

impróprio para consumo

 

Parece que as “brincadeiras” de Carnaval, este ano, andam à volta do mesmo: abuso de autoridade e aplicação de códigos morais. Em Torres Vedras, em Paredes do Coura. Também em Braga.

Algo anda pelo ar: um cheiro bafiento, rançoso, a coisa velha e estragada. Ministério Público, PSP, DREN…donde lhes vem a inspiração?

É como diz o livreiro António Lopes: Sei que a PSP não recebeu ordens do ministério da Cultura, mas a verdade é que se sentem, actualmente, à vontade para o fazer” (in Publico)

entroido

entroido

é carnaval e é para levar a mal

Este episódio “carnavalesco” (a acrescentar ao da censura judicial em Torres Vedras) assusta: pela prepotência infame e pela humilhação abjecta. Associado ao “Entrudo”, sua simbologia não pode ser a melhor para caricaturar o país que somos.

"...o cortejo teria forçosamente que sair à rua"

"...o cortejo teria forçosamente que sair à rua"

Que os visados tomem boa nota e todos os restantes não deixemos cair no olvido tamanha aberração.

“a queixa, a miserável queixa, a queixa atenta…”

Portanto, como gente decente, desviamos o olhar e rimo-nos como de costume, dizendo que não tem importância. Não tem. Hoje, é isso que não tem importância (in A Origem das Espécies)

Eh, bê.

Só que uns peixes tem, que nadam rio-arriba, da barra às cabeceiras. Lei é lei? Loas! Quem julga, já morreu. Viver é muito perigoso, mesmo (in Grande Sertão:Veredas)

favela de rico e lixo urbano

Este estudo da Universidade do Minho sobre  a “favela dos ricos” em Braga (e a alargar-se a outras “favelas ricas” de Guimarães e Viana) lança vários alertas curiosos: destroi-se uma zona verde (matas, antigas quintas), mantém-se o traçado dos antigos caminhos rurais (!), pavimentam-se linhas d’água, e o aumento da densidade da construção acaba por pôr em causa a expectativa inicial gerada pela urbanização de luxo.

de A. Quendray

 

 

Numa primeira fase, tipicamente, os lotes de construção permitem que o proprietário “desenhe” a casa a seu gosto “subjugados à imagem e não à eficiência“; nas fases seguintes, chegam os lotes para construção em banda (as casas dos menos “ricos”) que se atravessam à frente dos primeiros moradores. A urbanização leva anos a construir-se, transformando o prometido paraíso ao alcance de poucos num enorme estaleiro.

Ainda se, ao menos, fosse dando origem a uma rede social: “Onde cabe, constrói-se. Tudo isto vai gerar níveis de conflitualidade, tornando-se até repulsivo para os que lá moram” (Miguel Bandeira), “Não há relações de vizinhança, nem sentido de comunidade. Devido ao capital escolar dos moradores, 80% dos quais são licenciados, podia haver um certo rendimento para a freguesia, mas não se verifica” (Carlos Veiga). E, certamente, sem serviços, escolas e equipamentos sociais na zona, a favela já nem é refúgio relaxante do fim-de-dia, fim-de-semana. Reduz-se a dormitório e formigueiro humano.

É interessante observar a constância destes fenómenos, sejam “favelas para ricos”, sejam “condomínios para remediados”, ao longo de décadas, apesar dos sábios avisos (do Arq.º Ribeiro Teles, como exemplo maior) e das evidentes realidades (“aldeamentos” no Algarve, o projecto imobiliário da Expo, o Grande Porto). Os suspeitos do costume: administração central, autarquia, promotores imobiliários… e a cultura social de todos nós. Não admira que a “culpa” morra solteira.

Os mesmos suspeitos que, como de costume, estão indiciados neste “apelo a uma cidadania responsável para um futuro sustentável”. Na verdade, os “10 mandamentos”  atiram com a responsabilidade toda para cima dos cidadãos, mas esse é o reflexo natural duma entidade intermunicipal, regida pelas autarquias. Podia, é certo, apontar responsabilidades à Administração Central (vulgo Estado). Ou olhar para as próprias práticas da Administração Local (vulgo Câmara Municipal), mas prefere apontar o dedo ao anónimo e provocar em cada um de nós a angústia da responsabilidade e a neurose da culpa.

E, a bem dizer…os “10 mandamentos” fazem todo o sentido, mais a mais na época de crise que vivemos (a mundial e de agora, não a nossa e de sempre). Até acrescento: os (as) senhoritos (as) que levam o cãozinho urbano a fazer as necessidades nos canteiros, jardins, passeios ou onde calha; os “limpinhos” que se apressam a esvaziar o lixo de casa largando-o na rua sem preocupação de acondicionamento; os “distraídos” que jogam cartão e plástico e vidro nos contentores de lixo apesar de haver recipientes para reciclagem por perto. Mentalidades, dir-se-á. Cultura, também.

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