novidades e outras coisas

Que hajam mortes por afogamento na época balnear não tem nada de surpreendente, mas espanta-me que se digam sempre as mesmas inanidades.

Como é possível alguém se afogar nos pequenos rios portugueses, às vezes simples ribeiras, de caudal muito reduzido no Verão? Desde sempre ouço mirabolantes lendas negras sobre certos rios ou certos pontos de determinado rio. Os poços, os remoinhos, as correntes, estão presentes no imaginário popular que já se alimentou de figuras aquáticas mais sugestivas (marinhas, cocas ou a melancolia lunar dos corações destroçados).

Nas minhas deambulações estivais sempre procuro o alívio dum banho fluvial, cada ano mais difícil pela falta de qualidade das águas (não sou daqueles que é capaz de tomar banho em águas comprovadamente nojentas alegando “que sempre o fiz e nunca tive problemas”, mas essa é outra das idiossincracias nacionais). Muitas vezes socorro-me do ocasional indígena para me indicar um local perto; raras são as vezes em que a recomendação não venha acompanhada de redobradas cautelas contra os famigerados poços, remoinhos ou correntes.

Já cheguei ao cúmulo de estar diante dum rio tão seco que mais não era do que uma sucessão de lagoas separadas pelo próprio leito a descoberto, argumentando contra um pacato veraneante local não ser possível haver ali, naquelas condições, a menor possibilidade de existência dos remoinhos para os quais me alertava e por causa dos quais a sua prole estava severamente restrita a molhar a planta dos pés no pedregoso cascalho das margens.

Assim como tenho tido diálogos absurdos sobre o perigo das “correntes” do rio em tempo de Verão e seca prolongada.

Já os “poços” é outra história, trivial e óbvia: locais onde subitamente se deixa de ter pé. Por causas humanas ou naturais, simples acidente de relevo.

Pelo que concluo que as pessoas falam do que não conhecem: o rio. E não conhecem por não saberem nadar. Ainda que essa dupla ignorância não iniba muitas delas de arriscarem um banho, e aí sim: o mais tranquilo dos charcos em tempo de Verão pode se tornar um perigo mortal, se for suficientemente fundo para que o incauto que não saiba nadar perca o pé.

Quando aprendi a nadar aos 5 anos, tive de prestar uma prova final que era um verdadeiro desafio à minha resistência fisica e coragem: atravessar “o poço”, assim chamavam à piscina onde se faziam os saltos de trampolim. Na minha imaginação e na dos meus colegas, era um imenso poço sem fundo que nos assustava só de olhar. Após alguns meses de aprendizagem, quando foi suposto sermos capazes de nadar, mas nadar a sério, fomos “lançados” para “o poço” pela primeira vez. Recordo ainda a minha tensão inicial, agarrado à segurança da escada da piscina e pronto a lançar-me no abismo sem fundo quando soasse o apito; e da pressa com que nadei para a segurança da escada do lado oposto da piscina. Creio que foi a prova iniciática mais importante da minha vida. Escusado será dizer que a minha filha aprendeu a nadar muito cedo, e sempre entendi que foi o melhor seguro de vida que lhe fiz.

Por isto fico triste sempre que tenho conhecimento destes estúpidos acidentes de Verão: miúdos e graúdos que, sem saberem nadar, se lançam para águas onde podem, ou não, ter pé. Espanta-me, também, que ainda hajam tantos jovens que não saibam nadar, já que uma das coisas boas que tenho assistido pelo país é a proliferação de piscinas municipais. Porquê, então, insistir que a culpa é solteira e assim há-de morrer: “o passado é responsável por esta situação“?

Provavelmente, outras medidas de educação elementar de sobrevivência terão de ser reforçadas: o cuidado de não tomar banho após as refeições, a noção do perigo do choque térmico.

E se o banho for no mar há que lhe “tomar o pulso” antes e durante o mergulho. Podem acusar o mar de ser traiçoeiro, mas o mar é o mar, tão tranquilo umas vezes como perigoso sempre, e mesmo o melhor nadador se pode perder nas suas águas.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Nuvem de etiquetas

%d bloggers like this: