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guerra colonial na RTP

Gostei do que vi no documentário de Joaquim Furtado na RTP: abundantes imagens de arquivo contextualizadas por uma locução sóbria e pelo testemunho dos actores dos acontecimentos.

E quando digo actores são mesmo actores, ainda que muito secundários: homens que pegaram em armas, atravessaram matas e picadas, de ambos os lados dum combate que se veio a revelar inglório e trágico, tanto para o Portugal colonial, como para as futuras nações africanas independentes. Registar a memória viva dessas pessoas, já no sec.XXI, e pô-las em diálogo com a História é o maior serviço público que se pode desejar num país que esteve envolvido numa guerra, há pouco mais de trinta anos,  mobilizando os seus melhores recursos (os humanos, pois claro!).

Curioso como a memória desta guerra ainda está recalcada no nosso imaginário colectivo: muitas das vezes que sou levado a recorda-la em propostas de ficção ou em alusões históricas é na perspectiva daqueles que a trazem marcada no corpo e no espírito. Mas e o resto da população que sofreu suas consequências? Que sentem hoje, como interpretam o que viveram então?

A guerra começou antes de eu nascer e terminou pouco depois de fazer doze anos. Creio que só um primo meu chegou a partir para Angola, recém-casado, prestando um serviço militar longo (creio que três anos) e em combates. Dele e da família ficaram-me as lembranças mais vivas das angústias desse tempo. Também recordo, em especial, a ansiedade duma vizinha que vinha a nossa casa levantar o “carbograma” (era assim que se chamavam a umas folhas amareladas usadas para a correspondência e agora que escrevo acho que seria o papel de carta dado aos militares, com cópia para entregar à Censura…seria?), enviado pelo filho mais velho algures em Angola.

O que tenho mais nítido era a precupação geral em “livrar” os filhos da tropa, fosse adiando a incorporação fazendo-os entrar na Universidade, fosse por expedientes menos óbvios. Como meu irmão mais velho fez 15 anos em Março de 1974, essa já era uma preocupação que os meus Pais manifestavam e que deixaram logo de ter. 

E tenho uma muito vaga ideia de ouvir falar de alguém que “tinha arruinado a vida”, fugindo do país para não ir à tropa (“nunca mais vai poder voltar” era o lamento em coro que registei, não a acusação de covardia ou traição). Já me recordo bem do meu Pai trocar livros “proibidos” com alguns amigos, geralmente edições em francês, sobre a guerra. Muito tempo depois, ao ler um desses livros, fiquei espantado com o seu conteúdo tão pouco revolucionário (mas ao admitir a irreversibilidade dos processos descolonizadores, bastava para se tornar um perigo para o regime).

Viver nesta atmosfera é qualquer coisa de completamente estranho para a geração da minha filha, hoje com 15 anos, para quem este periodo da história do seu país é tão distante, ou mais, do que para mim é a IIª Guerra Mundial. Quando falamos de guerras, em Portugal, falamos como um fenómeno do passado remoto ou de remotas regiões do mundo, mas a guerra colonial faz parte do código genético do golpe de estado que está na origem da sociedade democrática, pacífica e (relativamente) próspera em que vivemos. E marcou de modo variável alguns milhões de portugueses ainda vivos.

Ainda há nostálgicos do Salazarismo que recordam com gratidão o homem que nos “salvou” da IIª Grande Guerra! Dezasseis anos depois do final desta, o grande homem encurralou os militares portugueses num conflito armado em Goa que só não foi trágico porque o responsável no local teve a coragem de não levar as ordens superiores à risca.

Ora, um dos aspectos que ficaram bem evidentes no 1º episódio do documentário foi o completo desconhecimento, em Luanda e em Lisboa, das actividades de preparação duma guerra de guerrilha no norte de Angola, fronteira com o acabado-de-descolonizar ex-Congo Belga! Pelo que ouvi ontem, as forças armadas portuguesas em Angola estavam mais vocacionadas para um conflito europeu entre os dois blocos mundiais, do que para o que veio enfrentar e era previsível: uma guerrilha em luta pela independência. É caso para perguntar se a PIDE chegou a existir…

Ontem também vi o que nunca havia visto: manif’s de protesto, em Luanda e em Lisboa, contra os Estados Unidos e a sua política a favor da descolonização. Já conhecia as manif’s do regime, ordeiras, muito concorridas, como a de agradecimento a Salazar por ter, precisamente, “salvo” Portugal da guerra (a outra, a IIª Grande Guerra). Mas quando vi, na de Luanda, um automóvel do consulado americano ser vandalizado pelos manifestantes, vieram-me à memória as cenas pós-25 de Abril frente à embaixada de Espanha, em Lisboa. Também apreciei o sentido de humor de alguns panos da manif’ em Lisboa, reclamando a descolonização dos índios americanos, o que também me levou a comparar com o sentido lúdico das manif’ s que vieram, anos depois, a se fazer nos próprios Estados Unidos contra a guerra do Viet-nam.

Mas o que me deu gozo, mesmo, foi nesse desfile de Lisboa, inícios dos anos 60, ver um manifestante escaqueirar uma montra à marretada (não percebi se era de alguma empresa americana) e surgir o típico polícia português de cassetete na mão, a encaminha-lo novamente para o desfile, sem dar as bordoadas da praxe, nem o detendo para identificação.

Só por este pormenor, valeu o episódio de ontem.

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Comentários a: "guerra colonial na RTP" (7)

  1. Valeu mesmo a pena ver o programa, como aliás vejo todos. Há que encarar as verdades.

  2. Ex-combatente X said:

    Vi o programa,,, mas não gostei. Vi gente, que da guerra só a viveu, vendo-a de DO (Dornier). Quanto ao “carbograma”, para nós militares era e é “aerograma”. Estive ligado ao Reconhecimento de Transmissões, com algum controlo pela PIDE e nunca nenhum deixou de chegar intacto a Portugal. Já agora, a PIDE tinha conhecimento do que se estaria a preparar no Norte de Angola. Salazar também tinha. Se calhar mal aconselhado, por alguns dos intervenientes do tal programa, “acordados”, apenas pelos massacres que se seguiram.

  3. Ex-combatente e residente em Moçambique

    Fiz parte da companhia de transmissões de Moçambique, fui destacado para o Norte de Moçambique “Metangula” no periodo de 67/69 e deixei o serviço militar em 71.

    Vi as filmagens da guerra colonial do Ultramar de Joaquim Furtado, pessoalmente não gostei, sobretudo as que vieram revivar imagens que estavam quase apagadas no subconsciente de todos nós que estivemos a ferro e fogo no terreno a viver aquele inferno, é muito deloroso passados trinta e tal anos ver e recordar aquilo que nós ex-combatentes tanto queremos apagar.

    As opinões são muitos diversificadas sobre esta matéria e como tal, devem ser tratadas como pessoais.
    Como combatente entendo que a nossa luta “ingloriosa” foi traida pelos traidores da Nação Portuguesa ocultos na época, foi sempre em defender a liberdade e o bem estar dos povos nossos irmãos de África, era preciso travar a pressão politica externa que nessa época exercia-se sobre o nosso Ultramar, exemplo de homens como general Kaulsa de Arriaga que promoveu as operações militares “Norgordio” para abrandar essas pressões, práticamente sentidas em alguns locais do Norte de Moçambique, foram desclassificadas pelos traidores de Lisboa, todo esse trabalho não produziu grandes efeitos no terreno, e o homem é retido da linha da frente de trabalho, e regressa a Lisboa. O governo de Lisboa nessa altura já governava no sentido da democracia e de boa fé, só que os falsos conselheiros davam falsas informações sobre a situação politica naquelas terras.
    A nossa convicção como combatentes locais, era que após a garantia de estabilidade politica armada pelos nossos irmãos menos ilucidados que pegaram em armas, a independência aconteceria de uma forma séria planeada e passifica, salvaguardando os bens de toda uma vida de gerações negra/branca, produzida pelo esforço e trabalho de todos sem excepção, e súbitamenta foi tudo deitado por terra, com o aparecimento dos politicos escrupulosos que desprezando todo o sacrificio daqueles que lá trabalharam para a construção e desenvolvimente daquelas terras.

    A defesa da soberania Portuguesa naquelas terras, todos nós sabiamos que tinho os dias contados.
    Não é fácil para as pessoas que estiveram fora deste cenário compreenderem o que sentimos!!!!

    A coragem e empenho na construção destas filmagens e comentários desta guerra, são rasoáveis, deveriam uma vez que o empenho era divulgar as divergências politicas entre uns e outros, devia haver mais testemunhos oculares das personagens do exército Português das três principais frentes dessa guerra.
    Em minha opinião só tem valor para história, porque a história deve ser passada para as novas gerações.
    A humanidade sempre viveu em conflitos, gera guerras umas atrás das outras, houve e sempre haverá guerras em todas as gerações, enquanto houver interesses gananciosos pessoais e materiais.

    Finalizando este meu comentário, tenho uma angustia enorme por ver todos os protagonistas que contribuiram para a desgraça de muitos Portugueses não serem julgados pelos seus actos. A prática da justiça deve ser feita pelo homem em vida, para dar repouso de consciência aos que sofreram e sobretudo os inocentes e os que deram a vida pela causa que defendiam de alma e coração, o julgamento póstomo não serve de justiça, só divina.
    Na verdade não era preciso fazerem o 25 de Abril, o mundo formou-se com um grande fenómeno “auto-transformação”.

    Por Portugal

  4. Caro ex-combatente alfa
    o seu comentário é um precioso testemunho pessoal para quem não viveu esse tempo histórico ou uma realidade semelhante.
    Para mim, o programa do Joaquim Furtado tem a qualidade de pôr pessoas com rosto e nome a falarem sobre sua experiência na época.

    Fico sempre com a impressão de que, passados os conflitos, a sina dos ex-combatentes é a de “lamber as feridas” (sem qualquer sentido pejorativo), e fazem-no geralmente sózinhos, no seio da família que nem sempre os entende e apoia, com outros camaradas que vivem a mesma dificuldade em partilhar o indízivel ou difícil de lembrar.

    E numa sociedade que tudo faz para os esquecer, não por desprezo, mas por ter outras urgências e porque o futuro é sempre mais exigente do que o passado.

    Daí que, a lição que tiro, ser a de acreditar pouco nos apelos patrióticos ao sacrifício colectivo e às dicotomias entre nós, os justos, e os outros, os maus.

    Entre outros méritos, a série do Joaquim Furtado confirma como o governo do dr.Salazar foi imprevidente, estudara muito mal a lição de Goa e usou as pessoas (soldados, colonos, indígenas) como peões dum xadrez para o qual não tinha estratégia.
    um abraço

  5. Estou a escrever só para dar o meu comentário, a respeito da tal reportagem a que se estão a referir, pois tal como o camarada militar que esteve em Metangula, eu também sou de transmissões e de 1967/1971, rádiotelegrafista por isso devemos ter sido da mesma incorporação, só que eu fui para Vila Cabral.
    Quanto á reportagem, a minha opinião é só uma, só é pena é o autor da dita reportagem, não ter batido com os custados em zona 100% operacional, para ver se as ideias dele não se mantinham.
    Basta só isto, um abraço a todos os que estiveram nos vários combates e frentes de luta.

    Zé Grande

  6. Lisboa (como era conhecido) said:

    Não vi senão um ou dois episódios e por sorte ou azar, daqueles que quase que só mostravam entrevistas e algumas delas sem grande importância pelo menos para mim.
    Sou um dos que para a guerra colonial foi empurrado…e digo empurrado com toda a razão pois foram-me apanhar no Jardim de Estrela (um policia)onde estudava para o ultimo exame da época no antigo ISEL (Instituto Industrial de Lisboa), do 1º. ano de engª. civil e minas, que passei em primeira época e com notas bem altas,o que para a altura era um feito.
    Que fiz de errado?Interessava-me tanto o que se passava que me esqueci de entregar o comprovativo das minhas habilitações literárias.País atrasado aquele que tal como agora temos que ser nós, o cidadão a substituir-se ao Estado que não tem forma de confirmar nada…só quem deve impostos e mesmo assim mal como se vê.
    Assim, levado pelo policia lá tive que me apresentar no DRM na rua do passadiço e levei com uma guia de marcha para a Carregueira onde, na incorporação seguinte, (o que me permitiu fazer o tal exame), fui incorporado como soldado, só mais tarde e depois de levantada a nota de refratário, fui para o CSM, depois mobilizado, tive que tirar minas e armadilhas em Tancos e marchar para a guerra depois de 28 meses de exército em Portugal.
    Será que alguém imagina o que fui conhecendo do nosso exército, seus comandantes, os milicianos como eu e os soldados tanto Portugueses como Africanos e ainda os Catangueses e mercenários como os que conheci (Bob Denard entre outros), evacuados do Congo ex-belga, a lutarem contra os capacetes azuis da OTAN?.
    Não comento a série televisiva pois como já disse não tive oportunidade ver tantos episódios que me dessem a possibilidade de poder esgrimir argumentos a favor ou contra.
    No entanto, tenho procurado ler artigos, criticas, comentários e julgo que a mesma se prestou a alguns exorcismos.
    Devo confessar que da mesma forma que antes de ser incorporado no exército ligava a isso, assim aconteceu quando para mim acabou. Esqueci de imediato, nunca mais confraternizei com antigos companheiros de exército e da guerra e levei a minha vida como se esse episódio não tivesse acontecido.
    Aliás a única coisa que comentava e recordava foram os 9 meses de vida noturna que levei quando colocado na Capital, depois de 17 de mato, numa das piores zonas da altura.
    Isso sim ainda hoje comento com amigos ao almoço ou a tomar uns “whiskyes”.
    Pelo que tenho tomado conhecimento, muito ficou por contar…principalmente os pelotões de fuzilamento que funcionavam em paralelo com a psico-social o que demonstra bem a qualidade de estrategas que tínhamos ao mais alto nível de Comando e que posteriormente viraram, muitos deles em democratas, políticos, comentadores e fazedores de opinião…é triste mas é verdade.
    Tal como um comentário aqui publicado, era necessário que o documentário “A Guerra” tivesse sido feito por alguém que tivesse tido contacto com o que se passou…poderia distinguir o trigo do joio com maior propriedade e se calhar fazer as perguntas impertinentes e indispensáveis para despir algumas roupagens.
    Peço desculpa se fui muito longo mas, como devem compreender podia escrever dois livros sobre isto, sempre foram 54 meses num exército comandado, salvo as devidas e merecidas excepções (e são algumas), por “bananas” que apenas olhavam o lucro que da guerra podiam tirar e muitos bem se orientaram…
    Será que poderão elucidar se a série está à venda?

    Lisboa (conheciam-me assim na “tropa” mas não sou lisboeta, vivi lá muito tempo…)

  7. Henrique Mota said:

    Caros amigos! Vi todos os documentários sobre a guerra colonial, em que me vi envolvido contra a minha vontade. Havendo hoje condições de diálogo franco e aberto entre os que ontem se guerrearam, eu pergunto de que está à espera a RTP para fazer programas expecíficos que embora apresentando imagem recolhidas à época, ponha como comentadores, personagens que, de um e outro lado da barricada, estiveram envolvidos no conflito. Evitava-se os comentários parciais que por vezes nos dão a ideia de que uns eram os “bons”, e os outros os “maus”. A guerra colonial só será nalizada com izenção, quando forem postos em discução, todos os factos que ao longo da colonização portuguesa, contribuiram para a animosidade entre colonos e colonizados. Sobre, já nos nossos dias, de quem terão sido os principais culpados das milhares de vítimas inocentes, basta perguntar porque motivo Salazar virou sempre as costas às várias propostas que os dirigentes nacionalistas lhe fizeram, antes do eclodir do conflito. Saudações – Henrique Mota

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