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piratas

Um dos sinais típicos de se estar bem avançado na idade é quando começamos a olhar “para trás” de modo nostálgico. Por exemplo: antigamente, nos tempos da Guerra Fria, a ONU era tão irrelevante como hoje, porém haviam duas superpotências que punham ordem nas suas áreas de influência e, sempre que algo de errado ou de muito mau acontecia numa dessas áreas, só podia ser por acção da superpotência contrária (geralmente por interposto títere).

pirata

Como a Guerra Fria acabou e a pax americana não vingou, tem aumentado extraordinariamente a capacidade de regiões remotas, pobres e ignoradas do mundo se tornarem factores de destabilização à escala mundial, promovendo o terrorismo, a chantagem nuclear, os tráficos de drogas-armas-pessoas. Por pudor ou marketing, essas acções são justificadas pelos discursos nacionalistas, religiosos e/ou “terceiro-mundistas” que lhe emprestam a dignidade possível para um infindável bruaah! mediático, ONUsiano inclusivé.

Consoante a sua irupção no mosaico geopolítico, as grandes potências de outrora, as grandes potências emergentes, as potências regionais e a grande- potência-apesar-de-tudo, lá se organizam de modo a tentarem ganhar/não-perder terreno e anularem os avanços dos adversários, alimentando ou combatendo as borbulhas de instabilidade.

Das que mais recentemente se têm falado, nenhuma é tão sugestiva quanto a dos piratas somalianos(“They wed the most beautiful girls; they are building big houses; they have new cars; new guns” ), capazes de abordarem navios de qualquer bandeira, de os trazerem para o seu “ninho” (qual nova ilha Tortuga) e festejarem alegremente a posse do botim (O superpetroleiro tem 330 metros de comprimento e pesa 318 toneladas: “Tem três vezes o tamanho de um porta- aviões.” A bordo levava dois milhões de barris de petróleo – um quarto da produção diária da Arábia Saudita, no valor de cem milhões de dólares).  Sem que nada, nem ninguém, tenha maneira de os enfrentar no mar ou em terra. Sem carta de corso que os proteja, sem Deus e sem Pátria, nem qualquer discurso milenarista, actuam com a consciência tranquila de quem faz pela vida (“First we look to buy a nice house and car. Then we buy guns and other weapons. The rest of the money we use to relax.”) Prudentes, sensatos, os piratas investem em mais armas e mais sofisticado arsenal, gerando mais riqueza e assim sucessivamente. Que ninguém os tome por tolos (“Faremos a contagem do dinheiro mecanicamente”, acrescentou, avisando que os piratas têm “os equipamentos necessários para identificar as notas falsas”)!

Actuando no equivalente actual duma antiga terra ignota, sem lei, nem rei, os piratas não devem explicações a ninguém porque ninguém quis saber deles antes. Os tesouros não são enterrados debaixo do areal duma praia perdida, mas circula. (The entire village now depends on the criminal economy. Hastily built hotels provide basic lodging for the pirates, new restaurants serve meals and send food to the ships, while traders provide fuel for the skiffs flitting between the captured vessels) O que mais me impressiona é toda esta actividade funcionar a céu aberto, com morada conhecida (os portos de Harardere, Eyl e Hobyo, que servem de base aos distintos grupos de piratas), em rotas ainda melhor conhecidas.

 Aparentemente, nada mais fácil de neutralizar numa era de satélites, telecomunicações, forças rápidas de intervenção. E para que serve a ONU, nesta situação em que americanos, franceses, chineses, russos, indianos, sauditas, e tantos outros têm sofrido prejuízos bastante razoáveis(Actualmente, un total de 17 naves permanecen en manos de los piratas, con más de 300 marineros en su poder. Desde de este año enero pasado, se han producido 95 ataques piratas en la zona, de los cuales 39 terminaron con el secuestro del barco)? Para não falar dos riscos catastróficos para a região (do Yemen a Moçambique) dum derrame colossal de petróleo.

A outro nível, esta realidade faz-me lembrar a que vi no Gomorra (o filme, também livro): uma comunidade inteira refém e cúmplice duma mafia que surge do seio dessa mesma comunidade, promovendo uma caricatura de justiça social, de ascensão sócio-económica, de solidariedade. Sem discurso demagógico, sem liderança carismática. Sem dó, nem piedade. Nos livros de antropologia de algumas décadas atrás usava-se muito o modelo evolutivo “estado selvagem→barbárie→civilização”, mas é difícil encaixar estes esquemas na época da “globalização+tecnologia sofisticada acessível a todos+armas de elevado potencial de destruição a preços de chuva”.

Entretanto, in terra firma e em redor da “ilha” dos piratas, o pesadelo continua sem fim à vista (“Les solutions sont à terre, en Somalie, nous le savons bien, insiste un diplomate. Mais si on attend qu’il y ait un Etat de droit en Somalie, cela risque d’être long. Or il faut bien faire quelque chose”) . Assim, também eu preferia ter a perna de pau, o olho de vidro e a cara de mau…

Mas se os piratas forem bem sucedidos, seu sucesso será o seu fim; as armas e o dinheiro acumulado acabarão por exigir outra organização, uma liderança absoluta, algo entre um governo mafioso e um proto-estado com reinvidicações nacionalistas/messiânicas. Talvez sobrem algum bucaneiros impenitentes que se afastem para novos mares, preferindo o balanço do mar ao da cadeira de ministro, talvez…

Atento a novas oportunidades, recordo o papel que os portugueses já tiveram, nestas e noutras paragens, ao serviço de potentados locais no combate aos piratas (foi assim que “ganhamos” Macau!). Quem sabe, não estará também aqui uma solução para os nossos comezinhos problemas do emprego e custo de vida?

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