novidades e outras coisas

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Do que vi no famigerado vídeo, tenho de concordar que o mais chocante é a atitude colectiva dos alunos que presenciaram a cena. Vou por partes:

 

1) a “brutalidade” propalada é deveras “decepcionante”, e é lamentável que se crucifique a rapariga pelas imagens que passaram. Não que esteja isenta de responsabilidades por ter menos de dezasseis anos, mas por outras razões que exponho adiante.

2) já ouvi e li críticas à actuação da professora, e concordo que podia ter actuado de outro modo. Mas, receio bem que não tenhamos (nós, sociedade, nós, portugueses, nós, cidadãos contribuintes-eleitores, nós, encarregados de educação) autoridade para exigir que um professor enfrente sozinho problemas desta natureza.

3) o comportamento colectivo dos alunos, entre a chacota e a passividade, ainda que com tímidas e isoladas tentativas de mediação, é o reflexo da falência da Escola como local de formação cívica. E isso nem é de hoje.

Ontem, num telejornal, passou um outro vídeo que foram desencantar: a professora “papagueava” a lição frente a uma turma onde alguns energúmenos “javardavam” ostensivamente, insultando-a. A professora actuava como se nada passasse, os energúmenos divertiam-se e o resto da turma  calava e consentia (se bem que me parecesse evidente o constrangimento da maioria).  

São estas cenas alguma novidade? Infelizmente, não. E longe do pior que já ouvi contar em salas de aula, recreios e imediações das escolas. Culpas? Ah, sim: a culpa! Os culpados! O tique característico duma sociedade invertebrada: para cada vício público, o merecido castigo e não se fala mais disso.

Se faz sentido a velha expressão “a culpa é da sociedade”, este é um exemplo típico: culpa-se o governo (assim faz alguma oposição), culpam-se os alunos reguilas (assim fazem os partidários da ordem e da autoridade à moda antiga), culpam-se os professores incompetentes (ou os conselhos directivos das escolas) por não saberem lidar com a violência (assim fazem alguns pais e curiosos), culpam-se o 25 de Abril (de 1974) ou a sociedade actual (assim fazem os velhos reaças e novos puritanos), culpam-se os gangs que vêm de fora da escola (assim faz um secretário de estado(?) do ministério da educação), culpam-se os pais dos alunos (assim fazemos todos)…

Ah, e culpam-se os telemóveis! Ou assim começo também a ouvir (de responsáveis do ministério, das escolas, do governo, da oposição, das associações de pais…).

Já agora, também podem culpar os programas tipo Big Brother que tornaram momentos deste calibre o prato forte da noite em família e das conversas de ocasião.

Porém, este episódio ilustra muito claramente a falácia das avaliações de desempenho individual (como agora se fala para os professores), sem haver uma avaliação de desempenho das estruturas onde quem trabalha está inserido.

E aqui é o ponto onde quero chegar: a escola pública não está preparada para lidar com estas situações, nem com outros flagelos muito diferentes (mas concomitantes), como a iliteracia camuflada, a desmotivação para a aprendizagem, problemas familiares e sociais elementares, etc.

E essa é uma questão política, com implicações legislativas, administrativas, com custos económicos e responsabilização das partes, tanto a nível da segurança como legalmente. Mas para quê falar disso se o vídeo incrimina uma rapariga evidentemente transtornada, permite responsabilizar (criminalmente?) o autor das filmagens e ainda sobra uma mão cheia de medidas avulsas para tornar o quotidiano de professores e alunos mais penalizador?

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Comentários a: "sobre o telemóvel do Carolina" (2)

  1. Acerta vostede, benquerido pepe, na súa análise e en non tentar dar unha solución ó problema, porque non existe. Alomenos, unha soa non.
    Si mo permite, quero engadir unha reflexión que me leva dado voltas na cabeza como materia prima para un artigo.
    No meu escaso sentido común, si eu fixera algo polo que sei que podo ser acusado, castigado ou verme perxudicado como consecuencia, faría o posible por evitar que se tivese consatancia de ese meu acto. ¿Non faría vostede o mesmo?
    Non sei si os actuais adolescentes son, efectivamente, a xeración “Big Brother” ou si algo os fai máis tontos que todas as anteriores nese aspecto concreto, pero en ningún caso me parece unha boa nova.

  2. Aí está um bom tema de reflexão, Miguez.

    E vou dar uma achega: assim como os políticos (tanto os institucionais como os anti-sistema) tiveram de aprender às suas custas (e continuam sempre a aprender) como lidar com a comunicação numa sociedade hipermediatizada, a geração “big brother” também levará o seu tempo a interiorizar que o mais simples ou íntimo acto pode ser gravado, manipulado e exibido perante milhões de pessoas.

    Os casos que trouxe à baile neste post só são notícia, só têm consequências agravadas para os seus protagonistas, por essa razão. De outro modo, ficava-se por ali como tantos casos semelhantes que se dão todos os dias.

    E não é, certamente, uma boa nova que problemas que podem, e devem, ser resolvidos a uma determinada escala (no caso, na instituição escolar) se tornem o écran em que toda uma sociedade se projecte e queira disso fazer exemplo.

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