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males venéreos

key055.jpg A Vénus aqui ao lado é datada de 1532, exposta ao público,habitualmente, num museu algures em terras germânicas. Tornou-se especialmente conhecida como ícone da série “Desperate Housewives”, ainda que de modo anónimo, mas com uma intencional animação que bem poderia já estar na cabeça do velho Cranach quando a pintou.

Um outro museu, desta vez em terras britânicas, resolveu fazer uma exposição deste autor e colocar cartazes alusivos no metro londrino com a “Vénus” como referência visual.

cranach460.jpg

Ao que parece, quem decide estas coisas no Metro de Londres não achou por bem a exibição de tão flagrante nudez e sensualidade. Num primeiro momento, fosse por reflexo vitoriano, fosse por complexo pós-11 de Setembro. Ou por ambos. 

Entretanto, cederam à pressão mediática e ao lobby artístico que quiseram ridicularizar a prudência sanitária de quem tem de zelar pela segurança e bem-estar dos utentes do metro londrino: “On reflection, given its context, the Cranach exhibition poster should not have been rejected and we have now approved the ad to be carried on the tube.” Um modo de dizer que pensando melhor, vamos fazer hoje o contrário do que ontem diziamos.

Porém, os motivos para tal restrição eram pertinentes: “Millions of people travel on the London Underground each day and they have no choice but to view whatever adverts are posted there. We have to take account of the full range of travellers and endeavour not to cause offence in the advertising we display” (in Guardian). O que, em bom português, significa que alguém deve acautelar o material publicitário exposto, e perante o qual não temos outro remédio senão “ver”, para evitar que nos possam ofender.

Ainda por cima, o “material” publicitário proposto ao metro de Londres cai numas orientações quaisquer contra a exibição de nús em explícito contexto sexual. Dirão os menos susceptíveis que a publicidade à lingerie, por exemplo, que habitalmente se vê nos metros do Porto e Lisboa, até será algo mais explícita, sem que venha mal algum ao mundo (não há manifestações de protesto, nem desacatos, presume-se que queiram insinuar). Pode ser.

Mas há uma grande diferença que não escapou à sensibilidade puritana da administração do metro de Londres: o corpo nú da publicidade tem uma mensagem clara e acessível a todos (“compra isto e serás assim como eu…ou para lá te aproximarás um poucochinho, ao menos“), é promessa e é negócio, o erotismo funciona como motor e como paisagem.

Já não a “Vénus”, helás! Associada a uma iniciativa cultural (cujos mecanismos industriais permanecem pouco claros ao consumidor), sua nudez assume-se como “gratuita”, sua intencionalidade não é evidente e seu apelo não tem o “sex-appeal” convencional. Sua presença em lugar tão público e banal nunca será anódina, imediata e passageira.

Ao contrário: seu estatuto artístico e vetustez em semelhante local, é só por si uma interpelação directa aos nossos hábitos mentais; o seu erotismo assumido (e manifestamente datado) escapa ao sentido da norma sexual corrente. E, contudo, é espantosamente actual, perturbadora e bela. Com toda a carga erótica explícita e subliminar que carrega.

Por outras palavras, arrisca-se a ser matéria de reflexão e inquietação para os desarmados utentes do metro. São daquelas coisas difíceis de explicar, mas que tornam a arte uma actividade imprevisível, subversiva e rica de significados (eventualmente contraditórios). O que todo o bom puritano, seja qual for a matriz, sabe intuitivamente.

Não, João, a “burkha” da proibição fazia todo o sentido.

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