novidades e outras coisas

Como português nascido no início da década de 60 do século passado, tenho crescido com a ladaínha das comemorações da instauração da República e o cortejo dos velhos republicanos (cada ano menor) a lamentar a ignorância dos “novos”,  a perda da memória e essas lamúrias que ainda ontem ecoaram no parlamento a propósito do 25 de Abril: Os mais novos, sobretudo, quando interrogados sobre o que sucedeu em 25 de Abril de 1974 produzem afirmações que surpreendem pela ignorância de quem foram os principais protagonistas, pelo total alheamento relativamente ao que era viver num regime autoritário

Também cresci com as celebrações em memória dos que morreram na Grande Guerra (a primeira, claro).

Quando digo que “cresci” é somente no sentido de que, todos os anos, há um feriado ou um dia votivo que me recorda algo completamente marginal ao meu quotidiano, ao meu futuro e às minhas preocupações transcendentais (seja lá o que isso queira dizer…).

Porém, tal como os velhos gregos já alertavam, o Destino, os Fados, quando não as próprias Parcas, pregaram-me a partida de ser contemporâneo, testemunha consciente, participante passivo, figurante activo, de tudo o que se relaciona com o 25 de Abril de 1974: o antes, o dia e dias seguintes, o PREC, e tudo o mais que se lhe sucedeu até aos seus desenvolvimentos actuais, como a demissão de Luis Filipe Meneses da presidência do PSD e a lapidar frase de José Sócrates “toda a gente sabe que as dificuldades vêm de fora“.

Ou seja, e dum modo que me deixa sempre senilmente chocado, verifico que tantas pessoas com menos 5, 10 anos do que eu já não se recordam dos momentos fundadores do regime democrático, dos seus fugazes, mas decisivos protagonistas, do ambiente eufórico a que se lhe sucedeu um clima de intensa conflitualidade social, num processo político apaixonante e demolidor que foi, simultâneamente, o mesmo processo político que ergueu o actual estado de direito, de convivência democrática, numa Europa comunitária ainda em construção.

Mas se for a pensar nas pessoas com menos 20, 30 anos, que ilusões posso ter sobre o que pensam desses conturbados tempos?

Para ultrapassar o choque, faço esta terapia de memória das vidas passadas: que grandes recordações me ficaram da IIª Guerra Mundial? Afinal, nasci apenas 17 anos depois do seu término. Os tais jovens que, no parlamento e ainda ontem, foram instados a “não desistirem”, e que tenham nascido 17 anos depois do 25-A, terão precisamente 17 anos: uma idade muito razoável para querer mudar o mundo ou, se forem muito básicos, para terem preocupações com o futuro imediato.

Pois, da IIª Guerra Mundial tenho muitas e variadas memórias, sim. Não por ter na família quem passasse por lá, pela guerra, mas porque cresci com os bons e velhos filmes americanos/ingleses a preto-e-branco (cortesia da televisão única ou rtp) nas noites de 4ª feira e nas tardes de sábado e domingo. Sem esquecer o contributo bibliográfico da “colecção falcão”, num quiosque da rotunda da Boavista. Ou as idas ao cinema (Rivoli-Batalha-Coliseu).

Hoje em dia, com dezenas de canais por cabo, internet, video-clubes, cinemas multiplex, megalivrarias, imprensa em papel e on-line, canais televisivos de notícias, não fica fácil para quem não saiba, para quem desconheça, se interessar e aprofundar alguma coisa por assuntos tão longínquos e abstractos como o 25-A.

Outra questão, levantada no parlamento, foi a da baixa, baixíssima cultura política dos jovens, da baixa, baixíssima participação associativa, sindical ou outras. Aí, cito a intervenção mais estimulante vinda dum deputado (Moura Soeiro): “A minha geração, a dos 500 euros, vive na corda bamba, congelada pela precariedade.(…)a precariedade foi-nos imposta como modo de vida: nenhuns direitos, nenhuma capacidade de projectar um futuro.”

Pode ser uma versão renovada da nossa lusitana capacidade de automortificação, ausência de auto-estima e apelo a uma ajuda vinda de cima, mas não deixa de ser o contraponto ao aforismo “não há democracia sem política e não há política sem ideias políticas” (Jaime Gama).

Ideias e acção política, portanto. Daqui a pouco estamos a citar o velho Lukács, a práxis e o realismo socialista, apre!

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Nuvem de etiquetas

%d bloggers like this: