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eterno retorno?

Para quem como eu, nascido e criado nos tempos da Guerra Fria e do Grande Timoneiro, a queda do Muro, a implosão soviética e a revolução capitalista chinesa são processos históricos ainda difíceis de observar friamente. Como vai longe, por exemplo, o tempo em que os americanos receavam ser “comprados” (hollywood, indústria automóvel) pelos japoneses!

Agora, no maior momento de crise (e absoluta desorientação) dos Estados Unidos no último  meio-século, quem vem lhes estender a mão e dar palavras de ânimo?

 

O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, está disposto a “dar as mãos” aos Estados Unidos e ajudar o país a estabilizar os mercados e ultrapassar a actual crise financeira em Wall Street. “Se os sistemas financeiros e económicos dos EUA falharem, o impacto não se sente só nesse país mas também na China, na Ásia e em todo o mundo”, reflectiu.(…)
Mas num tom mais positivo, o primeiro-ministro considerou que o sistema financeiro americano não perdeu a sua credibilidade e que a economia dos EUA continua a ser “particularmente” forte em termos industriais e de novas tecnologias.(…)
Jiabao diz que as finanças da China estão muito ligadas à dos EUA e que a tem impactes negativos em Pequim
(in Publico de ontem, sem link, sublinhados meus)

Não é reconfortante e animador o tom e o sentido destas palavras? Não são ditas num momento crucial? Não serão também um aviso para quem se atreva a perturbar ainda mais a boa ordem dos mercados?

Curiosamente, o João Tunes faz referência às teses para o congresso (em Novembro próximo) dum certo Partido português onde se lê: Importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à “nova ordem” imperialista são os países que definem como orientação e objectivo a construção duma sociedade socialista_Cuba, China,Vietname, Laos e R.D.Coreia  (sublinhado meu). Fico na dúvida se a inclusão da China é gralha do João ou se está a citar um congresso do tal Partido de algumas décadas atrás; seja como for, João, é uma lamentável desatenção.

Já outra história é se o capitalismo chinês será irremediavelmente arrastado para a complexidade e contradições duma sociedade democrática e livre. Isto de ter Mao e Confúcio como maiores referências doutrinais pode ser enganador, de facto: o mesmo primeiro-ministro chinês cita Adam Smith numa entrevista para salientar algumas virtudes tipicamente confucianas (e muito pouco ou nada maoistas):

In 2008, China’s undemocratic capitalism looks like one hell of a bastard. What’s more, its leaders claim that it embodies some of those very virtues that Novak specifies for democratic capitalism – and which the American model seems spectacularly to have lacked in recent times. Temperance! Prudence! Justice! In a remarkable recent interview with Fareed Zakaria, which you can see on CNN online, China’s premier Wen Jiabao argues that China combines a market economy with macroeconomic guidance by government.

Amazingly, he illustrates his argument by reference to the two main works of Adam Smith. The Wealth of Nations, said Wen, highlights the need for the invisible hand of the market, while The Theory of Moral Sentiments shows the need for the visible hand of government, in the interests of social equity and harmonious development. (timothy garton ash in the guardian)

Dê por onde der, nestas coisas sigo a teoria marxista mais ortodoxa quando diz que não é impunemente que se altera a “base económica da sociedade”: “(…) quando uma base nova nasce, logo em seguida nasce a superestrutura que lhe corresponde” (José Estalin in A propos du Marxisme en Linguistique, ed. Sociales 1953). Para bom entendedor…

Já agora, e por citar o sempre saudoso czar vermelho: O supremo tribunal da Rússia reabilitou formalmente o último czar, Nicolau II, declarando que o assassínio do monarca e da sua família, em Ekaterimburgo, em 1918, representou uma acção ilegal das autoridades soviéticas. O tribunal decidiu “reabilitar” a memória de Nicolau II e declarou que a família imperial “foi vítima da repressão bolchevique” (in DN)

Isto faz-me pensar que não é só o João Tunes que anda distraído, também o Avante (apesar de toda a fiabilidade com que me habituou desde que tenho o prazer de o ler) cai no erro de confundir a Rússia do sec.XXI com a extinta URSS do sec.XX: no jornal fala-se ainda da Rússia como vítima duma campanha onde é pintada num retrato dantesco da Rússia actual, [campanha que]responde, afinal, à necessidade de mobilizar a opinião pública do Ocidente contra o único país com capacidade militar para conter a estratégia de dominação planetária dos EUA.

Provavelmente, e como digo mais acima, é por sermos todos filhos duma outra época e ainda temos muita dificuldade em nos adaptarmos às novas realidades…mas se coisas assim acontecem quem nos pode censurar?

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